CONFISSÃO #13: EU ME SENTIA SUJO

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PARTE 32- TRINTA E DOIS

Janeiro sempre teve um sentido diferente para mim. Isso pelo fato do meu aniversário ser no dia 19. Mas para ser sincero, nunca gostei de comemorar aniversário. Não sei explicar o real motivo, mas não me sinto confortável em uma festa feita para mim. Nunca consigo dar atenção para as pessoas, nem interagir com elas.

Porém, dia 19 estaria completando 32 anos. Meu primeiro aniversário sendo portador do HIV. Ainda cheio de incertezas, mas tentando ver as coisas de uma nova ótica. Este aniversário eu precisava comemorar. Comemorar com direito a língua de sogra, chapéu e balões coloridos. Esse ano me parecia que tinha um motivo muito verdadeiro para celebrar: a vida.

Foi o que fiz. Não foi nenhum festão, mas muitos dos que importam para mim estavam na minha casa. Parentes, amigos.... Meus pais pareciam mais felizes que eu inclusive. Ainda era muito recente, quatro meses como soropositivo. Foi uma festa interessante. Como de costume não interagi muito. Mas observei a todos com satisfação. Acho que foi a única vez em que eu estava como anfitrião de meu aniversário e estava confortável com isso. Eu estava tentando ser otimista.

PARTE 33 - AS FOTOS

Desde 2005 que eu sempre comemoro meu aniversário fazendo um book fotográfico. É um processo que muitos enxergam como vaidade, mas para mim, vai muito além disso.

Eu faço toda a criação artística, escolho roupas, iluminação, poses e tudo que está envolvido. Faço um trabalho físico para estar me sentindo bem comigo mesmo. Às vezes tiro um pouco da roupa, às vezes quase toda. É algo que eu sempre faço querendo passar uma mensagem, por isso acontece justamente próximo do meu aniversário. É um marco anual da minha vida em imagens.

Em 2014 eu pensei em deixar para lá. Eu não estava conseguindo treinar, estava me achando feio, sujo... Estranho. Estava sem nenhuma confiança. Autoestima baixa. Mas mesmo com todas essas coisas, recebi o incentivo de minha mãe e percebi que isso poderia me fazer bem. Então mudei de ideia na última hora. Não estava nem perto fisicamente de como costumava estar, mas eu passei a pensar que esse ano seria para marcar um recomeço e a marca de o início de uma luta.

Assim o fiz. No meio de balões de aniversário, sem muita pretensão, sem barriga de tanquinho, mas talvez pela primeira vez, lúdico e sorrindo de verdade. Durante o ensaio fotográfico eu pensava: "que bom que eu ainda posso fazer isto". Olhando hoje, tenho um carinho especial por elas. Foi bom ter mudado de ideia.

PARTE 34 - ADORO SALMÃO

Pouco tempo depois, em fevereiro, fiz meu segundo exame de CD4 e Carga Viral. No início eu fazia de três em três meses. Para minha surpresa, meu CD4 tinha pulado para 1554 e minha Carga Viral continuava indetectável. Agora eu poderia efetivamente tentar me relacionar com alguém sem medos.

Claro que não fiquei em jejum sexual todo esse tempo. Mas eu tinha me policiado de que não teria mais nada sério até me sentir mais confiante.

Nesse período uma amiga muito próxima queria me apresentar um amigo. Depois de alguns desencontros acabamos nos encontrando. Graças à internet, que facilita esses contatos. Após alguns dias de conversa, ele me convidou para jantar um salmão com ele em seu apartamento. Aceitei, adoro salmão.

Minha amiga tinha me avisado para não abrir minha sorologia para o rapaz. Segundo ela, se ele me conhecesse primeiro talvez pudesse se apegar e depois enfrentaria o problema de outra forma. Mas eu não consigo. Eu precisava falar e realmente falei. Lembro de sua resposta: "isso só me faz eu me orgulhar mais de ti, por sua honestidade". Deixei claro que entenderia caso ele mudasse de ideia sobre o salmão, mas ele manteve o convite.

Empolgado e feliz por alguém finalmente aceitar minha sorologia, eu comprei um pote de sorvete napolitano para a sobremesa. O que mais eu queria? Alguém que supostamente me entendia, salmão e sorvete. Noite perfeita.

Porém eu percebi que de repente as coisas não seriam mil maravilhas quando nosso assunto foi praticamente HIV. Não todo, mas grande parte. Mesmo assim, depois da janta sentamos para conversar e o óbvio aconteceu.

Foi neste momento que eu percebi que por mais que carregado de boa vontade, aquele menino apenas pensou que levaria a situação tranquilamente. Senti isso logo no primeiro beijo. Você sabe quando alguém quer te beijar. Quando uma pessoa te beija e mal abre a boca, ela não está realmente com você.

O beijo é o melhor termômetro para saber quando alguém está envolvido por você. Você sente no beijo. Eu senti no beijo dele medo, apreensão, pena e, poderia dizer, até um pouco de nojo - por mais que ele não quisesse sentir isso. Mas acho que tudo se confirmou quando tentei tomar uma iniciativa um pouco mais arriscada e recebi um: "não tem necessidade disso". Só ajudou para reforçar em mim aquilo de que no fundo eu estava sujo. Me senti imundo.

Vesti minha linda camisa xadrez rosa com verde que eu mesmo tinha tirado. Coloquei meus sapatos, agradeci a janta e pedi para ir embora. A história ficou ali e eu obviamente fiquei mais uma vez frustrado. Eu acho que ele tentou, se esforçou para não ter uma atitude preconceituosa. Honestamente, eu preferia ter sido dispensado logo no inicio.

HIV/AIDS - Confissões de um soropositivoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora