CONFISSÃO #20: APRENDI QUE MINHA SOROLOGIA NÃO PODE DEFINIR MEU AMOR

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PARTE 48 – BONITINHO, MAS MENTIROSO

Existia um menino que tinha ficado solteiro fazia pouco tempo. Ele era ex-namorado de um ex-namorado que eu tive pouco tempo antes de saber minha sorologia. Esse rapaz é muito bonito e simpático. Pelo menos parecia olhando assim de longe. Quando ele se assumiu os gays da cidade ficaram todos loucos, ele ficou solteiro e vocês podem imaginar o que aconteceu.

Não sou o tipo que manda solicitações de amizade em redes sociais, ainda mais para um ex de um ex. Mas isso não quer dizer que não vá conversar caso eu seja o adicionado. Numa sexta-feira, quase meia noite eu recebi uma solicitação de amizade justamente deste rapaz. Logo que aceitei, ele já foi me chamando. Achei engraçado pelo fato dele parecer querer falar muito comigo. Eu perguntei se o ex dele sabia que ele tinha me adicionado, mas ele foi muito claro ao dizer que não tinha que dar satisfação para ninguém.

Em menos de 15 minutos ele já estava me convidando para dar uma volta, para irmos até um bar conversar. Eu fui. Então, eu sabia que era impossível que ele não soubesse de minha sorologia e não soubesse que eu era ex de seu ex-namorado. Mas, segundo ele no decorrer do assunto, ele não sabia de nenhuma das duas coisas.

Sinceramente me pareceu mentira. Eu entendi o motivo do convite para aquele passeio. Não demorou muito para o assunto doenças venéreas surgir. Na verdade, para mim ficou muito claro: o menino queria saber se eu transava sem camisinha com seu ex ou se ele que teria me passado alguma doença.

Mesmo assim, percebendo toda aquela atuação eu fui bem didático. Expliquei muitas coisas das quais ele não sabia. Ele já achava que ia morrer. Já deduziu que tinha alguma doença. Eu sempre deixei claro que não sei como contraí o HIV, e reforcei isso para ele. Mas indiquei que ele fosse ao COAS, inclusive me ofereci para ir junto.

Segundo ele, na segunda-feira ele esteve lá, fez o exame e deu negativo. Não me importa se é verdade ou mentira, é a sua vida. Depois disso, ele era extremamente grosseiro toda vez que eu tentava falar com ele, até que um dia eu o excluí de minhas redes sociais. Não me incomodo de prestar ajuda a pessoas que se sintam confusas ou estão com medo de fazer o exame, mas tentar me sondar para saber sobre outra pessoa é muita desonestidade. Mesmo se eu soubesse de algo, eu seria um canalha se abrisse sobre a sorologia de outra pessoa para qualquer outra pessoa, especialmente alguém que acabei de conhecer.

PARTE 49 - EU TAMBÉM MEREÇO

Pouco tempo depois desde incidente, eu conheci via aplicativos um outro menino. Um rapaz que me disse respeitar minha condição sorológica. Que por ser um profissional da área da saúde sabe que um relacionamento sorodiscordante pode ser construído perfeitamente.

Eu confesso que tinha descartado a ideia de um relacionamento com um soronegativo. Já tinha posto em minha cabeça que só daria certo um relacionamento com alguém que também fosse soropositivo. Mas como esse rapaz me pareceu tão disposto a tentar eu me senti incentivado a uma última tentativa.

Nos encontramos aqui perto de casa e ficamos caminhando a toa. Ficamos. Assim foi pelos próximos três dias. Isso foi muito importante. Até então eu achava que tinha que ficar e tentar algo com qualquer pessoa que aceitasse minha condição. Mas desta vez eu percebi que estava errado. Não podia fazer isso comigo.

O fato de eu ser soropositivo não me faz uma pessoa menor para amar. Eu tinha que seguir seguindo meu coração. Meu coração me dizia que mesmo aquela pessoa me aceitando, eu não tinha a obrigação de seguir com um relacionamento. Eu também tenho o direito de sentir a paixão. Não tinha sentido. Já tinha lido em muitos grupos que quando alguém te aceitar como portador do HIV você deve se agarrar e não soltar mais. Compreendi que não é assim. Eu mereço me apaixonar de verdade, amar de verdade. Não posso amar por sentir pena de mim mesmo.

No quarto dia eu fui certo para terminar o que mal estávamos começando. Então veio a surpresa: justamente nesse dia, quando ele percebeu que estávamos acabando, ele me revelou ser soropositivo também. Ou seja, mais uma vez a farsa de que um sorodiscordante se aproximou de mim era mentira. E pior, escondeu de mim por dias sua condição que era a mesma minha. Mais uma vez eu fui honesto desde o princípio e não tive o retorno.

Porémdesta vez foi diferente. Mesmo ele abrindo a sua sorologia, não fez muitadiferença para mim em minha decisão final. Eu não tenho mais que procurar umsoropositivo, eu tenho que me abrir para o amor e me permitir viver ele quandomeu coração mandar, independente de sua sorologia. Tenho certeza de que quandoo amor aparecer o HIV não será mais importante do que eu.

HIV/AIDS - Confissões de um soropositivoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora