Capítulo 1 - Marca

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Marko nem sempre foi um homem livre. Deixara para trás seu tempo de servidão quando ainda era jovem demais para entender o futuro nefasto que o aguardava. Doze anos então se passaram, até que numa fração de segundo, ajoelhado no chão lamacento, as mãos atadas e o suor escorrendo por sua nuca, ele percebeu o erro que carregara por toda a vida – liberdade não era algo que podia ser recebido de alguém.

Encurralado feito um peixe em uma rede, Marko mantinha o rosto voltado para o solo, evitando os olhares que pairavam sobre si. O lamaçal fedia a dejetos de animal e grudava na sua roupa como dezenas de sanguessugas, e sua cabeça latejava de raiva com as risadas de deboche que enchiam o ar e sua paciência.

Primeiro passo: manter o controle.

Respirou fundo e exalou o esterco, que ironicamente servia como uma metáfora para sua situação atual. Pegadas firmes esmagaram a grama diante de si, e Marko percebeu que seu tempo havia se esgotado. Teria de improvisar.

– Parece que seu plano de nos ajudar deu certo, moleque. Graças a você, vou sair desta merda de lugar pela porta da frente – disse uma voz rouca e imponente, e as gargalhadas ao fundo pararam de imediato. – Só que não da maneira que você esperava.

Segundo passo: analisar o ambiente.

Marko ignorou o homem por um instante, tentando ganhar tempo. Permaneceu com a cabeça abaixada e esquadrinhou o terreno com o canto dos olhos. À esquerda, viu outros dois homens rendidos. À frente, a cerca de duas braças – distância de uma boa cusparada – meia dúzia de homens vigiavam uma carruagem. À direita, sobre o solo seco, enxergou um par de botas de couro negro – provavelmente roubadas – ao alcance de um chute.

– Tá com medo? – O "dono" do calçado se agachou ao seu lado e encostou a mão calejada em seu queixo, forçando Marko a levantar a cabeça.

A luz do sol iluminou o rosto cansado do homem. Uma barba desgrenhada cobria a maior parte de sua face ameaçadora. Marko, porém, não estava intimidado. Para nunca ser surpreendido, sempre esperava o pior e o melhor de cada pessoa, independentemente de sua aparência.

Terceiro passo: desequilibrar o oponente.

– Já subi montanhas, cruzei rios e vivi em meia dúzia de lugares, mas nunca havia encontrado alguém tão imbecil como você – disse Marko, com um sorriso irônico.

Uma veia pulsou na têmpora do seu captor, que, num estado de absoluta fúria, levantou Marko pelas roupas e encostou uma faca em seu pescoço.

– Não me teste, seu imprestável! – Marko virou o rosto para evitar o banho de saliva. – Se ficar quietinho, talvez eu deixe você ir embora ileso.

– Não seja tolo, Henrik, não vou a lugar algum enquanto você não soltar aqueles ali. – Marko indicou com a cabeça os dois homens rendidos.

A dupla assistia à cena com as mãos presas nas costas e um olhar de incredulidade. O homem à direita era o típico pequeno nobre – barriga proeminente, bigode penteado e indumentárias cuidadosamente escolhidas para exibir sua posição social. O homem ao seu lado devia ser seu criado, Marko calculou, pois a expressão que levava na face exibia profunda vergonha, talvez por não ter conseguido evitar a situação na qual seu mestre se encontrava.

– Se acha que vou deixar esse canalha ir embora, tá muito enganado.

– Não posso dizer que discordo da parte do canalha – disse Marko. O criado se revirou no chão, querendo reagir ao insulto a seu mestre. – Mas sempre há uma escolha, Henrik. Deixe-os ir.

Henrik arqueou uma sobrancelha e desencostou a lâmina que ameaçava a garganta de Marko.

– Como pode defender esses dois, mesmo depois do que fizeram comigo? Do que fizeram com você? – A voz de Henrik teria feito Marko sentir pena numa situação mais amistosa. – Eu passei quinzenas trabalhando de manhã até de noite, comendo sobras e pisando em merda a troco de míseras moedas, enquanto esse porco passava o dia em sua mansão, bebendo vinho e frequentando puteiros à custa do nosso suor.

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