Capítulo 3 - Templo

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Passaram a noite no paiol, entre confortáveis pilhas de feno e um teto que os abrigava do frio, porém Marko não se recordava de jamais ter dormido tão mal. Aquela cena se repetia em sua cabeça como trovões numa tempestade. A simples lembrança do sorriso perverso, o perfume nauseante e a agonia excruciante em seu peito lhe dava calafrios.

Quando o primeiro raio de sol adentrou o recinto por entre as frestas entre as madeiras, Marko se pôs de pé e lavou o rosto, na esperança de que aquelas memórias escapassem de sua mente como a água lhe escorria pela face. Ao seu lado, Filip dormia sonoramente.

Haviam prometido ao chefe da vila que iriam vê-lo assim que o sol nascesse, porém Marko decidiu esperar o amigo acordar por conta própria – seria insensível de sua parte privá-lo da única regalia que tiveram em dias.

Sentou-se num caixote abarrotado de peixes preservados no sal – seu estômago reclamando a falta de comida – e dedilhou silenciosamente o seu alaúde. Lá fora, o som contínuo das enxadas afundando a grama e dos martelos golpeando a madeira tomava conta da aldeia.

– Que cara mais melancólica – comentou Filip, ao acordar meia hora depois. Marko se alegrou ao ver o amigo de bom humor.

– Bom dia para você também, Fil – respondeu, com um curto sorriso.

– Dormi demais? – Filip se levantou entre tosses e esfregou os olhos cansados. A cor havia voltado ao seu rosto. – Me sinto bem melhor. Precisava de uma boa noite de sono longe daqueles mosquitos.

– Vá com calma. – Marko guardou o instrumento.

Apesar de ainda estarem nos últimos dias de verão, aquela manhã se demonstrou fria e melancólica. Assim que deixaram o paiol, minúsculos pingos de chuva umedeceram seus cabelos e ombros. Uma neblina encobria o ar em volta e, não fosse pelo som das ondas quebrando na areia, seria impossível perceber o litoral logo à frente. Até mesmo a cordilheira ao fundo se escondia sob a névoa.

Os dois andaram pela vila em busca da residência de Teodor. Por onde passavam, os aldeões desviavam o caminho, as mulheres fechavam as portas e as crianças dispersavam. Marko sentiu-se de volta à infância na lavoura, correndo aos braços de sua mãe para fugir do capataz que inspecionava os trabalhadores com um prazer doentio em seus olhos.

Alguns casebres depois, encontraram a casa de Teodor – a única que não caía aos pedaços – e se apressaram em direção à porta.

– A hora da verdade – disse Filip com a mão fechada, pronto para bater à porta. – Espero que consigamos negociar uma refeição antes de seguir viagem.

– Seguir viagem? – Marko abaixou a mão do amigo. – Olha, eu tampouco gosto do cara, ele não hesitou em me insultar ontem, mas, pelo menos, nos deu abrigo por uma noite. Podíamos ficar alguns dias.

– Marko... – Filip ignorou a tosse que lhe retornou de repente e respirou fundo, tentando fazer Marko ouvir a voz da razão. – Você não assimilou nada do que aconteceu ontem? Pretendo estar a léguas de distância quando aquele tal de Dom retornar.

– Foi você quem insistiu que viéssemos em primeiro lugar.

– Isso foi antes de encontrar aquele lunático.

– Você ainda não está em condições de viajar, Fil. – Marko diminuiu o tom de voz inconscientemente. – Além do mais, você ouviu o Dom, ele sabe algo sobre os Liberati.

Uma veia pulsou na testa de Filip.

– Você precisa parar com essa obsessão, ainda vai se dar mal por isso.

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