Capítulo 2 - Ravina

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A noite caiu, e com ela vieram as trevas. Como uma doce canção, a brisa marítima cortava o silêncio e serpenteava por entre as árvores. Marko e Filip descansavam em meio à vegetação, que se tornava densa e traiçoeira à medida que se afastava do litoral.

– Péssima ideia. – Marko afugentou um inseto que achara por bem pousar em seu ombro. – Três dias de viagem e nenhum sinal de civilização.

Filip suspirou, desinteressado, e se aproximou da fogueira que crepitava entre os dois.

– Você está pálido! Quero dizer, mais que o normal – continuou Marko, mordendo um pedaço generoso da lebre assada. Um filete de gordura escorreu pelo canto de sua boca.

Filip tossiu outra vez, sem responder. Tomou o espeto das mãos do amigo e abocanhou um pedaço da carne, mastigando-o lentamente.

– Não precisa se preocupar – disse, engolindo e tomando um gole d'água do cantil. – Estive pensando, Marko, sobre as coisas que você contou lá na fazenda... atravessei uma cidade pelos telhados, escapei de guardas armados, fiz isso, fiz aquilo... Não acha que exagerou um pouco desta vez? Entendo que você queria ludibriar seu oponente, mas acho um pouco difícil de acreditar que um filho de carpinteiro de apenas dezenove anos tenha feito tudo isso.

– Em minha defesa, realmente havia um guarda! – Marko abriu um sorriso divertido. – Ele só não era muito bom de mira.

– Ainda assim, algum dia você vai mastigar mais do que pode engolir. O que foi aquela história de que algo misterioso aconteceria a quem machuca um Liberto?

Marko desatou a rir.

– De fato, algo aconteceria. – E deslizou o polegar pela própria garganta. – Eu iria me dar muito mal.

– Quer dizer que...

– Sim. Não é como se A Marca tivesse poderes mágicos. É que se criou esta lenda de que há algo de diferente, de maligno num Liberto. Mais uma forma de justificar os maus tratos que sofremos.

Filip escutou atentamente, sua expressão se alterando da curiosidade para a pena. Marko, ao ver o semblante triste do amigo, desconversou.

– Eu não lhe agradeci pela ajuda aquele dia, Fil. Você muito provavelmente salvou a minha vida.

– Não foi nada. Além disso, julgando pela sua cara, você tinha tudo sob controle. – Filip curvou-se para frente e as chamas cobriram seu rosto. – Marko, acho que estamos nos expondo mais que o necessário. Você é conhecido em metade do reino.

– Sou grato por sua preocupação, mas eu não honraria a memória de meu pai se vivesse escondido. – Marko vislumbrou, através das labaredas, a expressão diligente no rosto do amigo. – Eu percebi uma coisa naquele dia, Fil, quando ajudei a libertar Henrik e ele se virou contra mim. Não basta cortar as amarras que prendem suas mãos... – juntou os pulsos, como se estivessem atados, e então os separou, levando dois dedos à têmpora. – E sim as que acorrentam a mente.

– Você não pode ajudar todo mundo.

– Lembra daquela vez em Novi, quando prendemos o filho da mãe que mantinha três crianças em cativeiro e as obrigava a trabalhar como pedintes? Você se recorda a expressão de alívio, de gratidão incondicional no rosto de cada uma delas? Você não daria qualquer coisa para ver aquele olhar mais uma vez? Saber que foi responsável por dar uma chance a alguém?

Para a surpresa de Marko, Filip hesitou. O amigo sempre tinha uma resposta na ponta da língua – mas não daquela vez.

– Vamos dormir, está ficando tarde – disse, entre tosses. Marko sentiu relutância em sua voz.

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