Interlúdio V

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O coração de Anak'mar palpitava de uma maneira diferente aquele dia. Não era o ritmo acelerado de suspense, muito menos o descompasso de um susto, mas um pulsar ardente e vigoroso, como um vulcão prestes a entrar em erupção.

Apoiou-se na murada com as mãos e os pés, tal qual um felino. Prendeu a respiração, contou até três e saltou. Equilibrou-se no galho, que chacoalhou e espalhou suas folhas. Caminhou pelo ramo através da densa folhagem, um pé atrás de outro, e seguiu o som do alaúde como um pássaro atraído pelas flores, a janela logo acima, quase ao alcance de sua mão. Quase.

Olhou para baixo uma última vez. Com sorte, a queda quebraria apenas suas pernas. Pior que isso, teria que explicar o que fazia na parte interna do castelo.

Mas o prêmio valia arriscar aquele castigo, então saltou outra vez.

Seus minúsculos dedos alcançaram o parapeito da janela, e seu corpo atingiu a parede, por pouco não o derrubando com o impacto. Apoiou os pés em duas cavidades nos tijolos e espiou pela janela. Seu coração ameaçou fugir pela boca.

Ela era linda.

As bochechas rosadas e os longos cabelos dourados da garota escondiam parte de seu rosto, que Anak'mar completou com sua imaginação. Seus sentidos se entorpeceram com aquela visão e a melodia que a acompanhava. O tempo e o mundo ao seu redor se tornaram insignificantes. Até mesmo o vento parecia se acalmar com a naturalidade com que a garota conduzia o alaúde.

Então ela abriu os olhos.

Anak'mar abaixou a cabeça, torcendo para que ela não o houvesse avistado.

– Quem é você? – perguntou uma voz aveludada.

O garoto olhou para a árvore atrás de si. Um pulo e estaria longe dali em questão de instantes. Mas havia sentimentos dentro de si impossíveis de ignorar. Ergueu a cabeça com cautela, e fitou pela janela.

A garota o encarava de volta com um misto de medo e curiosidade. Ao ver que se tratava de outra criança, o susto deixou seu rosto.

– Mil perdões, m-madame – gaguejou Anak'mar. – Eu não pretendia lhe assustar.

– Vai me fazer algum mal?

– Não! Eu só queria ouvir sua música de perto.

A menina hesitou por um momento, então lançou-lhe um aceno convidativo.

– Entre. Ninguém nunca quis me ouvir tocar.

Anak'mar olhou para os lados – então percebeu o quão estúpido isso pareceu, levando em consideração que se encontrava do lado de fora de uma janela – e escalou o parapeito para dentro do recinto.

Os dois trocaram olhares e o silêncio tomou conta do salão.

– Como se chama? – ela perguntou, quebrando o gelo. – Meu nome é Gwendoline D'Angelo, mas pode chamar-me de Gwen.

– Prazer, m-madame. Me chamo Marko. – E fez uma reverência.

– Pare com isso. – A garota levou uma mão à boca e deu uma tímida risada. Anak'mar desviou o olhar. – Não me chame de madame, não é apropriado.

– Sim, s-senhorita.

– Gosta de minha música?

– Todas as noites eu passo pelo corredor lá fora e a ouço tocar, senhorita Gwen. Por favor, me perdoe.

– Não há problema – respondeu a garota, sem conseguir esconder o sorriso. – Mora no castelo, Marko?

– Eu trabalho na carpintaria, senhorita.

– Gostaria de me ouvir tocar outra melodia? – O sorriso delicado parecia estar gravado permanentemente no rosto da garota.

O estômago de Anak'mar embrulhou.

– Não quero incomodar, senhorita.

– Não é incômodo. – Gwen puxou o alaúde para perto de si. – Sempre quis que alguém apreciasse minha música, entretanto meu pai nunca me apoiou.

A atenção de Anak'mar se voltou para o instrumento. A madeira reluzia à luz dos archotes, produzindo uma cor âmbar que só um tipo de madeira poderia originar.

– Seu alaúde é lindo. Talhado em cidônia dourada. Leve, mas resistente. E com uma acústica incrível.

– Como sabe tudo isso?

– Meu pai me ensinou.

– Ele era um luthier?

– Não. – Anak'mar fez uma pausa. – Ele era carpinteiro, mas fazia instrumentos quando tinha tempo.

– Quer tocar um pouco? – perguntou, irradiando interesse.

– Eu não poderia.

– Claro que pode. Quero ouvi-lo tocar. – A garota estendeu o instrumento na direção do garoto.

Anak'mar hesitou por um momento, mas encostou seus dedos no corpo do violão, sentindo-os deslizar pelo verniz que protegia a madeira.

– Gwendoline? – Uma voz masculina, fria como um vento invernal, percorreu o corredor e invadiu o salão.

– Meu pai – sussurrou a garota, num sobressalto.

Anak'mar agiu com prontidão. Em meros instantes, já se debruçava na janela.

– Não pule, você vai se machucar.

– Eu sei me virar.

– Vou vê-lo novamente?

Anak'mar queria dizer que sim, que ele a visitaria todos os dias. Mas aprendera uma coisa em seus curtos anos de vida – nagôs não pertenciam ao mundo dos nobres, a não ser limpando seus dejetos e servindo-lhes comida.

– Talvez, senhoritaGwen. – E sumiu pela janela.    

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