Interlúdio IV

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Havia poucas coisas no mundo que Anak'mar odiava mais do que a nobreza. Suas mesas fartas, perfumes adocicados, roupas extravagantes e risadas falsas o faziam recordar seus antigos donos, que jantavam em sua luxuosa mansão enquanto ele recolhia seus dejetos com um balde, agachado abaixo do lavabo.

Mas havia algo que ele detestava ainda mais – decepcionar Dona Giovanna.

– Já lhe disse que trabalhar no castelo vai ser bom para você – ela disse, conduzindo o garoto pelo braço. – Você estará seguro, terá duas refeições quentes por dia e roupas limpas.

– Eu prefiro ficar com a senhora. – As lágrimas se acumulavam em seus olhos.

– Você ainda me verá a cada quinzena. Já está tudo arranjado.

– Se eu não for, vou poder ver você todo dia – disse, de cara emburrada.

– Querido... – Giovanna se agachou à sua frente. – A cidade ainda não é segura, não com toda essa perseguição.

– Mas eu sou um homem livre, ninguém pode me prender.

– Não significa muito para o tipo de gente que se acha acima da lei.

Anak'mar assentiu, a contragosto, e a abraçou.

– Vou sentir sua falta – disse, o rosto afundando nas vestes de sua protetora.

Mas antes que ela pudesse responder, a porta se abriu, revelando um homem nanico de cabelos crespos e avental empoeirado.

– Tomas, agradeço por ter vindo me encontrar – disse Giovanna ao recém-chegado.

– Sempre um prazer, Dona Giovanna – ele respondeu. Sem mudar a expressão severa. – Esse é o garoto?

– Sim. Se chama Marko. – E afagou o cabelo da criança. – Marko, esse é o Tomas, ele vai cuidar de você por enquanto.

– Boa tarde, senhor Tomas.

O homem o avaliou de cima a baixo.

– Magro demais. Olhos cansados, porém determinados. Mãos calejadas. Vai ter que se esforçar bastante pra se dar bem na carpintaria.

– Meu pai me ensinou a talhar em madeira – completou o garoto. – Ele fazia móveis e instrumentos musicais, quando podia.

– Não estamos interessados em instrumentos delicados. Você trabalhará com toras de madeira que têm o dobro de seu tamanho, garoto.

Anak'mar engoliu em seco.

– Vamos, não temos tempo a perder. – E adentrou pela porta.

O garoto o seguiu, olhando para trás e se deparando com uma Giovanna de coração partido. Pensou em correr até ela e abraçá-la, mas queria demonstrar o garoto forte que acreditava ser. Estava por si só outra vez.

Percorreu o castelo logo atrás de Tomas, que caminhava sem olhar para trás. Deram a volta pelos fundos da fortificação, atravessando corredores obscuros e fétidos – acostumara-se a viver em locais desprezados, às margens de onde as coisas importantes aconteciam. Pelas janelas, avistou um jardim que se estendia lá embaixo. Jamais vira algo tão grandioso. Dúzias de árvores e arbustos podados em perfeitas formas geométricas se espalhavam como um verde oceano até onde seus olhos enxergavam.

– Vem, garoto, isso aí não é pra você. A carpintaria fica para o outro lado.

Anak'mar se resignou a seguir o homem, mas seu coração se encheu de esperança. Se pudesse enxergar aquele santuário florido ao menos uma vez ao dia, certamente aquela seria a maior alegria que poderia ter naquele lugar.

Não demorou alguns instantes até perceber o quão errado podia estar.

Desceram uma escada e contornaram o muro externo do castelo, quando ouviu a melodia. Do outro lado do muro, logo acima de sua cabeça, uma música surgia de dentro de uma janela. Não uma canção qualquer, que bardos tocam para ganhar uns trocados, mas uma obra-prima, entoada com primazia por um anjo. Era a mesma canção que ouvia todos os anos no dia de Telesan. Apesar de ser destinada aos mortos, a melodia parecia ter sido criada sob medida para agradar seus ouvidos.

Anak'mar quis se demorar ali, ouvindo aqueles acordes graciosos. Imaginou uma bela mulher com um alaúde dourado e envolta por uma aura de luz lhe sorrindo.

– Anda, rapaz, não tenho o dia todo! – Tomas fez sinal para que o menino se apressasse.

Os dois se afastaram,deixando para trás aquela música dos deuses.    

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