Interlúdio I

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O pequeno Anak'mar chorava há dias. Por mais que tentasse se acostumar, a dor fazia seu corpo latejar, voltando mais forte e mais severa. Porém esse não era o motivo pelo qual estava em prantos, havia um sofrimento bem mais cruel e permanente que a agonia física.

Anak'mar chorava pois jamais veria seus pais novamente.

Filetes de luz adentravam na caixa de madeira, servindo como única fonte de iluminação para o menino, que se espremia como uma mercadoria, enquanto era carregado pela cidade. Quanto tempo havia se passado desde que entrara na caixa, ele não sabia – nem parecia se importar. Havia adormecido e acordado tantas vezes que perdera a noção do tempo, até que, sem saber sequer onde estava, sentiu a caixa ser depositada no chão com cuidado.

Pela primeira vez em muito tempo, ouviu vozes.

– Encomenda para a Dona Giovanna – Anak'mar reconheceu a voz pomposa de Anton e seu coração se aqueceu, aliviado.

– Vou chamá-la – respondeu uma mulher.

Instantes depois, passos ressoaram pela madeira e uma porta se fechou.

– Anton, quanto tempo! – Anak'mar ouviu outra voz feminina, seguida do som de um beijo.

– Você não mudou nada, minha querida. Diria que ficou ainda mais bela.

– E você continua galanteador, como sempre.

A conversa continuou por um tempo, e Anak'mar se perguntou se deveria chamar a atenção dos dois adultos. Seu estômago roncou e comprimiu seu abdômen, mas ele continuou quieto.

– Diga-me, Giovanna – Anton abaixou o tom de voz repentinamente. – Esse cômodo é seguro?

– Completamente. Nenhuma de minhas garotas entra sem minha permissão.

– Ótimo, está mais do que na hora de soltar o coitado do garoto.

Anak'mar ouviu a trava se abrir. A luz do cômodo ofuscou sua visão e, assim que seus olhos se acostumaram à claridade, ele ficou em pé dentro da caixa. Ajoelhado à sua frente viu Anton, pequeno e barrigudo, de barba aparada e roupas faustosas, que lhe deu a mão e o ajudou a sair do caixote. No canto do aposento, coberta de lantejoulas vermelhas que cintilavam à luz das lamparinas, avistou Dona Giovanna.

Em seus sete anos de vida, Anak'mar nunca vira uma mulher tão bonita. Seu olhar materno e feições delicadas enfeitavam sua face corada, e os volumosos cabelos negros caíam sobre um decote que mal cobria seus seios. O hipnotizante perfume de rosas coroava aquela beleza graciosa.

– Pelos deuses, olha só o estado do pobrezinho! – Giovanna se aproximou e Anak'mar sentiu seu rosto enrubescer. – Como está esquelético e... você esteve chorando, querido?

Anak'mar fez que sim com a cabeça.

– Eu não poderia ficar com ele – explicou Anton. – Se algum cliente descobre que estou cuidando de um... você sabe, de alguém como ele, eu estaria arruinado.

– Fez certo em trazê-lo para cá. Cuidarei dele como se fosse meu filho.

– Mantê-lo a salvo será uma tarefa um tanto desafiadora. Tem ciência disso?

– Confie em mim. Se alguém sabe como sobreviver nessa cidade, somos eu e minhas garotas.

– Então eu o deixo aos seus cuidados, Giovanna. – Anton tirou o chapéu-coco e o pôs de volta na cabeça. – Adeus, garoto, e me perdoe por mantê-lo nessa caixa por tanto tempo. Eu... eu não tive escolha, você entende, não é mesmo?

Anak'mar assentiu novamente.

Anton hesitou, sem saber se deveria abraçar o garoto ou simplesmente dar as costas. Decidiu por afagar sua cabeça.

– Ah, quase me esqueço! – completou, diante da porta. – Vê ali no canto aquela viola... ou seria um alaúde? Enfim, seu pai pediu para entregá-lo assim que estivesse a salvo. Bem, é isso. Adeus.

Anak'mar enxergou o alaúde encostado na parede da sala, a madeira esculpida com perfeição, como somente seu pai sabia fazer. Lembrou-se do ateliê onde costumava passar o tempo assistindo ao pai transformar pedaços de madeira em obras de arte. Recordou-se também das lavouras sob o sol escaldante e sentiu as lágrimas apertarem seus olhos.

– Venha cá, menino, não chore. – Giovanna se ajoelhou à sua frente e o encarou. – Eu vou cuidar de você como se fosse meu próprio filho, entendeu?

Anak'mar concordou com a cabeça.

– Qual o seu nome?

– M... – Não falava há tanto tempo que foi difícil até mesmo se comunicar. – Me chamo Anak'mar-Koshtar, madame.

– Você fala bem nosso idioma, Anak'mar, mas precisamos melhorar sua dicção. Você sabe por que está aqui? Entende a sua situação?

– S-sim, madame. Eu sou um Liberto. E as pessoas odeiam Libertos – respondeu, lembrando-se das cicatrizes que ardiam em suas costas. Giovanna sorriu outra vez, deixando o garoto encabulado.

– As pessoas não odeiam Libertos, Anak'mar. Elas têm medo. Escute bem, filho, as pessoas não aceitam que alguém de aparência e costumes tão diferentes como um nagô... sim, você é um nagô e deve se orgulhar disso – completou, ao ver a reação de surpresa no garoto. – Não aceitam que um nagô tenha os mesmos direitos que elas, frequentem os mesmos lugares e usem as mesmas roupas. Por isso, criam esse medo irracional, sem pensar que do outro lado também há um ser humano.

Anak'mar tentou compreender o que acabara de escutar, mas as informações simplesmente não se conectaram em sua cabeça.

– Então... – indagou. – Por que ser um Liberto é melhor do que ser escravo, se tenho que me esconder?

– Você ainda não tem idade para entender, mas saiba que seu pai lhe deu o maior presente de todos. O presente do sacrifício e da liberdade, mesmo que sob estas condições.

E este presente ninguém pode lhe tirar.

As lágrimas ameaçaram voltar ao seu rosto à simples menção de seu pai, mas seus olhos estavam secos de tanto chorar.

– Madame... Por que as pessoas são tão ruins?

– O mundo é injusto, filho. As pessoas tiram a liberdade de outros, e não a merecem para si próprios, mas infelizmente não é assim que as coisas funcionam. – Giovanna afagou o cabelo crespo do menino. – Cabe a você agora transformar sua própria realidade. Diga-me, o que pretende fazer com o presente que lhe foi dado?

Anak'mar pensou um pouco, e finalmente encontrou a resposta. Não na sua mente, mas no seu coração.

– Quero levar essa liberdade para outras pessoas, como meu pai deu para mim. E há uma pessoa que preciso encontrar. Ela está viva, tenho certeza.

– Então vou lhe ensinar a sobreviver nesse mundo hostil até que você possa cumprir sua missão. – Giovanna se levantou e ajustou o vestido. – Ah, mais uma coisa. Temos que lhe arranjar um nome mais... comum. Queremos que você se misture à multidão, e um nome de disfarce pode ser a diferença entre a vida e a morte.

– Meus pais costumavam me chamar de Marko. Como um apelido.

– Então,Anak'mar-Koshtar, a partir de hoje, você será Marko, um homem livre.    

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