Interlúdio II

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O pequeno Anak'mar adorava vagar pela cidade de Ilograd. Seu passatempo favorito consistia em observar as pessoas cuidarem de seus próprios assuntos. Havia uma beleza oculta, quase inexplicável, no feirante empurrando sua carroça, no jovem casal exibindo suas recém-obtidas alianças de união ou no velho bêbado espiando tudo aquilo do banco da praça. Tudo isso fazia Anak'mar se sentir uma parte do todo, uma espiga de milho numa vasta plantação.

Mas o garoto se limitava a observar. Chamar atenção era um risco que não podia correr, então se mantinha nos becos escuros do Baixio, onde ninguém lhe prestaria mais atenção do que a um mendigo.

Dona Giovanna havia sido clara em suas ordens – não sair dos becos e não falar com ninguém, além do padeiro, de quem deveria comprar exatamente um cesto de pães de centeio. Em sua mão direita, girava duas mândrias de cobre, quantia exata para pagar pelos pães.

A viela cheirava a urina ressecada e aguardente. Estava deserta, a não ser por um canídeo fedorento que devorava restos de carne estragada no chão imundo. Paredões separavam aquelas sórdidas travessas do resto da cidade acima, bloqueando até mesmo a luz do sol.

Para evitar pisar nos dejetos – e ter um vislumbre da movimentação da Cidade Alta – Anak'mar saltou através dos telhados, escondido sob sua capa e observou platonicamente a vida cotidiana nas ruas e praças acima. Lá embaixo, eventuais boêmios enfrentavam as dores da ressaca e mulheres em vestidos decotados – como os de Dona Giovanna e suas garotas – o olhavam com indiferença.

Parou acima da porta onde vivia o padeiro e desceu com cuidado. Bateu cinco vezes, como de costume, e esperou. Uma portinhola se abriu, revelando um par de olhos castanhos e o aroma de pão recém-retirado do forno. Estendeu as duas mândrias e os olhos repousaram sobre as moedas. A portinhola tornou a fechar e abriu instantes depois, por onde um cesto deslizou para fora.

Anak'mar depositou as moedas na abertura – dois dedos engordurados as coletaram com pressa – e agarrou os pães. Pensou em agradecer ao homem, mas duvidou que ele retribuísse a cortesia, então se limitou a dar as costas.

Era assim que negociações honestas aconteciam no Baixio.

De posse dos pães, cujo aroma teimava em fazer sua barriga roncar, Anak'mar voltou para casa, dessa vez por um caminho alternativo. Gostava de se deparar com áreas desconhecidas. Andou pelo labirinto de ruelas até encontrar algo que viu pela primeira vez em Ilograd: uma escada ligando o Baixio à Cidade Alta.

Pensou em subir de fininho e espiar de perto a área nobre, tão limpa e civilizada. Talvez se se mantivesse nas sombras, encostado ao parapeito da escadaria, passasse despercebido.

Olhou para os lados. Ninguém à vista. Tomou seu primeiro passo, então o segundo. A curiosidade consumia seu corpo inteiro feito brasa, e nada sentia além da excitação de vislumbrar aquela parte da cidade, sem precisar se esconder nos telhados. Assim que atingiu o topo da escada, manteve-se agachado num canto escuro, longe dos olhares da multidão.

A claridade ofuscou seus olhos, e percebeu o quanto o Baixio era desprovido de iluminação natural. Assim que sua visão voltou ao normal, enxergou o que antes apenas escutava e via de relance. Vendedores empurravam seus produtos a transeuntes atarefados e crianças brincavam no chão de paralelepípedo.

Era glorioso.

Mas Anak'mar não podia abusar da sorte. Seu olhar se demorou na praça por um instante, até que se virou para ir embora. Então algo tocou sua perna. Um objeto circular, coberto por tiras de couro remendadas com cordas e tendões.

– Ei, arremessa a bola de volta! – disse uma voz de criança.

Um grupo de três garotos, talvez com a mesma idade de Anak'mar, se aproximou. Um deles acenou em sua direção. Sentiu uma pontada na boca do estômago – sabia que não deveria estar ali.

Seu coração, entretanto, desejava arremessar a bola de volta. Ser visto, reconhecido.

– Joga de volta! – disse a criança mais baixa.

Anak'mar segurou o objeto circular com as mãos. Ao toque, possuía um formato desigual, como se houvesse sido chutado e esmurrado diversas vezes.

– Quer jogar com a gente? – disse um deles, animado.

Jogar com eles? Nunca brincara com outras crianças na vida. Um calor aconchegante dominou seu peito e teve de fazer força para que seu sorriso não preenchesse sua face.

– Calma aí...– disse o garoto mais alto, fazendo sinal para que os outros parassem. Ele espremeu os olhos e examinou Anak'mar, que se escondia por debaixo da capa. – Ele é um nagô!

– Um nagô? – perguntaram os outros, virando os rostos para enxergarem melhor a face obscurecida do menino com a bola.

– O que ele faz aqui? Eles não vivem escondidos no meio da floresta?

– Meu pai diz que são perigosos, fazem qualquer coisa por dinheiro, até mesmo matam.

– E se ele quiser roubar nossa bola?

Incerto se abrir a boca seria uma boa ideia, arremessou de volta a bola, que quicou uma vez e parou nos pés do garoto grandalhão. Subir à Cidade Alta fora um erro, Anak'mar percebia isso agora. Ele nunca pertenceria àquele lugar. Deu meia-volta e desceu o primeiro degrau de volta ao Baixio.

Então veio o empurrão em suas costas. Seu crânio golpeou os degraus de pedra com tamanha violência que a dor de sua costela rachando foi insignificante em comparação. Anak'mar rolou e rolou, os pães se espalhando pelo solo, e poças de sangue pintaram as quinas dos degraus escada abaixo, até que o chão lamacento do Baixio acolheu-o, amortecendo sua queda.

Sua cabeça latejava e ardia em cinco lugares diferentes. Seu corpo parecia ter esquecido de descer as escadas com ele, pois nada sentia abaixo do pescoço.

Com o canto do olho e o pouco que lhe restara de sua visão, enxergou o trio no topo da escada. Se conseguisse ouvir, escutaria as gargalhadas estridentes.

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