O assunto Ryan tornara-se algo proibido de certa forma, cá em casa. Se não fosse eu a desabafar, a trazê-lo à conversa(coisa que com o tempo parou de acontecer), ele ou os Diaz em geral, não eram mencionados nem pela mãe, nem por nenhum dos meus amigos que tanto se esforçavam para me manter feliz. Para me fazer esquecê-lo.
Voltar a falar dele era estranho, até o seu nome trazia uma sensação aos meus lábios, uma espécie de inquietação, quanto mais ter a certeza que abri uma porta trancada de informações, no momento em que me sentei ao lado da mãe e a olhei e os seus olhos falavam por si.
- Sabes que quando aquilo aconteceu pensei em despedir-me daquela casa.
Arregalei os olhos.
- Ham?!
- Sim amor, não era capaz de perdoar a Claire pelo que ela te fez, vos fez aliás. - senti um aperto no peito, invadido pelos flashbacks daquele dia, pela dor física que me percorrera o corpo, agarrei o tecido das calças com muita mais força do que deveria.
Todavia não disse nada, deixei-a continuar.
- Ela deixou de estar sempre no escritório, está constantemente a tentar passar tempo com o Ryan, nesse sentido parece outra... - engoliu em seco, suspirou logo de seguida e abanou a cabeça como se discordasse dos próprios pensamentos ou das palavras que acabara de proferir - Só que, oh filho ele mal sai do quarto, come pouco e pelas olheiras não deve dormir lá muito também... Está sozinho e quase sempre em casa e aquele quarto, oh Deus! Por vezes não sei se prefiro ser eu a limpá-lo que assim ao menos vou podendo dar-lhe uma vista de olhos, se peço aos céus para ficar com qualquer outra tarefa, porque Eliot, nos últimos tempos pouco faltou para mandar aquela estante grande ao chão, porque tudo o que lá estava ficou destruído da última vez que discutiram...!
- Não disseste que andavam mais próximos, sabes porque é que discutiram? - perguntei antes que pudesse pensar muito no assunto.
- Quer que ele vá a um psicólogo.
Aquela frase disparou-me os batimentos cardíacos, para ser sincero achava que já estavam muito mais acelerados do que era suposto, achava que não podiam acelerar mais sem que tivesse uma coisa qualquer!
Era tão óbvio que isso daria discussão que nem precisava de saber se o tentara convencer a ir pelo que nós lhe dissemos há dois meses, se pelo comportamento que a mãe descrevia. Mas o Ryan nunca daria parte fraca, não assim. E por muito que, caso fosse pelas razões corretas, pudesse vir a ajudá-lo, tenho as minhas dúvidas que Claire o consiga persuadir, não quando insiste em exibir uma máscara fria para qualquer um que lhe seja menos que, bem...
- Só me irrita que ela o queira obrigar a ir quando é a culpada do estado do filho! - exclamou a mãe, exasperada, antes de esfregar as duas mãos no rosto, interrompendo-me a linha de pensamento(e ainda bem) - Porque quando te vi como o Ryan está, Eliot, também me pareceu prudente procurar alguém que te pudesse ajudar. Só que tu...
Só que eu tenho amigos em quem confio e não cresci com uma mãe ausente com que nunca tive abertura para falar de sentimentos, num meio em que rapazes só são "fixes" quando são fortes e viris.
- Só que eu desenrasquei-me. - cortei com as quatro palavritas em vez da longa frase que me passou pela cabeça. - Ah e não fui eu que fiz a escolha.
- Pois não. - murmurou vindo pousar a mão na minha, apertando-a enquanto me dirigia um sorriso curto, mas tão maternal, quanto os seus eram por natureza - Tens a certeza que foi boa ideia contar-te isto, Eli?
- Fui eu que perguntei, não fui? Não te preocupes...
- Amor, o que é que vai nessa cabecinha? - indagou vindo acariciar-me a face com o polegar.
- Nem sei... Saudades, acho eu. Pensar que se calhar podia ter feito algo de diferente, que esta história está longe de ter sido fácil para ele também... Oh...! Irrita-me ainda me sentir assim! Doeu tanto mãe, ele virou-me as costas como todos disseram que faria! E mesmo assim hoje só me apetecia mandar o universo à merda e perdoá-lo mesmo que tenha levado a merda de dois meses a dirigir-me a palavra!
Quem me dera que isto fosse fácil, quem me dera que fosse como com a Eleanor em que os sentimentos foram mudando aos poucos e continuámos grandes amigos! Quem me dera que não fosse tudo tão dramático, que tivesse que agir como se ele já não me fosse nada quando ainda é tanto...!
Quem me dera nunca ter vivido aquele dia.
- Amor, há histórias assim, amores tão avassaladores e intensos que parece que estão sempre a voltar, mas se quiseres que passem vão passar eventualmente, vai ser só uma fase um dia, se calhar até se vão entender e pensar nisto sem problemas daqui a uns anos!
E será que eu quero o suficiente?
- Mãe, depois de acabarmos a escola é provável que nunca mais nos vejamos. - afirmei em contraponto com o que começara a divagar.
Sinceramente acho que não me apercebi do peso das minhas próprias palavras até sentir os olhos voltarem a lacrimejar. A ideia de um dia não voltar a vê-lo deixava-me um aperto no peito, algo como um vazio, uma dorzinha chata com a qual não queria lidar, não agora.
Não agora porque eventualmente vai acontecer, porque é suposto este ser o fim da nossa história.
- Obrigada mãe...
- Ora, então porquê?
- Por continuares de olho nele. Não pares sim? - senti o nó cada vez mais apertado na garganta - Não, não quero que esteja sozinho se precisar de alguém.
Àquela altura estava de tal modo à beira das lágrimas que jurei que ia desabar, mas engoli o choro e sorri à mãe antes de perguntar:
- Queres ajuda com o jantar? Não me apetece ir já estudar.
- Tudo bem, então vamos lá. - sorriu de volta e levantou-se.
Eu sei que ela sabia que havia mais além do que dizia, também sei que jamais me pressionaria a falar, que esperaria tanto quanto eu quisesse... mas o que é que eu quero, meu?
O que é que eu sei...?
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Not Only Memories
Romance"É desta que aprendes de uma vez que ninguém tem o direito de decidir quem tu és?" "Ele fica melhor sem mim de qualquer forma, não é importante." "Ele está a esquecê-lo, sei que está a tentar..." "Já segui em frente, limitei-me a fazer o mesmo de an...
~~Capítulo 3~~
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