1. Antes da Colonização Europeia (? - c. 1400 EC)

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A história do Canadá está super ligada à história do Québec. Não é possível conhecer plenamente a história do Canadá sem conhecer a do Québec. Mas é claro, essa história começa muito antes da chegada dos primeiros europeus às Américas. Poderíamos tentar começar a partir da Pangeia... mas isso seria chato e monótono para muitos. E pouco iríamos contribuir para que você entendesse o Canadá de hoje - sua cultura, povo e forma de pensar, por estudar a pré-história das Américas.

Algumas pedras encontradas ao longo do rio Saint Laurent sugerem que, há mais de 2500 anos atrás, os fenícios teriam feito uma promenade pelo rio. Mas é no oeste do Canadá que vamos iniciar a conversa.

Ao oeste do que hoje é o Canadá fica o território estadunidense do Alasca. E ali temos o Estreito de Bering. A maioria dos historiadores, biólogos e antropólogos acreditam que foi por ali que vieram os primeiros humanos para as Américas, há milhares de anos atrás. Esses primeiros humanos, que vieram da Ásia, são a origem do que chamamos no Brasil de povos indígenas ou aqui, das Primeiras Nações (fr: Premières Nations; en: First Nations).

Antes da chegada dos primeiros europeus nas Américas (e você se engana se pensa que os primeiros foram os Portugueses, Espanhóis ou Franceses), o continente Americano já era muito diverso em vida e culturas. Nações nasciam e caíam. Havia um complexo sistema de crenças. Haviam guerras, código de guerras, leis e alianças entre povos.

Infelizmente, poucas nações nas Américas desenvolveram um sistema de escrita capaz de preservar sua história. O que temos hoje são lendas e histórias contadas por gerações de forma oral. Em geral, isso significa que, do ponto de vista histórico, elas são pouco confiáveis - embora sejam de grande valor cultural. Ao mesmo tempo, temos algumas descobertas arqueológicas que nos permitem ver contornos, uma sombra, de quem eram e como viviam aquelas nações. Mas como disse, esse é apenas um contorno - uma imagem mais nítida só teríamos após a vinda dos europeus e seu sistema de escrita.

É claro que, mesmo com um sistema de escrita, temos a visão de apenas uma parte da história - a visão dos colonizadores. Uma parte da tarefa do historiador é tentar discernir o fato da mentira ou mera suposição. Infelizmente, pela escassez de informações confiáveis, são poucas as fontes bibliográficas que remetem aos anos anteriores à colonização europeia. Então, o que sabemos?

Sabemos que os nativos daqui, também chamados de Primeiras Nações ou Autochtones, viviam da caça, pesca e agricultura. Sabemos que formavam alianças entre nações de etnias diferentes. Não vivam na paz, como muitos acham. Faziam guerras, tal como o homem branco do Velho Mundo. Suas guerras, por vezes, eram sangrentas e por vezes motivadas pela simples vingança. Temos que entender uma coisa - o ser humano é ser humano, quer no Velho quer no Novo mundo.

É verdade que o conceito de propriedade privada era diferente do nosso. A forma de governar também o era. Em algumas tribos, as mulheres não só eram ouvidas mas também tinham participação ativa na comunidade. Uma das coisas que deixou os indígenas aterrorizados quando visitaram o velho mundo foi o modo como tratavam suas crianças. Segundo relatos, ficaram espantados ao ver que os pais batiam nos filhos para discipliná-los.

Por outro lado, os europeus ficaram aterrorizados ao ver os rituais pré e pós guerra dos indígenas. Esses rituais incluíam cortes, mutilação, tortura dos inimigos capturados e até canibalismo. Os rituais antropofágicos, criam eles, faziam com que os guerreiros absorvessem o espírito dos guerreiros inimigos.

As tribos indígenas não costumavam ficar muito tempo no mesmo lugar, embora fossem menos nômades do que as tribos encontradas na América do Sul, como no Brasil. Como tinham que lidar com o frio intenso que domina a metade do ano, não podiam se dar ao luxo de se mudar constantemente e acabar em um local com poucos recursos e comida durante 6 meses. Costumavam construir uma cidade murada com casas preparadas para o longo inverno.

Nações indígenas que falavam a língua iroquesa do período anterior ao contato com os europeus, tais como os Hurons-Wendats, os Haudenosaunes, e os Neutres criaram um modelo de casas chamadas em francês de Maison Longue, ou Casa Longa. Elas eram feitas de madeira e tinham cantos e um teto arredondado. No século 18˚, um missionário jesuíta chamado Jospeh-François Lefitau disse que essas casas tinham um tamanho que variava entre 6 e 9 metros. É possível ver essas casas em alguns museus ou reservas (como Wendake, na cidade de Québec), embora desde o início do século 18 os nativos tenham trocado suas casas por construções no padrão europeu.

Antes da chegada dos europeus, as seguintes etnias habitavam o que hoje é o Canadá: Inuites (Inuits), Hurões (Hurons), Algonquinos (Algonquins), Iroqueses (Iroquois) e os Siú (Sioux).

Como falei, o sistema era complexo. Cada tribo com seus costumes e manias. Conheça um pouco alguns desses grupos:

Os Inuites tinham como território o chamado Grande Norte do Canadá, onde ninguém queria dominar. Acredite, o Grande Norte é frio, muito frio. -30 ̊C ou pior. Eles eram essencialmente nômades e se mudavam para outras regiões de acordo com a estação do ano para poder coletar os recursos necessários para a sobrevivência. Seu sistema político era formado por Clãs. Diferentemente dos de língua iroquesa, no inverno os inuites moravam em iglus e em construções parcialmente soterradas chamadas de hutte de terre. Já no verão, viviam em casinhas provisórias de madeira.

Outro grupo famoso, os Hurões, viviam no norte do lago Ontário. Eram sedentários. Calma aí... "sedentário", nesse caso, não é como você que fica na frente do computador o dia todo e só levanta a bunda da cadeira pra buscar café. Isso quer dizer que eles tinham um local mais "fixo" e praticavam a agricultura mais do que seus vizinhos Inuites. Eles também caçavam, é claro, mas tinham plantações (para consumo próprio) de milho e feijão, por exemplo. A caça era uma atividade menor - exceto no outono e fim do inverno, onde não tinham escolha. Eles viviam nas casas longas que falamos antes e se mudavam de território a cada 10 ou 15 anos, depois de terem esgotado o solo e a madeira para aquecimento. Eles faziam comércio e faziam alianças políticas com outros povos. Eles tinham também um sistema de Clãs e cada cidade tinha seu chefe indígena.

Os Iroqueses eram muito parecidos com os Hurões no que tange a estrutura social, meio de subsistência e forma de vida. Seu território, no entanto, consistia do Sul do Lago Ontário e às margens dos afluentes do rio Saint Laurent. Lutaram por muito tempo contra os Hurões e outras tribos e etnias. Eram guerreiros valentes e poderosos. O primeiro contato dos franceses, nos anos 1500, se deu com eles. Mas era com os holandeses que eles finalmente formariam aliança.

Os Algonquinos habitavam a região da Floresta Boreal do Canadá. Eram nômades caçadores, coletores e pescadores. Viviam em tribos e suas casas eram chamadas de Wigwams. Os wigwams podiam ser tendas, parecidas com aquelas que vemos em filmes de faroeste, ou pequenas "ocas" ovais, cobertas de casca de bétula (bouleau).

Centenas de milhares de pessoas desses povos viviam no que hoje é o Canadá até a chegada dos europeus em idos dos anos 1400. Cada nação tratou logo de fazer suas alianças com o "homem branco". Uns com os franceses, outros com os ingleses e ainda outros com os holandeses e espanhóis. Dessas alianças, além de vantagens comerciais para ambos os lados, mais guerras surgiram, além da morte de milhares de indígenas por conta das doenças trazidas pelos europeus.

Uma introdução à História do Canadá e do QuébecOnde as histórias ganham vida. Descobre agora