Preciso descansar, amanhã será um novo dia e quem sabe não avanço algumas casas no meu relacionamento com Raul.

Na manhã seguinte

Chego no condomínio de Raul e sou imediatamente liberada para entrar, caminho até sua casa e entro pela porta da cozinha, dona Rosa a deixa sempre aberta. Assim que entro no cômodo sou agraciada pela presença do meu patrão no fogão preparando algo. Jesus! Que homem bonito!

Ele usa um short de moletom e uma camiseta branca básica. Está descalço e tão concentrado que não nota minha presença. Me aproveito dessa situação para observá-lo um pouquinho. Me sinto uma stalker, a espreita admirando minha vítima, mas quem liga? Eu não. Definitivamente não, o homem é um colírio para meus olhos. 

De repente ele vira e me vê. - Bom dia! - Digo tentando disfarçar que estou há bons minutos parada na porta. Acho que funciona, pois ele sorri e eu me derreto. 

Diaxo de homem bonito!

- Bom dia, Nanda! - Ah, Santo Deus! Ele usou meu apelido. 

Deixo minha bolsa em cima de uma cadeira da mesa da cozinha e me aproximo do fogão para ver o que ele prepara. Péssima ideia! Posso sentir seu cheiro de sabonete do banho recém tomado. Subo meus olhos por seu abdômen e continuo o caminho até chegar em seus olhos. Ele me fita com os lábios entre abertos e vacila o olhar entre meus olhos e minha boca.

De repente sinto um calor e me obrigo a afastar. Pigarreio e pergunto por Clara.

- Ela ainda está na cama, hoje é dia de café da manhã especial. 

- E como seria esse café especial? - Pergunto disfarçando enquanto me sirvo de um copo de água gelada. 

- Já que hoje ela não tem aula, eu preparo o café e tomamos na cama. Ela adora.

Fico por um tempo o observando, enquanto processo o que acabou de me dizer, Raul é um ótimo pai. Dedicado e amoroso. Com certeza esses momentos ficarão para sempre na memória da sua filha. É uma maneira linda e delicada de dizer, sem ser com palavras, o quanto a ama. Ele continua concentrado em fazer panquecas, usando uma forma que faz com que elas tenham olhos e bocas sorrindo. 

- Ela tem sorte de ter um pai como você. - Digo saindo dos meus pensamento. Raul me fita por segundos e sorri. 

- Eu tento, faço o possível para estar sempre por perto. Não quero que ela se sinta sozinha.

- Tenho certeza que ela não se sente. E você faz um ótimo trabalho, ela é uma criança incrível.

O sorriso dele se alarga e mais uma vez me vejo presa em seu olhar, no sorriso sincero que faz com seus olhos fiquem apertadinhos. Ele se vira para o fogão e continua seu trabalho com as panquecas e eu me pergunto: Onde está a mãe de Clara? Como uma pessoa é capaz de viver longe da filha? Ainda mais sendo uma criança tão especial. Será que ela os abandonou?

- Como é sua relação com seu pai? - Raul me pergunta e sua questão me transporta para a Fazenda Dois Corações. Meu lar. Lugar onde estão as pessoas que mais amo na vida. Esse pensamento me leva a outro, eu também amo Clara. Sim, eu a amo de todo meu coração. E agora, aqui no Rio de Janeiro também tem uma carioquinha que faz parte desse grupo de "pessoas que mais amo na vida". Na fazenda eu tenho várias, e encarando o homem a minha frente, que aguarda minha resposta, penso que essa lista pode aumentar ainda mais.

- Ótima. - Respondo com sinceridade. - Meu pai é maravilhoso! - Sinto meus olhos umedecerem com as lágrimas. A saudade já começa a apertar meu peito. - Nós nos damos muito bem, ele é extremamente carinhoso e muito protetor. 

- E deixou você sair da sua casa para vir para cá? 

Ele está me encarando com as sobrancelhas erguidas, não sei se é impressão, mas sinto uma certa desconfiança em sua pergunta. Será que ele pensa que estou mentindo? Nós não falamos muito sobre minha vida antes de chegar aqui, só contei algumas coisas para Clara e ele ouviu tudo. Mas não foi por falta de vontade, ou porque quero esconder, só não tive oportunidade. 

Na verdade está sendo a segunda vez que conversamos sozinhos, a primeira foi no primeiro dia que cheguei aqui e combinamos todos os detalhes da minha contratação, após chegarmos do passeio do shopping.

- Na verdade ele não queria. Eu tive um trabalhão para convencê-lo. Mas difícil mesmo foi meu irmão. Ele consegue ser pior que meu pai.

Raul desliga o fogão, colocando a panqueca que está na frigideira em uma pilha de panquecas felizes que estão dispostas em um prato colorido. Vira-se para mim, encostando-se no balcão da pia e cruza os braços em frente ao peito. Ficamos um de frente para o outro. Ele me observa e então continua perguntando.

- Sua família é grande?

- Na verdade não, só tenho um irmão. Dez anos mais velho, ele sempre se colocou na posição de meu protetor. Somos muito amigos, e foi muito difícil fazer com que ele concordasse com a minha vinda. 

- Mas ele é só seu irmão. - Continua. - Tem o poder de não permitir que você viesse?

- Sim, eu o respeito. Da mesma maneira que respeito meus pais. Se ele não quisesse eu não conseguiria vir. Sabe, fazer alguma coisa que o deixaria triste ou insatisfeito. Como eu disse, nós somos muito apegados.

- Ele concordou, afinal você está aqui. - Raul começa a organizar uma bandeja, com pão, frutas picadas, suco.

- Sim, quer dizer, concordou mais ou menos. Ele não ficou cem por cento feliz, mas me apoiou.

Ele finaliza a bandeja colocando o prato com as panquecas, um pote com mel e um vasinho com uma única flor. Para um instante e analisa seu trabalho, como se procurasse por algo errado. 

- Ficou linda! 

Raul me encara e sorri novamente. - Venha, vamos acordá-la. Hoje você fará parte do nosso "café da manhã especial". Pegue os copos por favor, eles não couberam aqui. 

Ele aponta com a cabeça três copos em cima da mesa, me adianto em pegá-los e caminhamos lado a lado até o quarto de Clara. A danadinha já está acordada, no entanto permanece deitada em sua cama. Assim que nos vê seu sorriso ilumina todo o ambiente.

- Obaaaaa!!! Café da manhã especial. Hoje é ainda mais especial, né papai?

- Por que filha? - Raul lhe pergunta posicionando a bandeja sobre a cama e fico esperando a resposta ainda encostada no marco da porta. 

- Porque nós temos a Nanda. 

Eu e ele trocamos um olhar. Ele sorri, eu não consigo. Meus olhos, mais uma vez, se umedecem com as lágrimas. Que meleca! A saudade de casa somada as palavras de Clara me fazem morder o lábio inferior para impedi-las de cair. Raul me estende uma mão me convidando para me aproximar. 

Fito seus olhos, movo o olhar para sua mão que espera pela minha. Eu a seguro, e nesse exato instante sinto como se eu finalmente encontrasse a resposta para a pergunta que sempre fiz.
Por que o Rio de Janeiro? 

Laços de Amor (CONCLUÍDA)Where stories live. Discover now