Por algum motivo que eu ainda desconhecia, eu estava novamente na Terra, trancada em meu quarto e podia ouvir o som de Cristalize tocando ao fundo. O som do violino, o ritmo, tudo parecia me levar para um mundo totalmente diferente. Somente meu. Era maravilhoso aquela sensação. Eu já ouvira essa mesma música centenas de vezes (ou milhares?), e nunca me senti tão bem assim antes. Eu me sentia realmente viva, pela primeira vez.
"Amy" - chamou minha mãe do lado de fora do quarto. - "Amy, abre a porta filha, preciso conversar com você"
Estranho, não me lembro de ter trancado porta, não costumo fazer isso, apenas a deixo encostada. Me levanto da cama e me dirijo até a porta. Mas antes de eu tocar a maçaneta a porta se abre por si só, e minha mãe entra, me procurando.
"Mãe?" - a chamo, mas ela parece não me ouvir. - "Mamãe?"
"Amy. Cadê você filha? Preciso falar com você. A mãe da Lara me ligou hoje. Amy?"
"Mamãe, eu estou bem aqui."
Entrei na frente dela, com esperança de que ela me visse dessa vez. Mas ela não viu, e passou por cima de mim, literalmente. Ela meio que me atravessou. E eu senti um forte enjôo, depois tive a sensação de que iria desmaiar, então cai no chão.
"Mamãe? O que esta acontecendo?"
"Amy? Amélia!"
"Eu estou bem aqui, caramba. A senhora acabou de passar por mim"
Como assim?
"Meu Deus, filha" - ela se ajoelhou no chão, ao lado da minha cama.
Tive a sensação de algo tocando meu braço, e meu corpo todo se arrepiou, e novamente eu quis vomitar. Consegui forças para me levantar, e caminhei até onde minha mãe estava, então parei no lugar.
Era eu ali.
Deitada no chão.
Mas como, eu estou bem aqui!
Então ela começou a gritar. Me chamar e chamar meu pai. Ela se afastou do corpo que estava no chão, se encostou na parede e colocou a cabeça entre os joelhos, enquanto chorava de se acabar.
Eu não conseguia acreditar. Aquilo irreal. Que diabos estava acontecendo?
Papai logo aparece, com a camisa manchada de café e o jornal nas mãos.
"Lívia? O que houve?" - Ele se aproxima dela. E a única coisa que minha mãe faz foi apontar para o corpo caído no chão. - "Amy? O que houve com ela?"
Ele me toca, e eu posso sentir. A sensação de enjôo volta, e aumenta quando ele toca meu pulso para medir minha pulsação.
"O pulso dela está fraco. Muito fraco."
Então ele me pega no colo o meu corpo, e me leva para fora dali, logo mamãe se levanta e o segue. Eu vou de encontro ao chão, sem forças para me mover e com um enjôo terrível.
Meu corpo parecia pesar, e pesar e pesar cada vez mais, me fazendo deitar no piso de madeira. Os raios solares que entravam por uma brecha na janela pareciam me queimar. O ar parecia me sufocar. E o piso, parecia estar me engolindo, me devorando.
Eu não conseguia mais respirar. Não havia ar para mim. Eu não havia entendido nada. Que diabos estava acontecendo comigo, com o mundo?
Então eu simplesmente comecei a desaparecer. Estava deixando de existir. E tudo o que eu via era preto, escuridão. Trevas.
•••
Palmas. Palmas. Palmas.
Tudo o que eu era capaz de ouvir eram palmas. Não sei de onde vinham, e muito menos de quem.
Eu estava correndo, não sei bem pra onde, só sei que eu corria. Havia fogo, muito fogo e vozes, gritos. Era ela, Amy. Ela estava queimando bem na minha frente e por mais que eu tentasse me aproximar, por mais que corresse, ela estava longe demais de mim. Em um mundo onde eu não poderia nunca alcançar, nem se quisesse.
Então eu acordei. Havia uma mulher de pé ao meu lado, no início pensei que talvez fosse minha mãe, mas não era. A cicatriz em seu rosto brilhava, num vermelho que eu nunca havia visto antes, era incrível e inacreditável ao mesmo tempo. Eu queria agarrar aquela luz, capturá-la apenas para mim.
- Pensei que não acordaria mais - a mulher sorriu.
- Foi um pouco difícil te trazer de volta, Lara. Mas parece que tivemos sucesso - sua voz era forte e extremamente assustadora. Mas eu não senti medo, eu senti ódio.
Virei meu rosto para o lado, eu tinha que vê-lo, tinha que olhar fundo em seus olhos.
- Claus.
Ele sorriu e se levantou de sua cadeira, apoiando-se em uma bengala, o que me fez rir.
- Eu não sabia que você era tão velho assim.
- Toda batalha tem sua consequências minha cara - ele se dirigiu a mulher e disse: - Deixe-nos a sós.
Ela assentiu e saiu, nos deixando a sós. Com muito sacrifício consegui me sentar na maca, para poder ficar cara a cara com ele.
- Uma pena ver que você ainda está vivo - lamentei com um sorriso.
Ele bufou e tentou se aproximar de mim.
- Não se aproxime, ou te arremesso janela à fora - fiz um sinal com a cabeça para que ele entendesse de qual janela eu estava falando.
- Tudo bem - ele voltou dois passos para trás. - Não sou seu inimigo agora.
Gargalhei.
- Essa foi realmente boa - Conti o riso. - Mas eu não sou sua amiga. Nem nunca serei.
Ele assentiu em silêncio, e apertou o cabo de sua bengala. Ele estava com raiva, pude sentir a vibração negativa no ar, tanto minha quanto dele.
- Não quero que seja minha amiga. Quero que seja minha aliada, apenas.
Voltei a gargalhar. Eu parecia uma completa insana, acho que eu havia realmente me tornado uma. Eu só queria matar Claus e Travor. Dois irmaos traiçoeiros.
- Você anda um pouco iludido demais meu caro. Qual a parte de Eu não sou sua amiga e quero te matar você não entendeu?
- Você não disse essa última parte.
Olhei pra ele com desdém.
- Nem precisa, você já sabe que é isso que eu quero acima de tudo.
Ele sorriu, e gesticulou a mão livre no ar.
- Não. Você quer vingar a morte de sua amiga.
- Isso também.
Eu odeio ele.
- Mas tem um porém, dois na verdade - ele voltou a se sentar.
Eu odeio muito ele.
- Posso saber quais?
Eu odeio ele pra caralho.
- Quer o bom ou o ruim primeiro?
Eu quero matar ele agora, mas preciso saber o que ele tem a dizer antes, quero prolongar o sofrimento dele ao máximo, e quando eu o matar...
- O ruim.
- A maioria das pessoas normais preferem as boas noticias primeiro.
- Vamos Claus, pare de enrolar, assim posso ter mais tempo para pensar na melhor forma para te matar.
Ele se levantou novamente, soltou a bengala no chão e sorriu.
- Não fui eu quem matei sua amiga. Isso significa que se quiser realmente se vingar, terá de encontrar Travor. E ele está desaparecido desde aquele dia.
- Eu me livro dele depois de acabar com você. Agora a suposta boa noticia, por favor.
Ele se virou de costas para mim.
- Sua amiga não esta morta, cara Lara.
Meu ódio cresceu e por um segundo eu pensei em matá-lo agora mesmo, mas preferi apenas arremessa-lo contra a parede, e o esmagar como o verme que ele realmente é mentalmente.
- Não invente mentiras Claus, você pode fazer mais do que isso.
Deixei que seu corpo caísse no chão. Eu queria bater nele até a morte. Queria cortá-lo em pedacinhos e dar de jantar a alguns cachorros famintos.
- Não estou inventando - ele se levantou com muito esforço. - Sua amiga esta presa no submundo dos mortos. Oras Lara, eres tão burra a ponto de não pensar nisso, aqui é um mundo onde todos são capazes de ter uma segunda vida. É claro que ela não está morta!
Algo se ascendeu dentro de mim quando ele disse essas palavras, uma chama de esperança, talvez. Eu preciso encontrá-la, preciso trazê-la de volta. Levá-la de volta. Sei lá. Eu preciso dela aqui. Depois eu mato Claus.
- Eu sei onde ela está, e estou disposto a te ajudar, mas com uma condição.
Ergui meu olhar até ele. Ele pode ser enorme, mas eu não tenho medo, não agora que sei que sou mais forte.
- Qual é a condição?
Ele sorriu vitorioso.
- Preciso que me ajude a encontrar o Elixir, e meu irmão primeiro. Depois eu te ajudo com sua amiga.
O encarei, seus olhos negros eram assustadores, o que me fazia ter mais vontade de o matar.
- Sabe que eu vou te matar, não sabe?
Ele engoliu seco. Eu sentia seu medo superando seu ódio e repulsa por mim, e isso me fez sorrir.
- Faça isso quando eu por as maos no Elixir, então poderá me matar quantas vezes for capaz.
Ele se dirigiu até a porta.
- Como posso confiar em você? Eres um diabo traiçoeiro.
Ele abriu a porta e se virou para mim, sorrindo.
- Você não pode. Não se deve confiar nos inimigos. E alias, a Morte é mais traiçoeira do que eu, torça para que não a encontremos no caminho - ele sorriu, depois saiu do quarto.
Ele saiu mancando porta à fora.
Me deitei novamente. Eu vou te encontrar, Amy, custe o que custar! Fechei os olhos, contendo as lágrimas.
Talvez isso seja um novo começo, uma nova história. E eu vou matar Claus, e isso será definitivamente, a minha missão nesse mundo. Depois eu me viro com Travor.
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Olá queridos leitores de AMDL (A maldição da Lua). Vim comunicar a vocês que a saga "A caçada pelo Elixir da Vida" irá continuar em outro livro. Sim, vamos continuar a escrever, porém em outro livro virtual. Acessem a esse link:
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