Dia 64

«O alerta máximo de pandemia foi dado há dois meses e os esforços internacionais na disseminação do vírus Invictus parecem não ser suficientes. Apesar das previsões adiantadas pela Organização Mundial de Saúde, nada levava a crer que o mundo viria a tomar contacto com uma situação desta magnitude.

Sabendo como e com que eficácia este vírus atua, é fácil prever um rápido contágio. Aliás, o contágio fácil já existe e não me parece que isso vá mudar de um dia para o outro, apesar de haver algumas medidas de prevenção que eventualmente possam ajudar, mas não serão a cura nem impedirão a propagação do Invictus ou afastarão a hipótese de uma pandemia como o Mundo não via desde o início do século XX.

Como já se pode ver, começou por haver pequenos focos de infeção e em poucos dias, neste caso em horas, os focos foram alargando e temos epidemias localizadas por vários estados do país. Ainda são localizadas, felizmente, mas esta realidade pode mudar num espaço de horas sem que ninguém se prepare para um novo surto. As pessoas ainda não se aperceberam, mas o vírus letal. Eu repito: letal. A mortalidade é abrangente em todas as idades, em todos os sexos, em todas as classes sociais. Isto soa fatalista, mas a sociedade como a conhecemos está prestes a desaparecer. Vamos chegar a um ponto em que vai ser impossível manter um simples serviço público se o instinto é de sobrevivência e não de organização social, não de civilização. É muito, muito improvável que os sistemas de saúde consigam lidar adequadamente com a assistência médica. As pessoas vão ouvir isto e pensar que é impossível, mas será uma realidade, mesmo nos países mais desenvolvidos em termos económicos.»

A situação atual é clara e confirma o que o mundo temia. Os hospitais ultrapassaram os seus limites de doentes e os profissionais de saúde são cada vez menos. Os aeroportos, estádios e pavilhões desportivos deram lugar a hospitais improvisados.

Porque é melhorar prevenir do que remediar, o que neste caso é impossível, a OMS deixa claro que as suas indicações são obrigatórias e que se ignoradas poderá ser considerado crime ou levar a uma coima até 500 dólares. Neste momento as indicações são de que o doente não se deve dirigir a serviço especializado algum sem ligar para a linha de apoio que indicará o melhor a ser feito. O uso de máscara e luvas é obrigatório. Deverá manter-se isolado e seguir todas as recomendações. Enquanto não existir cura para a doença que já afetou cerca de 50% da população mundial, numa contagem incerta de 20 milhões de mortos, não se poderá fazer mais do que apenas esperar.

As fronteiras americanas fecharam, as ruas permanecem quase desertas e os números de infetados sobem assustadoramente a cada minuto. Uns dizem tratar-se de revolta da própria Natureza. Outros de uma Guerra Biológica que há muito estava prometida. Conspirações à parte, de uma forma ou de outra, a cura ainda não existe e o pesadelo parece longe de terminar. Siga toda a atualidade em...»

Jake desligou a televisão depois de perceber que o assunto lá retratado seria sempre o mesmo. Na verdade ele vinha a tomar noção da realidade nos últimos dias, mas ainda não queria acreditar no que acontecia. Hollywood começava a mostrar alguns dos sintomas da rutura da sociedade e ele começava a temer pela segurança de quem vivia naquela casa. Ele queria protegê-los, mas depois do que lhe acontecera na semana passada não sabia se o podia fazer. O homem que o agredira não tinha o propósito de o fazer. Não tinha como objetivo esmagar-lhe o rosto como se ele fosse o seu pior inimigo. Aquela raiva, que explodira de uma forma que ele nunca vira, não era dirigida a si.

Apesar de tudo, Jake só pensava no que teria acontecido se não fosse ele a abrir a porta. Talvez Kim ou Rachel não conseguissem suportar... Nele mesmo, que fora treinado para defender e atacar, servindo de máquina de guerra ou de paz, ainda doía. Quatro dias depois ele pensava já ter curado todas as mazelas provocadas pelo homem, pelo menos as internas, mas ainda doía e a sua pele não recobrara a sua tonalidade natural.

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