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Ele pisou no salão de entrada quando o relógio da rodoviária marcava meio-dia em ponto. Ou seja, estava atrasado: preferia ter chegado um pouco antes, para já estar lá esperando quando ela chegasse, para ter tempo de sondar o ambiente e de comprar umas pastilhas para o hálito.

Não seria a primeira vez que os dois se encontravam. Mas ela nunca antes havia trazido a criança junto. Um imprevisto de última hora: o pai não poderia ficar com a menina durante o feriadão. De modo que ele teve que escolher entre cancelar o encontro ou acatar a sugestão dela de virem as duas, mãe e filha.

A perspectiva daquele fim de semana prolongado a três o incomodava um pouco. Nunca teve muito jeito para lidar com crianças. Não sabia como a menina iria reagir diante do novo amigo de sua mamãe. Se não fosse com a cara dele, isso poderia comprometer irremediavelmente seus planos para o feriado. Por outro lado a possibilidade contrária, de que a criança se afeiçoasse a ele, causava-lhe ainda mais ansiedade.

A vantagem de chegar em cima da hora é não ter que esperar. Ele sentiu a pontada de uma emoção desconhecida ao ver a mãe e a filha se aproximando. A garota era muito bonita, quase a miniatura da mãe. Parecia um pouco tímida a princípio, o que só a tornava mais simpática. Ele se percebeu disfarçadamente observando o rosto da menina, tentando subtrair dali as feições da mãe para vislumbrar como poderia ser a aparência do pai, que ele nunca havia visto. Uma operação complicada e de êxito incerto.

A mulher beijou-o rapidamente nos lábios, um beijo casto. E logo revelou que ela também possuía motivos para ansiedade:

– Acha que engordei muito?

– Claro que não. Você está mais linda que nunca.

Ele nem precisou mentir. Ela estava um pouco mais cheinha, é verdade, mas isso só lhe acrescentava exuberância e voluptuosidade. Por um instante ele foi tomado pelo desejo.

Da rodoviária foram direto para um restaurante que ele havia escolhido previamente. Logo o gelo foi quebrado com a menina, que se revelou uma tagarela divertida e inteligente. Já estavam terminando o almoço quando a garota fez um comentário curioso:

– Eu e mamãe vimos anjos lá na estrada.

Surpreendentemente a mãe confirmou a história e deu detalhes:

– Foi mesmo esquisito. Logo no começo da viagem apareceram muitas luzes movendo-se em grande velocidade. Era como se o sol tivesse se multiplicado e começasse a dançar no céu. Foi bonito, mas também um pouco assustador. Teve um momento em que uma das luzes pareceu se aproximar bem de nosso ônibus. Tive uma sensação estranha, uma mistura de câimbra com enjoo, como se eu fosse desmaiar. E então as luzes sumiram todas de uma vez, como se nunca tivessem existido.

Ele ficou olhando para a expressão solene das duas, sem saber se levava ou não aquilo a sério. Acabou optando pelo caminho mais seguro:

– Quem vai querer sobremesa?

**

Logo mais à noite, no quarto, tudo começou da melhor forma possível. A menina quase não deu trabalho para dormir e ficou bem acomodada na sala do computador, que ele adaptou como quarto de hóspedes especialmente para a ocasião. Quando finalmente ficaram a sós, ela o beijou com intensidade. Estava mais entusiasmada que de hábito, mais fogosa. Talvez a presença da filha no quarto ao lado reforçasse seu senso de segurança, permitindo que se entregasse mais.

Ele não sabia direito o que pensar. Aquele arrebatamento dela, ao invés de excitá-lo, deixava-o um pouco intimidado. Das outras vezes ela havia sido mais recatada, quase pudica, precisou ser conquistada palmo a palmo. Agora, no entanto, era ele quem se sentia tomado, devassado. Com um misto de vergonha e raiva, percebeu que a qualquer momento ela iria descobrir que todo aquele ardor não estava sendo correspondido, nem de longe.

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