DA ARTE DE CHUPAR (O) PICOLÉ

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Disso fiquei sabendo através do excelente Osmand Autran da última vez em que esteve na cidade, segundo ele recuperando-se de um tedioso cruzeiro pelas Ilhas Modorras. Durante a viagem, enquanto bebericava Jermanygelado no bar à beira da piscina, Autran escutou a conversa de duas velhotas que jogavam cartas perto dele. Uma delas estava contando como foi a festa de formatura da filha, começando a narrativa pela ida ao salão de beleza no dia anterior ao baile.

o autor

Uma tarde qualquer no salão de beleza Mademoiselle Femme.

PERSONAGENS:

Luciana (cabeleireira e proprietária)

Roberta (manicure)

D. Carmem (cliente habitual do salão)

Ângela (outra cliente)

Neide (amiga de Ângela, pela primeira vez no salão)

Arauto do Ministério (aparece quando há fala sexopoliticamente incorreta)

Motoboy (chega depois trazendo flores)

Faxineiro (sua faxina é do tipo que Norman Bates fez em Psicose)

Misteriosamante (só aparece quase no final)

Luciana (recebendo com beijinhos sua cliente costumeira) – Carmem querida! Já estava ficando com saudades, viu? Que bom que você veio! E então, meu bem, o que vai ser hoje? Vai querer repicar ou desfiar? Prefere a tesoura fina e comprida ou a rombuda de ponta grossa?

D. Carmem (sendo conduzida para a lavagem do cabelo) – O que você escolher para mim está bom, Luciana, desde que me deixe bem bonita!

Roberta – Só com muita reza braba... (para Ângela, em outro tom, quando percebe que falou mais alto do que devia:) ...quem sabe um dia eu consigo ficar com essa carinha de felicidade que você está hoje, amiga! (enfática) Sim, sim, do jeito que estou, só com mandinga da poderosa para eu desencalhar, menina. Só tomando banho de folha, de sal grosso, de cachoeira, mas tem que ser nessa ordem, porque se for ao contrário eu vou acabar virando o quê, uma salada temperada? Mas só com reza ou feitiço mesmo para eu ficar assim com essa carinha assim de apaixonada. Sim, pois nem precisa me dizer que você está amando, amiga. Está escrito em sua cara!

Ângela (o sorriso congela no rosto, leva as mãos ao rosto e ao cabelo, tateante, subitamente preocupada) – Está?

Roberta (divertida, sem perceber o incômodo de Ângela) – Sim, sim, como não? Você está com uma cara de satisfeita, sabe? ...parece uma gata que se lambuzou todinha de leite!

Ângela (repete o gesto, procura o espelho) – Sério?

Roberta – Foi algum mosquito que picou você? (sacode o ar com suspeita) Eu não posso com picada de mosquito, fico toda roxa!

Luciana (afinal decide intervir) – Roberta!

Roberta (serviçal) – Sim, madame.

Luciana (reprime a custo a raiva que a resposta provoca) – Roberta, você está vendo esse aparelhinho na tomada bem atrás de você? Foi você mesma que ligou o aparelho na tomada hoje de manhã, como faz todos os dias. E você lembra para que serve esse aparelho, Roberta?

Roberta (resignada) – Sim, é um repelente eletrônico de mosquitos, que emite uma frequência altíssima, inaudível para os ouvidos humanos, insuportável para os mosquitos, testado em laboratório, cientificamente comprovado, cem por cento garantido, totalmente infalível. (espanta com a mão um mosquito)

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