O ARMAZÉM

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Silas apertou o passo. A visão da passarela intensificava sua ansiedade.

Ele já devia estar atrasado. Não poder ver as horas o incomodava. O relógio de pulso sempre com defeito. Uma porcaria, nem valia a pena mandar para o conserto. E cadê o dinheiro para comprar um novo?

Muito menos havia relógios públicos à vista naquele ponto ermo da cidade. Silas perambulava pelos armazéns do cais do porto. Parecia um camundongo com seu passo miúdo e apressado diante dos imensos portões dos armazéns.

Usualmente ao lado do portão de carga havia uma entrada menor para o pessoal de serviço. Ao se aproximar de uma dessas entradas, Silas teve a sua atenção capturada por um estranho desenho na parede.

Entalhadas naquele mural encardido pela fumaça e pelo tempo, bem ao lado da porta de acesso, estavam inscrições de muitas caligrafias diferentes. Eram tantas que foram feitas umas sobre as outras, as de cima mais recentes e as de baixo parecendo bem antigas. Todas igualmente ilegíveis.

Silas ficou tentando decifrar aquele mosaico de assinaturas na parede. Então notou que alguém o observava. Era um homem mais velho, com uns bigodes enormes, desproporcionais naquele rosto miúdo. Perguntou se Silas estava ali para ocupar a vaga que estava aberta. Falava com um forte sotaque de Lisboa.

Silas ficou paralisado. Temia que o seu segredo tivesse sido descoberto, e que qualquer palavra pronunciada o traísse ainda mais. Ele simplesmente não podia responder. O velho assentiu com a cabeça e disse: "O silêncio é uma confissão." Fez sinais para que Silas o acompanhasse.

O galpão parecia ainda maior do lado de dentro, com a iluminação insuficiente alongando as sombras. Boa parte do espaço estava tomada pela carga, que estava arrumada na forma de cubos do tamanho de casas, embalados por grossas lonas e diligentemente acomodados uns sobre os outros.

O cubo que estava mais próximo ainda não fora embalado. Ao chegar perto o suficiente, Silas descobriu que o cubo era formado por milhares e milhares de livros empilhados de forma compacta.

Notando seu interesse, o velho comentou algo sobre as bibliotecas estarem abarrotadas e as livrarias não conseguirem dar vazão a seus estoques, daí os livros terem vindo parar nos armazéns, afinal o seu lugar mais que devido, sendo os livros uma mercadoria como qualquer outra. O imenso bigode quase não se mexia quando o velho falava. Ele agora estava dizendo que era preciso não subestimar a importância dos livros, coisa que ele mesmo jamais fazia, pois melhor que muitos entendia o valor do objeto de trabalho de todos ali: "Nos livros aprendi a fugir ao mal sem o experimentar."

O lote seguinte ainda estava sendo construído, apenas algumas poucas centenas de livros formando um grande quadrado no chão. A distribuição de volumes ao longo do quadrado era irregular. Aqui e ali havia pilhas de dez ou mais livros, mas a maior parte não tinha mais que cinco. Curiosamente havia muitos locais com um tomo só e mesmo pontos vazios. Aos poucos, Silas foi enxergando um padrão naquele exótico arranjo. Pois o desenho formado no quadrado era uma espécie de mandala, quase uma letra, certamente algum tipo de mensagem. Para quem?

Mas logo o velho chamava a sua atenção, fazendo sinais para que prosseguissem sem demora. Compreendia muito bem, dizia o velho, que Silas fosse daqueles apaixonados pelos símbolos e obcecados pela sua sucessiva codificação e decodificação. Seria um grave erro, contudo, permitir que esses impulsos o afastassem da execução do trabalho que ele automaticamente assumiu ao aceitar a vaga: "É falso o amor que leva o homem à indignidade."

Silas se sentiu na obrigação de declarar: sou escritor. Claro que é, respondeu o velho sem sorrir. Se sorriu, foi um riso triste e secreto, emparedado pelo imenso tufo branco. Aquele bigode continuava intrigando Silas. Era muito familiar, como se estivesse associado a uma imagem bem conhecida, talvez alguém famoso. Mas o nome não vinha na memória.

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