SOM ALTO

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Anísio já acordou com o som alto ribombando nas paredes. Os vizinhos decidiram começar cedo o domingo. Ele afundou a cabeça no travesseiro, tentando se agarrar aos últimos resquícios de sono. Mas era tarde demais. A batida por demais familiar já havia invadido e impregnado seu cérebro, obrigando-o a acompanhar mentalmente a melodia mínima e a hedionda letra:

Senta senta senta

Mete que ela aguenta

Soca que ela goza

Fica na xeca gostosa

Não havia mais sono, tampouco descanso para os justos. Anísio teve que levantar e ir fazer o café.

A moda agora é fazer com três

Três de uma vez

Um, dois, três

Um pau vai na boceta

Enquanto mama a chapeleta

E o terceiro vai atrás

E vai e vai e vai e vai

Só na tarraqueta

O café lhe soube amargo, embalado pela obscena e agressiva sonoridade.

– Desgraçados! – A maldição deixou um gosto de bile na boca.

A paz era impossível, mas não foi por falta de tentativas. Anísio bem que se esforçou por um armistício. Humilhantes lembranças: ele ainda acreditava no bom senso alheio, que o abuso acontecia apenas por uma falta de percepção dos vizinhos. Que quando o seu sincero apelo à razão fosse ouvido, seria escutado:

– Vizinha, bom dia. Com licença – disse ele naquele dia fatídico, há coisa de algumas semanas, depois de meses e meses tentando aturar o insuportável. Anísio dirigiu-se à matriarca do clã de mal-educados. Teve que gritar para ser ouvido. – Gostaria de lhe pedir a gentileza de diminuir um pouco o som. Pois assim nem consigo assistir à televisão. Me dá até dor de cabeça.

E era verdade. Mesmo no volume máximo, a tevê não era páreo para a insurdescência. Mas a única resposta que a vizinha lhe deu foi um olhar esgazeado e ébrio, seguido por gargalhadas libidinosas. Quando ele voltou para casa escabreado, com o rabo entre as pernas, aconteceu o impossível: aumentaram ainda mais o volume da putaria sonora.

Xerecareca vai vai vai vai

Depiladinha vai vai vai vai

Xerecareca vai vai vai vai

Só as novinha vai vai vai vai

– Tinha de ser uma merda dessas – resmungou entredentes, mastigando o mamão amargo junto com o café. – Se fosse música boa, decente, teriam vergonha de escutar.

O rancor ativava a sua veia filosófica. Muitas vezes refletiu, não sem motivo, que quanto mais alto o volume, mais chã a qualidade da música.

– No dia em que tocarem Chico Buarque desse jeito, ou Mozart, será o prenúncio do fim da civilização humana.

Quem disse que só de sexo grupal

Vive o pancadão do pagodão?

Sexo com a mão também é legal:

Tem pagodeiro punheteiro no salão!

Restavam-lhe as alternativas de voltar para o quarto e entupir os ouvidos de algodão – lenitivo parcial – ou de fugir. Sair de casa, ir para o parque da cidade, ou para a praia, ou para o shopping, ou para o cinema. Até gastar o dia e deixar que os vizinhos se cansassem de sua orgia auditiva. Mas essas eram atitudes covardes, Anísio bem sabia, e nenhum sossego seria alcançado por meio desses vis subterfúgios. Uma fria e férrea resolução começou a tomar forma.

Anísio levantou-se da mesa, abandonando seu ingrato desjejum incompleto. Foi para o quarto. Na gaveta de cima do criado mudo aguardava irresoluto o trinta e oito, bem lubrificado e até então nunca necessário. Ele havia comprado a arma de um segurança da firma onde trabalhava, sob o pretexto de proteger seu lar de malfeitores. Canalhas o mundo produzia a cada dia em demasia, isso estava claro. O que estivera faltando a Anísio, até hoje, era coragem.

Ele tirou a arma do coldre. Ainda teve sangue frio para checar a munição. Quando surgia a oportunidade de treinar com o revólver, no sítio de um amigo, sempre acertava na mosca: era um talento nato.

Ao abrir a porta de casa, sentia a cabeça leve, como se tivesse bebido um cálice ou dois de vinho. Atravessou a rua com o trinta e oito empunhado e engatilhado.

Os vizinhos reunidos na calçada defronte limitaram-se a encará-lo com o mesmo olhar bestificado de sempre. Pareciam não acreditar na cena que estavam vendo. Anísio mirou primeiro na matrona. No peito. O segundo tiro foi no genro musculoso da matriarca, possivelmente a maior ameaça. Na cabeça. O alvo seguinte foi a filha gostosa da vizinha, prostituta-mor da Babilônia. Como tentou correr o primeiro disparo pegou na coxa, mas depois que ela caiu Anísio pôde fazer mira com calma e acertar na cabeça.

A essa altura a meia dúzia de agregados que desfrutava do churrasco ensurdecedor já havia partido a milhão. Foram dispersados no vento pelos quatro pontos cardeais. Restava na rua apenas a menina, filha da filha da vizinha, criança de sete ou oito anos, segundo calculava Anísio. Ele hesitou apenas por um instante, ao ver a menina chorando, paralisada pelo medo. Mas logo se lembrou de quantas vezes havia visto a endemoniada criaturinha rebolando lascivamente ao som alto da perdição. Não havia mais salvação para aquela alma, isso era certo. Um tiro no peito calou o seu choro.

A última bala foi destinada ao inimigo supremo. Anísio adentrou a casa dos vizinhos e acertou um tiro certeiro no coração das trevas. O maléfico aparelho de som foi calado para sempre.

Diante do súbito silêncio, Anísio experimentou uma paz inesperada e inaudita. Voltou para casa e ficou esperando a chegada da polícia.

O julgamento foi polêmico e recheado de controvérsias. Anísio foi condenado à pena máxima. Como não possuía bacharelado, foi relegado à prisão comum. Na cela superlotada, precisava lutar por um mínimo de ar. A única distração a aliviar a agonia das horas era provida pelo chefão da cela, celerado terrível: um reles radinho de pilha, que destilava em volume máximo e distorcido o último som da moda.

Ele só gosta de tu

Ele tem fome de tu

Ele vai comer tu

Ele quer meter peru

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