Quando Carter finalmente cedeu, ele pediu para que todos abaixassem as suas armas e convidou os dois irmãos para sentarem ao redor da fogueira apagada com ele.
- Cara, que roupas são essas? – Karl quis ser engraçado, mas ao tocar o ombro de Ayla, ele foi imobilizado pela mesma que virou o braço dele para trás de suas costas.
- Toque em mim novamente, sem a minha permissão, e eu mato você – ela falou alto o suficiente para que todos os outros escutassem. Ela o soltou logo em seguida.
Precisei segurar a minha risada ao ver seu olhar assustado, Karl precisava urgentemente se comportar melhor. Mas ele estava certo, os irmãos se vestiam diferentemente de nós. Usavam roupas sujas, desgastadas, um pouco rasgadas e tinham muitos panos pendurados. Ayla trajava uma blusa regata preta por dentro de outra blusa cinza lisa de mangas, uma calça jeans com alguns rasgões e com alguns acessórios pendurados, botas pretas com muitas fivelas e luvas marrons com aberturas para os dedos, e em seu pescoço tinha um pano preto com um nó, porém, o toque especial de todo o seu look eram os seus óculos de corrida que ficavam pousados em cima de sua cabeça. Aiken usava uma blusa também cinza de mangas, que estavam levantadas até a altura dos cotovelos, uma calça de algum uniforme antigo militar, botas de cano baixo e luvas do mesmo estilo que a irmã usava. Os dois possuíam mochilas que, ao contrário das nossas, suas alças se encontravam no meio de seus troncos.
- E então? – Carter quis dar início a conversa.
- Vocês estão arrumados e perdidos demais para serem daqui, de onde vieram? – Aiken me perguntou.
- Isso não interessa – Carter cortou qualquer curiosidade que ele tinha.
- É claro que interessa. Como podemos ajudar, se não conhecemos vocês? – Ayla retrucou e Carter me encarou.
Ele estava mesmo me pedindo ajuda?
- Tudo que podemos dizer é que somos de uma base que precisa de nós para continuar funcionando. Nunca tínhamos vindo aqui, então é meio óbvio que não conhecemos esse lugar tão bem como vocês. – Eu tomei a palavra e eles pareceram se conformar.
- O que querem saber? – Aiken perguntou para o grupo em geral. Eram tantas perguntas que tínhamos, que não sabíamos qual fazer.
- O que eram aquelas coisas? – eu decidi perguntar.
- Nós os chamamos de mortos, são uma das inúmeras sequelas de uma antiga guerra. Foram criados por causa de um vírus que tem a capacidade de se propagar pelo ar. – ele resumiu. A guerra a qual se referia era A Grande Guerra e todos sabíamos disso.
- Calma, ainda se propaga? – Charles perguntou e Aiken assentiu – Então, como não estamos infectados? – ele ficou confuso, como o restante de nós.
- Porque o vírus só se manifesta em seu corpo quando seu cérebro para de funcionar – Aiken explicou.
- Ou seja, quando vocês morrem. – Ayla traduziu – Mas também podem se manifestar através de um arranhão ou de uma mordida de um morto – ela me encarou – você teve muita sorte – disse e eu suspirei aliviada ao constatar que ela estava certa, eu saí da pequena briga com aquela coisa totalmente ilesa. Um milagre, eu diria.
- Se vocês tiverem uma ferida e o sangue deles entrarem em contato com ela, também estão mortos – Aiken acrescentou.
- Eles vivem em bando ou são solitários? – Margot perguntou.
- Eles não têm sentimentos, são atraídos pelo que acham ser comida. Então é algo improvável. Eles se tornam bandos quando se juntam para correrem atrás de nossos cérebros. – Aiken respondeu.
- Esses bichos usam a audição, a visão e o olfato para irem atrás de suas presas. Então vocês precisam, acima de tudo, serem cuidadosos. Qualquer erro, pode custar a vida de um de vocês. – Ayla alertou e apontou para a fogueira, que quase custou a minha vida.
- Eles enxergam e escutam? – perguntei confusa por não ter notado nenhum dos órgãos responsáveis por isso.
- Sim, os olhos deles são tão brancos que é difícil distinguir daquela pele enrugada e pálida. E eles não possuem ouvidos com o mesmo formato que os nossos, por isso você não conseguiu ver – ela explicou.
- Eu vi que vocês gastam muita munição tentando derrubá-los – Aiken observou – Querem uma dica? Explodam as cabeças deles. Mirem nelas e eles vão cair no primeiro tiro.
- Por que a cabeça? – Victória perguntou.
- É por onde o vírus consegue controlar o restante do corpo – Ayla respondeu como se fosse óbvio – Não somos cientistas para explicar como isso acontece exatamente, então não perguntem – ela cortou o Charles que iria perguntar justamente isto – E eles são sensíveis à luz do sol, não o bastante para impedi-los de virem atrás de nós, mas o suficiente para fazê-los caçarem mais frequentemente durante a noite.
- Noite. Cabeça. Arranhão e mordida. Olfato, visão e audição. Morte. – Carter resumiu todas as informações em poucas palavras – Ok, entendemos, obrigada pela ajuda. – Ele se levantou pronto para manda-los ir embora.
- Aonde vocês vivem? – prolonguei a conversa e Carter me lançou um olhar mortífero.
- Em todos os lugares – Aiken sorriu.
- Somos andarilhos – Ayla os definiu.
- Anda, o quê? – Karl franziu a testa.
- Andarilhos. Sobrevivemos como nômades. Ficamos um tempo em um lugar e quando alguma coisa acaba, como comida ou água, saímos dele e continuamos andando atrás de outro lugar que nos forneça essas coisas. – Ayla explicou.
- Como conseguem viver desse jeito? – Margot perguntou, sensibilizada.
- Não tivemos tanta sorte como vocês de terem uma base com tudo o que precisavam – Aiken deu de ombros – e depois de um tempo, você acaba se acostumando.
- Existem outros como vocês? – Carter perguntou, de repente estava interessado no assunto.
- Quanto tempo ficaram nesse abrigo? – Ayla quis saber ao perceber que estávamos por fora de tudo.
- Alguns anos – eu respondi de maneira vaga.
- Bom, o nosso mundo atualmente se divide em três categorias: andarilhos, que são pessoas como nós. Aldeões, que eu sugiro que evitem porque alguns deles podem ser canibais e, se não forem, irão fazê-los de escravos. E, por último, temos o Distrito Federal que é a nossa capital, onde moram os descendentes de militares e pessoas com poderes políticos. Se quiser entrar lá, você precisa ser muito bom em alguma coisa, como um cientista, engenheiro ou um médico. Eles usam tecnologia de ponta e sempre mantêm os estoques abastecidos. – Aiken explicou com gestos.
- Vocês sabem onde fica a capital? – Carter perguntou para eles, ele parecia ter alguma ideia em mente.
- Todo mundo sabe onde fica aquele inferno – Ayla debochou. Os recrutas se olharam confusos, todos se perguntavam a mesma coisa.
- Carter, o que você tem em mente? – perguntei por todos, mas ele me ignorou.
- Nós damos um terço dos nossos suprimentos se nos levarem até lá – ele propôs aos andarilhos que se entreolharam.
- Tem certeza? – Aiken perguntou como uma sobrancelha arqueada.
- Absoluta – ele confirmou.
- Fechado! Partimos em meia hora – Ayla avisou e se afastou de nós com o seu irmão para se preparem.
- Capitão Carter, pode compartilhar conosco o porquê de sua decisão? – o garoto negro perguntou em um tom formal, mas era claro que ele estava tão assustado e confuso como o restante do grupo.
- Claro, Amon – respondeu ao garoto – ele nos informou que a capital é formada por descendentes de militares e que possuem um estoque lotado de suprimentos – disse como se fosse óbvio e todos nós continuamos com um grande ponto de interrogação em nossas cabeças. Percebendo isso, ele prosseguiu – Nós somos descendentes das famílias dos militares. Eles podem nos dar alguns suprimentos para levarmos para o Bunker ou, até mesmo, podem nos oferecer moradias na capital – expôs a ideia.
- Carter, eu não acho que...- ele me interrompeu.
- Baker, você não tem que achar nada. Eu sou o capitão desta equipe, portanto, cabe a mim as decisões do que deveremos fazer e como iremos fazer. E, se eu estou dizendo que devemos ir para a capital, é para lá que nós vamos. – Carter levantou o tom de voz ao usá-la comigo para mostrar que era a pessoa mais importante daquele grupo e que todos deveriam o respeitar.
Eu não concordava nenhum pouco com ele, mas decidi que não resultaria em nada debater. Por isso, prometi a mim mesma que a partir daquele momento eu decidiria o meu próprio futuro. Eu saí daquele maldito Bunker por escolha própria, então, eu decidiria para onde iria por minha escolha e não por ordem de um idiota.
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Ninka revolucionária.
*Sorry pela demora para postar*