Ao passarmos pela pequena porta de aço, ficamos esperando morrermos sufocados com o ar contaminado ou cairmos duros pela radiação, mas nada disso aconteceu.
Então, nós finalmente contemplamos a superfície e comemoramos, totalmente extasiados. O sol era quente e incomodava os nossos olhos quando os dirigíamos a ele. O céu era uma mistura de tons acinzentados e alaranjados.
- Conseguimos! – alguém gritou e todos nós gritamos juntos, nos abraçando.
- Vocês estão sentindo isso? – uma garota negra perguntou. Seu nome é Christine, se eu não me engano. – O ar é puro – ela fechou os olhos e respirou fundo, fazendo todo nós a imitarmos.
- Já era de se esperar, visto que o nosso oxigênio foi reduzido cinco por cento a cada década – eu comentei e, quando notei o que acabara de fazer, me xinguei mentalmente.
Todos me encararam. Meu disfarce tinha ido por água abaixo.
- Como assim? – quem eu suspeito ser a Margot, perguntou confusa.
- Ao contrário do que o capitão pregou para vocês, os nossos recursos estão acabando há muito tempo. Por isso, criaram tantas regras idiotas com punições tão severas. O conselho queria uma desculpa para conseguir matar mais gente e poupar mais recursos. – expliquei de forma simples, eu sabia daquilo porque minha mãe já foi auxiliar de um dos organizadores antes da tragédia com o meu pai.
- Quem é você para falar assim do conselho? – Carter se dirigiu a mim com os olhos estreitados e com os braços para trás, como um soldado – Não é um dos recrutas, então, o que você está fazendo aqui? – ele finalmente percebeu e todos me avaliaram dos pés à cabeça.
- Eu te conheço. Você é uma Baker! Mataram o seu pai porque ele foi burro o bastante para engravidar a sua mãe de novo – Karl resumiu minha vida em poucas palavras e eu precisei respirar fundo para não lhe dar um soco.
- Você é louca? Não pode estar aqui – uma garota ruiva se pronunciou com os olhos arregalados.
- O quê? — eu ri sem humor — Vão me mandar descer, agora? Eu já estou contaminada com toda essa merda de radiação de qualquer maneira – os confrontei de forma debochada enquanto cruzava os meus braços. Eles me encaravam como se eu fosse louca.
- Que tal se a gente te matar? Você nem deveria estar aqui mesmo – Karl estendeu a arma em minha direção e todos se assustaram.
- Então atira – eu o desafiei, dando mais um passo e colando minha testa no cano de sua arma. Karl a engatilhou, pronto para estourar minha cabeça, mas eu me obriguei a não dar nenhum passo para trás. Eu não iria recuar.
- Ninguém vai matar ninguém! – Carter interveio, abaixando a arma de Karl – A nossa missão é saber se a superfície é habitável e, para isso, teremos que cobrir a maior extensão de área possível – ele explicou em alto e bom tom para que todos escutassem – Então deixem de agir como crianças e vamos andando! – ele gesticulou e saiu na frente do grupo, nos guiando.
- Você teve sorte – Karl sussurrou em meu ouvido ao passar do meu lado, esbarrando propositalmente seu ombro no meu.
Começamos uma caminhada longa. Estávamos todos estupefatos com o que a terra havia se tornado depois da Grande Guerra. Edifícios, hospitais e quaisquer construções ou estavam destruídas ou estavam enterradas em uma areia avermelhada. Havia viadutos por todos os cantos, que também serviam para trens.
- Nós podemos parar um pouco? – perguntou um menino gordinho, ensopado de suor e ofegante, depois de pelo menos uma hora de caminhada.
- Não – gritou Carter na frente do grupo. Me aproximei do garoto que estava parado e curvado tentando recuperar o fôlego.
- Você está bem? – me preocupei.
- Minha água acabou – ele disse, limpando a testa com um pano que havia dentro de sua mochila.
- Pode beber um pouco da minha – entreguei minha garrafa a ele que bebeu metade do líquido que havia dentro. Ele claramente não sabia o significado da palavra "pouco". Não o culpo, está um sol escaldante.
Voltamos a caminhar junto ao grupo.
- O que são essas máquinas? – a garota ruiva, que descobri se chamar Victória, perguntou. Estávamos passando na frente de um estacionamento, que servira como um ferro-velho.
- São carros – eu a respondi e ela franziu a testa – e aquelas coisas são motos – apontei para outra parte do estacionamento.
- As pessoas os usavam para se locomoverem antigamente – um garoto explicou ao meu lado e eu lhe encarei – Prazer, me chamo Charles – estendeu a mão e eu o cumprimentei.
- Eu sou...- ele me interrompeu.
- Ninka Baker, eu sei – lhe encarei com uma sobrancelha arqueada – nós...nós éramos da mesma sala na aula do senhor Hamilton – ele se explicou, nervoso.
Assenti, voltando a caminhar. Como eu havia dito antes, nós éramos obrigados a aprender sobre nossos antepassados. Inclusive, sobre os seus costumes e como eles viviam em sociedade. Apesar de eu odiar frequentar as aulas e as achar repetitivas, eu prestava atenção no que o velho Hamilton explicava.
(...)
Ao entardecer, achamos um mercado. Carter concedeu o pedido de um dos recrutas para que parássemos e nos reabastecêssemos.
- Peguem apenas o necessário, precisamos achar um local seguro para passarmos a noite – ele ordenou assim que entramos no estabelecimento.
- Só eu acho esse cara um chato? Quer dizer, não estamos mais naquele bunker minúsculo. Poderíamos nos divertir um pouco antes de pegar no pesado. – Um garoto, chamado Daniel, comentou enquanto o grande grupo se dividia pelos corredores.
- Ele pode até ser chato, mas a beleza compensa – Victória disse em um tom malicioso e eles riram.
- Tudo bem, eu bebi muita água no caminho, então, eu vou dar uma esvaziada – ele avisou antes de sumir por um corredor.
- Ei! Você está legal? – Margot perguntou ao meu lado enquanto parávamos em frente a um freezer quebrado. A encarei com a testa franzida. – O Karl pode ser um babaca quando quer – ela acrescentou.
- Eu estou bem – lhe assegurei com um sorriso fraco, pegando as duas únicas garrafas de água que tinha por ali – As garrafas em si estão vencidas e o plástico deve ter diluído um pouco, mas é melhor do que morrer de cede – eu a entreguei uma.
- Obrigada – ela sorriu.
De repente, escutamos um grito vindo do fundo mercado, fazendo todos nós entrarmos em alerta.
- O que foi isso? – Margot sussurrou ao meu lado.
- Fiquem atrás de mim – Carter ordenou, seguindo em direção ao barulho. O seguimos.
Na virada de um dos corredores, demos de cara com Daniel fazendo uma careta, nos assustando.
- Peguei vocês! – ele gargalhou, balançando seu cabelo loiro cacheado.
- Nossa, que idiota – eu o xinguei, colocando a mão no peito para sentir o meu coração que estava acelerado. As pessoas suspiraram aliviadas e irritadas com a brincadeira.
- Vamos embora – Carter disse, abaixando sua arma que até então estava preparada para acertar alguém.
- Você se preocupou comigo, Baker? – Daniel debochou com um sorriso de lado.
- Vai para o inferno – eu mandei.
Quando me preparei para girar o meu corpo na ponta de meus calcanhares e ir embora, uma coisa pulou em cima do Daniel, mordendo o seu pescoço e o fazendo cair de joelhos. As pessoas viraram quando escutaram o meu grito fino e assustado.
O loiro olhou para mim engasgado com o seu próprio sangue, sem entender o que tinha acontecido. Então, eu finalmente olhei para a coisa que parecia um humano, mas era deformado e magro demais para ser definido ou considerado como um.
- Corram! – Carter gritou, atirando em direção a coisa e me puxando pelo braço para que eu saísse dali. Tudo se passava em câmera lenta na minha cabeça.
Corríamos desesperados, procurando pela saída, mas o que encontramos ao virar em um corredor foi outra daquela coisa. Um dos meninos atirou diversas vezes em sua direção, mas as balas não a pararam. Então, decidimos mudar a direção e correr para o outro lado. Contudo, fomos surpreendidos com mais uma delas pulando de uma prateleira alta e caindo em cima de um de nós, estraçalhando o seu rosto com os dentes. Nossa segunda vítima foi o gordinho que teve uma morte agonizante, mas que acabou por nos dar alguns segundos a mais de vantagem, seu nome era Edward.
- Ali! – Karl gritou ao ver a saída e nós aceleramos nossos passos, parecíamos participar de uma maratona.
- Me dá cobertura – eu pedi para Carter, que corria ao meu lado, quando tive uma ideia. Ele ficou atordoado quando me viu sair da rota e precisou atirar em uma das coisas que corria em minha direção.
Todos conseguiram chegar do lado de fora e apenas eu estava dentro do mercado, mas aquilo era necessário. Eu peguei um taco de baseball que estava para vender e corri de volta para a saída, onde as pessoas me aguardavam em meio a gritos e disparos contra a coisa atrás de mim. A adrenalina não me permitia sentir dor e nem medo, ela me dava coragem e força para correr cada vez mais rápido.
- Vamos lá, Baker! – Carter gritou – Se preparem para fecharem as portas quando ela passar – ele mandou para duas pessoas que se posicionaram – E... – Ele esperou eu atravessar a porta – Agora! – os dois garotos fecharam e os outros recrutas se juntaram para empurrar a porta contra a coisa. Eu fiz a minha parte indo até as maçanetas e atravessando o taco nelas, fazendo uma tranca improvisada.
Ao finalizar, nós nos afastamos e observamos a coisa tentar sair dali de dentro, sem obter sucesso.
- Vamos dar o fora daqui. Essa porta não vai segurar isso por muito tempo – me referi a criatura que aparentemente não tinha olhos, nem ouvidos e seu nariz não tinha um formato, assim como sua boca que era grande demais para o seu rosto. Seu corpo era curvado e esquelético, sua pele era branca como um algodão e engelhada como a de um idoso.
- Foi bem corajoso o que você fez – Margot me elogiou enquanto andávamos para longe dali.
- E bem idiota também. Você poderia estar morta. – Carter disse ao nos ultrapassar na caminhada.
- De nada – eu murmurei como resposta e revirei os meus olhos.
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Opa! E aí? Gostaram desse capítulo com a Ninka entrando em ação?
Provavelmente vai surgir muitas dúvidas em vocês sobre o que são essas coisas ou como isso aconteceu, mas já vou adiantando que TUDO vai se encaixando ao decorrer da história. Então, muita calma nessa hora.
O próximo capítulo sai daqui a alguns dias.
Não esqueçam de favoritar e comentar, se gostarem!