☠ XXXI - Vislumbre ☠

Start from the beginning
                                    

— Também carrego o sangue de Kidd nas veias — disse ele. — Vamos apoiá-la em sua decisão, três gerações unidas para acabar com a maldição.

Elisa não conseguiu dizer nada. Tinha a impressão de que engasgaria com as palavras se tentasse. Concentrou-se naquele toque ao olhar novamente para o céu. Algumas gotas salpicaram em seus olhos e ela piscou, ajustando a visão. A forma etérea de Zumé havia voltado, uma sombra humanóide recortada entre raios e águas revoltas. As fendas em seus olhos pareciam estar voltadas para Elisa. Imóvel, ele esperava.

Elisa engoliu em seco, sentindo todo o peso daquele momento recair sobre si. Passou a mão pelo bracelete, erguendo-o pela segunda vez. Ela encarou a massa incorpórea no céu e por um instante tudo ficou no mais completo silêncio. Elisa mergulhou para a escuridão profunda irradiada pelo espírito, o corpo suspenso em uma estranha calmaria anti-gravitacional. Sua mente esvaziou-se. Os músculos relaxaram. Ela se deixou levar pela escuridão, inerte.

E então, algumas imagens começaram a surgir como em um sonho. Ela devia saber que Zumé estava projetando aquelas imagens em sua mente, mas àquela altura já estava totalmente imobilizada, entregue à vontade do espírito.

Elisa se viu em um solo distante, selvagem, inexplorado, em uma época longínqua. Só sabia que estava muito longe de Libertália porque o povo que andava por aquela terra era um povo muito diferente: tinham a pele morena e o corpo nu coberto por pinturas vermelhas e pretas. Alguns levavam arcos e flechas, saindo para a caça, enquanto as mulheres andavam sem o menor pudor, carregando crianças em suas costas; eles riam e falavam uns com os outros em uma língua que ela não compreendia. Suas casas eram feitas de palha e tapume, mas apesar da vida simples e feliz, ao longe uma enorme pirâmide dourada brilhava, imponente, entre as folhagens da selva.

A imagem mudou: Elisa estava de pé, diante da pirâmide dourada. De perto, ela parecia ainda mais grandiosa, descendo em uma cascata de degraus ornamentados de ouro. Uma visão que levaria qualquer homem com sede de riqueza à loucura.

Elisa viu quando um dos nativos precipitou-se pelo portal, caminhando em sua direção com um manto de couro cru sobre os ombros e nada mais de vestimenta. Levava um cajado e um colar com penas de diversos tamanhos e cores, a orelha furada com um disco de madeira e o queixo transpassado por um graveto comprido. Sua pintura corporal era mais elaborada que as que vira antes. A postura de um líder. Seus olhos injetados penetraram Elisa e, por um instante, ela pensou que ele se dirigiria a ela. Mas então um homem começou a falar em suas costas e ela se deu conta de que estava no meio de uma discussão acalorada. O homem que falava era branco, de feições européias, a barba por fazer e os longos cabelos amarrados em um rabo de cavalo. Embora suas roupas estivessem surradas e sua aparência descuidada, ele discursava com autoridade, em um tom de ameaça que não permitiria ser contrariado. Durante toda a conversa, ele deixava evidente sua espada embainhada e o mosquete pendurado na cintura. Um aviso velado.

Em uma frágil tentativa de proteger seu povo e o tesouro sagrado das garras do conquistador branco, o homem avançou sobre ele, brandindo seu cajado com um grito de guerra. Uma mão forte atravessou o abdômen de Elisa, como se ela fosse feita de vento, e no segundo seguinte o chefe indígena estava caído ao chão. O pirata o olhou com superioridade, puxando o mosquete da cintura e atirando em seguida. O sangue aflorou do peito, misturando-se à tinta vermelha. Os lábios carnudos abriram-se, proferindo uma torrente de palavras que soavam como uma praga. O sol ofuscou-se no céu, mergulhando a selva em uma escuridão profunda. A pirâmide já não brilhava.

Outras imagens vieram à tona: a pirâmide sendo saqueada, o ouro sendo levado embora. Os índios tentando impedir com suas flechas, sendo massacrados por armas muito superiores às que levavam. Coisas que eles sequer compreendiam.

Depois veio a aldeia pegando fogo, crianças chorando, mulheres gritando, implorando por piedade enquanto eram arrastadas pelos cabelos. Corpos caindo sem vida. O sangue escorrendo pela terra. Um rio de dor. Horrorizada, Elisa teve que desviar o olhar daquela cena.

— Eu não quero ver isso... por favor, eu não posso...

De repente, Zumé estava à sua frente, do tamanho e forma de um homem médio. Ele segurou o queixo de Elisa com seus longos dedos gélidos e o ergueu de volta para a cena, obrigando-a a testemunhar o massacre pirata contra o povo indígena.

— Veja! É isso que eles fazem! São eles que você tenta salvar! Assassinos, ladrões, tiranos... Nunca se importaram com as vidas que tiraram.

Elisa balançava a cabeça quando viu, impotente, um bebê que chorava no chão, enquanto sua casa ardia em chamas. A mãe implorava por clemência enquanto era arrastada para trás de um arbusto por braços brutos. O homem ria de seu desespero, divertindo-se com a agonia da mulher. Ele prendeu os braços dela para trás, pressionando-a contra o tronco de uma árvore e afrouxando o cinto da calça com a outra mão.

Elisa fechou os olhos com força, recusando-se a assistir àquilo.

— CHEGA! — gritou, erguendo o bracelete malgaxe em direção à Zumé.

Ela não sabia se o espírito era real ou não, apenas precisava acabar com aquilo. Sentiu todas as suas forças sendo drenadas para o bracelete. Um raio de energia começou a jorrar do metal frio e ela o direcionou direto para Zumé, que o recebeu a princípio de peito aberto, absorvendo o poder cristalino. Mas Elisa não desistiu de sua força, apoiando o braço com a mão livre para segurar melhor o peso daquele poder, que sentia correr por suas veias como as correntezas de um rio desgovernado. Os pés afundaram no chão, mas ela aguentou firme.

Após o que pareceu uma eternidade, a forma etérea de Zumé começou a oscilar. O céu clareou e a imagem do massacre se dissolveu. Elisa concentrou-se no toque das mãos em seus ombros. Pensou em Haya, em tudo o que ela havia passado desde que fora raptada para o mar. Pensou em sua própria família, nas gerações perdidas e em seu irmão, à beira da morte, sem que ela pudesse fazer nada. Em sua mente, reforçou o que dissera antes: "Eu nunca o quis para mim!".

Quando finalmente a magia cessou e Elisa abriu os olhos, viu o Revenge com metade da proa dentro do vórtice negro, prestes a ser engolido para sempre. Uma figura agarrava-se a uma das pontas do mastro principal, encarando a morte iminente. Ela teve a leve impressão de que se tratava de Skyller.

Então uma gigantesca forma esvoaçante avolumou-se diante dela e Elisa não conseguiu ver mais nada. Sua consciência a abandonara por completo.

 Sua consciência a abandonara por completo

Oops! This image does not follow our content guidelines. To continue publishing, please remove it or upload a different image.

Ahoy, marujos!

Que tal o capítulo de hoje? Foi curto, mas bem pesado, não?

Não se esqueçam de votar e comentar o que estão achando da história!

Infelizmente, esse fim de ano está uma loucura para mim e semana que vem não poderei postar. Mas não se preocupem que em janeiro eu volto para trazer para vocês os dois últimos capítulos e o epílogo da história. Confesso que estou bem nervosa, mas espero que gostem do desfecho que preparei. Teremos uma surpresa no fim...

Por último, mas não menos importante, quero desejar a todos um feliz natal e um ano novo repleto de esperança, saúde e prosperidade. E com muitas, muitas histórias novas para ler e para contar! <3<3<3'

Deixo aqui os meus sinceros e profundos agradecimentos por me acompanharem nessa louca aventura. Vocês não têm ideia do quanto são importantes para mim.

Bons ventos e até a próxima ;)

Libertália: Raízes PiratasWhere stories live. Discover now