— Chega disso. Leia e vamos embora. — A educação em pessoa de sobretudo preto me entregou um papel e eu gelei ao reconhecê-lo.

Era um bilhete que meu pai há muitos anos me instruiu como código. Ele dizia que se algo acontecesse, enviaria alguém de sua confiança com aquele bilhete em mãos e eu deveria confiar naquela pessoa. E ali estava a carta, ali estavam as pessoas, mas onde estavam os meus pais?

Um dia antes

— Querida, está preparada para as aulas amanhã? — Minha mãe perguntou quando me viu arrumando a mochila para o primeiro dia na Universidade de Nova York.

— Estou um pouco nervosa. — Falei pegando um caderno que estava jogado em cima da minha cama. Sua capa era rosa e parecia se camuflar com o edredom da mesma cor.

— Eu notei. Já são duas horas da manhã e você ainda está arrumando essa mochila. — Ela sorriu e veio até mim. — O que está acontecendo?

Eu nunca conseguiria esconder nada da minha mãe nem se quisesse. O trabalho dos meus pais era descobrir o que ninguém mais conseguia. Eles trabalhavam para uma organização secreta do governo e isso nunca foi segredo para mim. Meu pai decidiu me contar quando eu tinha quatorze anos e poderia entender melhor o que eles faziam. Ele queria me preparar para tudo, pois aquele tipo de emprego era atribulado e coisas ruins poderiam acontecer a qualquer momento. Não sabia ao certo o que eles faziam ou o que tinham que descobrir, mas entendia quando eles não voltavam para casa certas noites e eu tinha que dormir na casa da minha amiga Olivia. Nunca disse como me sentia a respeito. Acreditava que não seria bom revelar que sempre que eles se afastavam, tinha a sensação de que eles nunca mais voltariam e isso quebrava o meu mundo por instantes até que aquela sensação fosse embora. Então, já que não havia mais nada a fazer, me restava simplesmente esperar que voltassem para mim.

— É o Marcus! — Respondi, me desfazendo desses pensamentos e abandonando minha bolsa no chão.

— O que tem ele? — Meu pai apareceu na porta do quarto, como se estivesse escutando a conversa o tempo todo.

— Pai! — Reclamei alto pela falta de privacidade.

— Paul, nos deixe sozinhas. — Minha mãe rebateu e ele saiu resmungando.

Meu pai nunca gostou do Marcus e quando começamos a namorar, ele o odiou ainda mais. Marcus morava duas ruas da minha casa e era normal nos encontrarmos pelos lugares. Principalmente, na escola. Quando começamos a namorar, ele veio até à minha casa conversar com o meu pai e foi um desastre completo.

Nunca tinha namorado antes e mal sabia como me portar, e além de tudo tinha um pai super protetor. Cinco meses depois, nosso namoro havia acabado. Não tínhamos liberdade nem intimidade o suficiente e quando percebi aquela situação, resolvi terminar. Mesmo gostando dele a ponto de sentir meu coração pular, preferi tomar a iniciativa, caso contrário, ele o faria e eu me sentiria pior. Afinal, quem quer namorar alguém que estaria sempre embaixo dos olhos do pai? O motivo real, eu não sabia. Meu pai sempre me alertava sobre os homens, mas nunca demostrou ser um pai grudento e conservador. Comecei a acreditar que o problema maior não era eu namorar, mas que o escolhido fosse Marcus.

Terminamos no final do último semestre da escola e desde então, eu nunca mais o vi. Agora, porém, começaria a faculdade e Olivia ficou sabendo que a turma de Direito de Marcus ficaria ao lado da nossa, de Computação. Aquilo estava me deixando nervosa, pois eu não sabia o que sentiria ao vê-lo novamente.

— Não ligue para o seu pai. Agora, diga-me. Marcus anda lhe incomodando?

— Não, mãe. De forma alguma. — Pensei em quantas maneiras diferentes meu pai o mataria se pensasse isso. — Eu só estou com medo de encontra-lo e ver que ainda gosto dele, entende?

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