Capítulo 3

6.5K 544 68
                                                  

O horário do jantar chegou e eu não me movi da cama. Meus pensamentos estavam acelerados. A perda dos pais não deveria ser algo inesperado. Os pais, depois os filhos. Essa era a ordem natural da vida. Mas como explicar a dor infindável que nos arrebatava quando isso acontecia? Não havia como descrever.

A manhã veio com um sol fraco entrando pela janela e eu ainda permanecia acordada, paralisada no mesmo lugar, com as mesmas roupas. Não sentia frio, não sentia nada. Era como estar desacordada, porém com os olhos abertos e o pensamento distante.

Mantive-me da mesma forma quando o ponteiro do relógio anunciou o horário do almoço. Não sentia fome, apesar do meu estômago reclamar compulsivamente. Decidi continuar ali, paralisada pelo resto da tarde. Faltando dez minutos para o horário do próximo jantar, alguém bateu na porta. Cogitei a ideia de não abrir e fiquei calada por alguns instantes.

- Digory? É o Kian. Se não abrir, eu vou arrombar essa porta!

Levantei meio tonta e segui o som de sua voz. Antes de chegar até lá, passei frente a um espelho e notei que meu cabelo estava cor de terra. Era o que acontecia com os cabelos ruivos quando ficavam sujos e bagunçados. Meus olhos perderam o tom de mel que, segundo o meu pai, brilhavam como o sol. Agora não passavam de olhos sombrios. As manchas espalhadas em minha pele clara deixavam nítido que eu não havia dormido e que o choro havia me dominado mais do que pude controlar.

- Um minuto. - Murmurei.

Fui até o banheiro e me olhei novamente no espelho. Ainda não tinha tomado banho e estava precisando. Prendi o meu cabelo em um coque alto, o que iria disfarçar a sujeira da viagem. Lavei o rosto, escovei os dentes. Olhei-me novamente para ter certeza de que estava mais aceitável. As olheiras ainda seriam notadas a distância, mas eu não me importava. Fui até à porta e suspirei com a mão na maçaneta antes de abrir, ainda ponderando se era a melhor ideia naquele momento.

- Olá! - Kian entrou no quarto com uma bandeja nas mãos. Percebi a beleza singular que o rodeava. Apesar de não estar nos meus melhores dias, não pude deixar de notar que, ainda que usasse os mesmos trajes pretos de quando o vi pela primeira vez, ele estava lindo.

- O que está fazendo aqui? - Perguntei, sentindo-me envergonhada por estar tão mal arrumada.

- Você não vai se matar de fome. Isso, eu garanto. - Ele se sentou na minha cama e fez um sinal para que eu me sentasse também. Fechei a porta e me sentei ao seu lado.

- Não estou com fome. - Olhei para ele, provavelmente parecendo um cão abandonado.

- Você é uma vampira? Não. Então, trate de comer. - Ele apontou para a bandeja que estava com o jantar. Sorri, mesmo que não quisesse. Kian era um cara legal, totalmente diferente daquele tal de "Primeiro" que, mesmo sendo um idiota grosseiro, chamava a minha atenção. - Não saio daqui antes que tenha comido tudo.

- Está bem! - Peguei a bandeja sob os olhos atentos de Kian. Ele observava cada um dos meus movimentos, como se me estudasse. - Vai mesmo ficar me olhando comer? - Perguntei envergonhada.

- Claro que vou! - Kian disse cruzando os braços. Tentei esboçar um sorriso e me dei conta de que pensei que nunca mais poderia sorrir na vida, mesmo sabendo que não era isso que minha mãe queria. Ela chamaria a minha atenção se me visse desistindo de viver.

- Pronto. - Disse quando terminei.

- Está vendo? Não foi o fim do mundo. - Ele sorriu. Balancei a cabeça concordando. - Como você está? - Seu rosto assumiu uma forma séria.

- Nada bem, mas irei sobreviver.

Ele segurou minha mão, para meu espanto. Seu toque era extremamente firme, mas havia uma leveza incrível em sua pele.

Área Militar -DEGUSTAÇÃO Onde as histórias ganham vida. Descobre agora