CAPÍTULO 3

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    Conforme chegamos perto do estúdio, pudemos ouvir melhor o barulho do programa. A apresentadora está entrevistando um ator cujo filme onde ele é protagonista entrará em cartaz na próxima semana. A produtora de lábio borrado vem até nós e, sorridente, nos posiciona perto da entrada do palco. Logo seremos chamados. Duas assistentes de palco, com roupas ridiculamente indecentes, estão com ela e ficam nos fazendo companhia. Elas os conduzirão até o centro, a produtora bizarra me explica.

    — Meninas — cumprimento.

    Ambas sorriem para mim e se postam atrás do meu corpo, murmurando algo e suspirando em harmonia. Sinto o olhar delas perfurando a minha nuca. Minhas sobrancelhas se unem. Não consigo me acostumar a causar este efeito nas garotas.

    E gays, infelizmente. Meu rostinho de garoto é praticamente um ímã para eles.

   A apresentadora cita o nome da nossa banda antes de chamar o comercial e a plateia faz muito barulho. Provavelmente, é o nosso fã clube. Tento me convencer de que as meninas gritam tanto nos nossos shows porque estão cheias da presença de Deus, mas a quem estou querendo enganar? Também não me culpo. Não alimento nenhum tipo de idolatria. Não tenho culpa sobre as fantasias que as pessoas constroem dentro das suas cabeças.

    Pouso um cotovelo na parede de trás do palco e coloco a mão na boca, esperando. De repente, sinto alguém apertar a minha bunda e me viro num susto, vermelho como um camarão. Olho para as ajudantes de palco, estarrecido, mas observo que uma está fazendo trança na outra. Só então reparo que Murilo encara adiante de forma resoluta, trincando os dentes para não rir. Grrr...

    Moleque idiota! Às vezes, ele parece um garoto de 12 anos.

    Em frenética preparação, volto a olhar para a frente e oro mais uma vez em silêncio. Em seguida, emito uma tosse suave como um sussurro para eliminar o muco de vez da garganta. Mas, devo confessar, a bala de menta fez bem seu trabalho. Não há mais muco a ser retirado.

   Depois do anúncio da nossa entrada, o auditório inteiro entra em erupção. Como sempre, sinto uma onda de adrenalina me invadir. É revigorante. Entramos acenando para a plateia enquanto caminhamos em direção aos instrumentos. Eu curto a atenção carinhosa e os gritos empolgados dos nossos fãs, embora ache o auê desnecessário. Quando pego o meu violão e passo o apoio pelo meu pescoço, olho para o oceano de cabeças e contemplo, maravilhado, minha irmã, Thiago e Angelina sentados na primeira fileira do auditório, ao lado de Michele. Qualquer tentativa de esconder minha felicidade extrema teria sido um fracasso épico.

    Meu primeiro impulso é correr até lá e encher aquela mentirosa de beijos. Angelina está linda. Veste uma calça jeans, regata branca e um casaco em formato de blazer rosa. Seu sorriso me aquece como o verão.

      — Você me paga — sussurro baixinho.

     Ela morde o lábio inferior e faz cara de sapeca. Só não corro para ela porque estou ao vivo e a apresentadora me espera no palco. Cumprimentamos a todos, falamos um pouco sobre o nosso trabalho, respondemos algumas perguntas do público e, enfim, começamos a tocar as nossas músicas recentes. O combinado era eu cantar somente duas canções, mas o público pede muito uma terceira, do nosso CD antigo: a música que fiz para Angelina. Então, com o aval da apresentadora, começo a cantar e caminho lentamente até onde está a minha musa.

     À medida que ando até ela, Angelina se encolhe dentro do casaco, toda acanhada. Continuo a cantar e dou uma risada cruel, pois essa é a minha vingança contra a sua peraltice de hoje. Sei que ela é super tímida. As câmeras se viram para ela e o resto da plateia se acaba em suspiros. Uma luz especial incide bem em cima de nós. Ainda com o rosto escarlate, Angelina se rende e então me acompanha, mirando meus olhos, cantando comigo. Terminamos a nossa apresentação sendo aplaudidos de pé e agradecemos juntos antes de sairmos por trás do cenário.

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