CAPÍTULO 1

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CAPÍTULO 1

Ouço a marcha imperial e meu coração dá um salto no peito. Não, não é o Darth Vader entrando no meu quarto. É o despertador do meu celular. Pego o aparelho para desligar e dou de cara com minha lista de afazeres do dia na tela. É desanimador. Certamente, preciso que Deus detenha o sol por mais algumas horas, como fez com Josué, para que eu durma mais um pouquinho. 

   Chafurdando no sono, cubro a cabeça com o travesseiro, aventando a possibilidade de adormecer por mais uns quinze minutos, mas não tem jeito, sei que preciso me levantar. Eu e minha banda esperamos por muito tempo pelo convite do programa de entrevistas ao qual iremos hoje, um dos mais assistidos da rede televisiva. Aos 22 anos, considero-me um cara afortunado por tudo que já conquistei. Sendo assim, respiro fundo e decido sair da cama, pois aprendi cedo que o segredo do sucesso está no sacrifício e no trabalho duro.

    Antes, porém, olho para a tela do meu iPhone e confiro alguns posts de amigos, familiares e — confesso, — das 104.983 pessoas das quais mal sei o nome ou nem imagino quem sejam, mas que, por curtirem tanto as minhas postagens, parecem-me íntimos. Íntimos desconhecidos. E na rapidez de um clique, descubro que Murilo, baterista da minha banda, que anteontem estava comigo em um show em Campinas, agora está tomando café com Michele, sua namorada, que usa uma roupa no estilo pin up. Figura.

    Exausto, me arrasto para fora da cama e me olho no espelho, meditando se a fama de "galã" gospel que adquiri nos últimos tempos — e que não procurei — não seria totalmente destruída caso alguém visse o meu cabelo neste exato momento. As pontas estão cruzadas em inúmeras direções e o lado direito está visivelmente mais amassado do que o esquerdo, formando uma espécie de rampa. Fora isso, as marcas escuras abaixo dos olhos estão dignas de maquiagem de Halloween. Estou um lixo. Com certeza, se eu colocar uma foto minha agora no Twitter ou no Instagram, ocorrerá uma debandada em massa dos meus seguidores. Bem, o que talvez seja bom, rio sozinho. Assim, só ficarão aqueles que realmente apreciam a minha música.

    Mas não vou mais pensar sobre isso. Preciso agitar. Minha vontade é me enfiar em uma banheira de água quente e ficar lá por uma ou duas décadas, bem quentinho, em pleno silêncio... O que seria inapropriado, penso imediatamente, devido ao desperdício de água, já que eu, em um surto de adesão ecológica, decidi transformar o abastecimento de água da casa dos meus pais proveniente da chuva. Fora o desperdício de gás, de sabão, e, principalmente: o de tempo.

    Resignado, jogo uma toalha sobre o ombro e vou para o banheiro desfrutar de um banho rápido — de chuveiro mesmo — e levo meu celular, que já apitou umas cinco vezes desde que abri os olhos. Enquanto tiro minha calça de moletom velha e puída, decido colocar um post rápido na minha fanpage para os meus seguidores.

    Bom dia, galera. #Godblessyouall 

    Em menos de cinco minutos, 1.503 curtidas pipocam na telinha. Será que esse povo madruga? Sorrio para a tela e entro no chuveiro, me sentindo acompanhado.

    Quando saio, minha mãe já está à minha espera no quarto. 

    — Bom dia, querido. Vai tomar café com a gente?

    Miro o rosto dela com uma expressão de desculpas, descartando a oferta.

   — Acho que não vai dar, mãe. Enrolei muito no banho e preciso descer para o Rio. Tenho uma entrevista daqui a duas horas.

    — Ah, claro! — Ela me dá um sorriso orgulhoso, as lágrimas quase alcançando seus olhos. — Eu e seu pai já avisamos todo mundo na igreja. Nem acredito que vou te ver naquele programa que eu assisto todos os domingos.

    — Eu sei. — Eu ri. 

    — Mas não vai comer nada?

    — Como algo no caminho com o Murilo.

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