CAPÍTULO 2

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CAPÍTULO 2

    O negócio é o seguinte: uma grande crise será deflagrada a qualquer momento. Desde que colocamos nossos clipes no YouTube, nosso trabalho começou a ter repercussão mundial e — pasmem — os fãs de outros países estão pedindo que nós gravemos o nosso CD também em inglês. 

   Até aí maravilha. De fato, já fomos convidados diversas vezes para tocar em festivais internacionais e igrejas em toda parte do mundo. Eu falo inglês fluentemente, e a maior parte dos rapazes da minha banda também. Mas os estrangeiros querem ouvir as nossas músicas em uma língua que todo mundo consiga entender. E essa língua, é claro, não é o português. Pensamos em gravar um CD em espanhol, porém chegamos à conclusão de que o inglês é mais usado como língua universal. Com isso em mente, começamos a gravar esse CD há um mês e Douglas, o nosso empresário, começou a mexer os pauzinhos para a nossa turnê internacional. E, segundo ele, isso significa passar um ano inteiro viajando mundo afora. 

    É aí que começa o nosso problema. Tirando eu e Murilo, o restante dos garotos da banda ainda é solteiro e estão todos empolgadíssimos com essa turnê. Eu e Murilo também estamos, é claro. Trabalhamos muito duro para chegar até aqui e eu sei que Deus tem abençoado o nosso trabalho. Porém, o que faremos com as meninas? Como direi a Angelina, que tem a maior paciência do mundo com as minhas viagens, que terei de me ausentar por cerca de um ano? Claro que devo fazer uma ou duas visitas em casa, mas será que ela aguentará me esperar? 

   Eu estou ficando louco com essa expectativa. Um paradoxo de emoções. Feliz por estar alcançando tudo com que sempre sonhei, mas temeroso quanto à nossa relação. Temeroso não. Com o perdão da palavra, com um medo do cacete. Sinto a insegurança emocional de um menino de dez anos quando tem de contar à mãe que tirou zero na prova de matemática, mas dez na de português. 

    E ainda que eu resolvesse não ir à turnê nenhuma — não que eu queira isso —, como poderei contar para os meus companheiros? Afinal, esse é o sonho deles também. E como líder da banda, sei que eles não podem viajar sem o seu vocalista. Ou seja: estou numa sinuca de bico.

    E se Angelina resolver me deixar? Não posso deixar de pensar nesta hipótese horripilante. Só de pensar em ficar sem ela, eu já me sinto doente.

    No caso do Murilo, é um pouco mais fácil. Se assim decidir, Michele poderá viajar conosco. Não há nada que a prenda aqui no Rio. Já a minha namorada está terminando a faculdade e fazendo o seu primeiro estágio como redatora em uma agência de publicidade. Foi o Rico, um amigo meu — e ex-namorado de Angelina —, quem arrumou essa vaga para ela. Mas não tenho ciúmes. Tudo terminou muito bem resolvido entre eles e hoje o Rico é casado com a Ana, uma missionária amiga nossa, e é visivelmente louco por ela.

    Passo a viagem toda até a capital matutando essa situação. Eu, Murilo e Michele nos alternamos em bocejos por todo o caminho, sonolentos demais para conversar. Quando chegamos ao Rio, nos deparamos com uma baita retenção na Avenida Brasil e acabamos nos atrasando para o encontro com Douglas, por isso resolvo ir direto para Vargem Grande, onde fica o estúdio que produzirá o programa. Nosso empresário nos encontrará lá.

    Uma hora depois, quando finalmente chegamos à rua da rede de tevê, Michele está dormindo no banco de trás. Provavelmente, por ter ficado na internet madrugada adentro pesquisando vários looks de celebridades internacionais para usar em nós. Fico com medo só de pensar. Murilo, que está sentado ao meu lado no banco da frente, cutuca o joelho dela. Michele choraminga, mas nem sequer se mexe. Não parece estar tirando um cochilo, parece dopada.

    — Se a gente deixar ela dormindo aí, poderemos cantar com a roupa que estamos agora. — Ergo uma sobrancelha, rindo com ironia.

    Murilo espia a namorada, bastante tentado.

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