"Querida Lauren,
Todos os meus sentimentos estão comprimidos nesses pequenos pedaços de papel. Alguns rasgados, outros manchados ou borrados pelo tempo. Mas do que me adianta uma caixa cheia de cartas não enviadas? Nenhuma delas poderia te trazer de...
Camila estacionou o pequeno Prius azul na mesma entrada que havia estacionado por tantos anos. O balanço de pneu onde Amelia brincava desde que era apenas um tico de gente ainda estava ali, mesmo que completamente tomado por teias de aranha.
Respirou fundo, abriu a porta do carro e desceu. Caminhou devagar, sentindo o cheiro de grama recém cortada pelo sr. Juaréz à mando da imobiliária que agora administrava tudo que tinha relação com àquela casa. Sua casa.
Parou no meio do jardim, encarando a imensidão da casa. As memórias pulavam em sua mente com força, arrancando-lhe suspiros dolorosos e algumas lágrimas que ainda teimavam em lhe cortar as bochechas.
Caminhou mais um pouco, passou pela grande placa de "Vende-Se" fincada perto da porta e subiu os quatro degraus da entrada. Os mesmos degraus onde Amelia caiu pela primeira vez, ganhando alguns hematomas e um gesso no braço direito. Lembrou da cena, do desespero que sentiu tomar conta de seu coração e da demora até chegarem ao hospital. Do choro agudo. Da calmaria que os olhos de Lauren lhe ofereceram o tempo todo.
Balançou a cabeça. Estar ali ainda mexia demais com seu emocional.
Pegou a chave prata no bolso da calça jeans e o chaveiro com a tampinha de uma lata balançou, fazendo ainda mais barulho. Camila abriu a porta e depois cada uma das janelas do andar debaixo. Sabia que não devia estar ali, mas aquela ainda era sua casa. E de Lauren. Pelo menos até que alguém resolvesse comprá-la.
Foi até a cozinha e, só por hábito, abriu algumas gavetas. Em uma delas achou um pequeno bloco de papel já amarelado. Uma das duas devia ter esquecido ali há muito, muito tempo.
Procurou um pouco mais e, com o pouco de sorte que ainda lhe restava, achou um caneta preta que não falhava. Sentou-se no chão da sala e, encarando o enorme quadro que Lauren lhe comprou no primeiro ano de casamento, apoiou a caneta contra o papel. Suspirou.
"Querida Lauren..."
*
Só pra ajudar na visualização, essa é a Amélia.
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