9.ANTES DE FECHAR OS OLHOS

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Acordei antes do despertador gritar, sentia-me num misto de ansiedade e nervosismo, não me importava se seria julgada, a opinião de ninguém mudaria os meus sentimentos, de qualquer forma eu não podia evitar me sentir daquela forma.

Para minha surpresa a mesa estava posta, havia comida de mais ali.Seria minha mãe tentando levantar a bandeira branca?

–Vou receber uns advogados aqui, se quiser pode tomar café. –Ela surgiu ainda de roupão, mal olhou para mim.

Não respondi nada,estava entre um gole e outro de suco quando meu telefone apitou, na mensagem Ian me avisou que já estava a minha espera.

–Seu pai ligou ontem. –Ela falou usando um tom irônico. –Ele achou que você fosse passar o dia com ele.

Respirei fundo,havia mesmo esquecido de ligar para meu pai, e dado o flagrante que acabava de sofrer, tratei de sair o mai rápido possível dali.

Eu me sentia na ponta dos pés, precisava descansar, ter paz, mas mesmo assim me senti impulsionada a enfrentar a todos que possivelmente estavam esperando por minha queda.

Ian me esperava encostado em seu carro, seus olhos denunciavam seu nervosismo, queria dizer que tudo ficaria bem, mas silenciei , entreguei-me em seu abraço para recarregar minhas forças.

–Sabe que não vai ser nada fácil não é ? –Ele finalmente falou quando estávamos próximos do colégio.

Olhei para ele ,minhas expectativas estavam completamente bagunçadas.

–Acho que eles esperam por um show... –Falei notando mais pessoas na calçada do colégio que o normal. –Daremos à eles.

Ian arqueou as sobrancelhas, a veia de sua testa pulsava notoriamente.

–O que quer dizer? –Ele perguntou depois de estacionar.

–Que não vou me deixar acuar, não estamos fazendo nada errado. –Avisei enquanto destravava meu cinto de segurança.

Ian desceu e abriu a porta para mim, eu não olhei para os lados, agi normalmente , se é que isso era possível quando se tem dezenas de pares de olhos voltados para você.De mãos dadas seguimos colégio a dentro.Estava feito, quem ainda não tinha nos visto como um casal, estava oficialmente avisado.

O tempo estava leve, contrariando toda a situação.Era claro que àquela altura eu já era considerada soropositivo também, as pessoas me olhavam como se buscassem sinais de que eu estava doente, exatamente da mesma forma que olhavam para Ian.

Os cochichos eram tantos, entre uma frase e outra eu conseguia distinguir algumas palavras, todas eram pejorativas, tentei não me afetar.

–Deus sabe como eu... –Ian começou a dizer entre os dentes enquanto nos aproximávamos das salas de aula.

–Nem comece. –Revoltei-me. –Tirei um peso das minhas costas, me sinto leve e aliviada por não ter mais que esconder o meu amor. –Falei em voz alta para quem quisesse ouvir.

Ian ensaiou um sorriso, mas seus olhos azuis estavam tristes. –Eu posso fazer isso. –Continuei chacoalhando suas mãos que estavam entrelaçadas nas minhas. –Espero que você possa também,estou contando com isso.

Ele soltou minhas mãos e segurou-me pelos ombros.

–Você é tão forte. –Ian abraçou-me.

– Só porque eu tenho você, porque você me ama. –Sussurrei. – Dessa vez só Ian precisava saber daquilo.

De soslaio pude ver que algumas pessoas nos olhavam com repulsa, entretanto, aquilo era muito pequeno diante do que tínhamos.

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