Jungkook
O mundo grita o meu nome, e eu quero mais. Mais alto, mais forte... Muito mais!
- JEON! JEON! JEON!
O som atravessa as paredes da arena e faz meu peito vibrar. Abro o sorriso porque sei que vou vencer.
Eu sempre venço.
As luzes me atingem quando atravessamos o corredor, a fumaça se espalha ao meu redor. Da saída do camarim, posso ver a multidão ansiosa pela minha luta. Hooligan - BTS soa pelo amplo espaço, os gritos ensurdecedores aumentam. Treinador Jung sinaliza para que entre e assim eu faço.
Todos estão me olhando, chamando meu nome. E naquela noite, eu gosto disso mais do que deveria. Foda-se. Mulheres se apertam tentando atrair minha atenção para uma noite de sexo, câmeras me acompanham enquanto caminho coberto robe aberto até o octógono a minha frente.
Acompanho a batida viciante da minha música escolhida, sabendo exatamente o que estão pensando. Eu sou o rei, o invencível e essa luta já é minha.
Meu coração bate rápido. Rápido demais, mas isso não me assusta. Pelo contrário, é bom. Meu corpo parece cheio de eletricidade, minha cabeça funciona rápido e já consigo imaginar casa movimento do meu adversário antes mesmo de subir no ringue.
Sinto a vitória antes de lutar por ela. E existe uma certeza dentro de mim que não deixa espaço para nenhuma outra coisa. Ninguém naquela arena é melhor do que eu.
Paro em frente cutman*, minha equipe remove o robe, o deixando fazer o seu trabalho. Um minuto depois, estou liberado. Subi os degraus do octógono, piso com o pé direto no ringue. A multidão aumenta o volume, abro os braços, eles gritam ainda mais. Caralho... Eu poderia me acostumar com isso. Não, eu já me acostumei. Entro no octógono. Meu reino.
Do outro lado, meu adversário me observa. Ele parece sério, eu até diria tenso e preocupado. Inclino a cabeça, sorriso abertamente.
- Você está com medo? - Ele não responde, meu sorriso aumenta. - Deveria estar.
O árbitro nos chama para o centro. Ele fala e eu não escuto. Minha atenção está presa ao homem diante de mim. Meu sangue corre rápido, minha respiração está acelerada, enquanto meu corpo implora por movimento. Eu quero começar agora, porra.
- Prontos? - Olho para ele.
- Eu nasci pronto.
O árbitro se afasta. O sinal finalmente toca e eu avanço.
O primeiro golpe vem na minha direção. Desvio fácil, muito fácil. Ele tenta me acertar outras vez, aproveito a abertura abaixando, meu punho encontra o rosto dele.
A arena explode.
A risada abafada pelo meu protetor soa. Ele tenta me acertar mais uma vez, mas não consegue. Eu o vejo antes que aconteça, sei cada movimento, todas as aberturas e principalmente, cada erro. Tudo está claro e fácil. É como se o mundo tivesse finalmente decidido funcionar na velocidade que minha cabeça exige.
Ele tenta me derrubar. Eu resisto, empurro pra frente o fazendo da um passo pra trás, o golpeio mais uma vez com um de direita, ele recua. Avanço, não penso, não preciso pensar. Meu corpo reage, eu sou o melhor.
O sangue aparece no canto da boca dele. A torcida grita, meu coração dispara e eu sinto aquela coisa novamente. Aquela sensação absurda de poder. Eu poderia enfrentar dez homens naquela noite. Vinte, cinquenta, a arena inteira. Não faria diferença, eu não perderia.
Ele levanta a guarda tarde demais, meu punho acerta seu queixo. O corpo dele perde equilíbrio e cai. O árbitro está em cima me parando. Um, dois, três... Nocaute.
A arena vem abaixo. Eu levanto os braços, sentindo as vibrações, sentindo o meu poder.
- É isso! - Meu grito se mistura ao da multidão.
Bato no peito urrando, rindo alto. Subo na grade, as câmeras em mim, todos os olhares em mim. Meu nome ecoa pela arena, e naquele momento, eu sou invencível.
Não existe passado, futuro além dessa sensação. Eu sou o rei e não existe nada que possa me tirar a majestade. Desço da grade sorrindo, suar escorrendo pelo meu corpo, ainda sentindo o sangue pulsar em minha veia enquanto respiro rápido.
Então percebo que o árbitro não está olhando para mim, ele está olhando para fora do octógono.
Franzo a testa.
Um homem passa correndo. Depois outro, um médico. Meu sorriso desaparece. - O que está acontecendo? - Dou um passo. As pessoas começam a se afastar, meu coração acelera por outro motivo.
Vejo alguém no chão. Meu cérebro demora um segundo para entender, meu corpo reconhece primeiro.
Não.
Dou mais um passo.
- Min-jae? - Ninguém responde, meu estômago afunda. - Min-jae!
Alguém segura meu braço.
- Senhor, precisamos que você fique para trás.
- Me solta.
- Precisamos de espaço para...
- ME SOLTA! - Arranco o braço da mão dele. Caio de joelhos ao lado do meu melhor amigo. - Min-jae.
Nada. Ele está imóvel, sem cor. Seus olhos estão fechados e seu nariz sangra.
- Ei. - Toco seu ombro. - Min-jae, olha para mim.
O médico ajoelhado começa a fazer compressões, alguém me puxa pra trás e só agora percebo minha equipe me olhando. Treinado Jung me olha com pesar e dessa vez o deixo me afastar.
- Faça alguma coisa! - Grito, observando o médico e mais duas pessoas prestarem os primeiros socorros.
Eu fico olhando. Não consigo respirar.
- JK. - Jimin chama ao meu lado, mas ignoro.
- Vamos... - Minha voz sai baixa. - Vamos, cara. Você não pode fazer isso.
Nada.
Olho para minhas mãos, ainda estou usando as luvas. As mesmas mãos que, minutos atrás, estavam erguidas para o céu enquanto milhares de pessoas gritavam meu nome. Agora tremem, minhas mãos tremem e o medo me atinge com forca.
- Por favor... - Não sei para quem estou pedindo. Deus? O médico? Meu amigo? Qualquer pessoa. - Só abre os olhos.
Os médicos continuam, um deles olha para o outro e eu vejo. Antes que alguém diga, eu vejo. Aquele pequeno movimento de cabeça, o silêncio, a expressão... Eu já sei.
- Não. - Minha voz quebra. - Não.
O médico para, o mundo também. Por alguns segundos, ninguém se move. A arena ganha um silêncio assustador. Olho para Min-jae, meu melhor amigo, quase um irmão. O homem que esteve comigo quando ninguém sabia quem eu era, entramos no esporte juntos... E ele está morto.
Eu deveria sentir alguma coisa. Raiva, desespero, dor... Mas tudo o que consigo sentir é um vazio absurdo, um buraco abrindo dentro do meu peito. Olho novamente para minhas mãos, elas ainda estão tremendo e uma pergunta atravessa minha cabeça.
- Como eu não percebi? - Sussurro.
Eu estava aqui. Lutando, vencendo e depois comemorando... Enquanto ele morria e naquele momento, pela primeira vez naquela noite, eu não me sinto poderoso. Não me sinto invencível. Não me sinto o rei. Só consigo olhar para o corpo do meu melhor amigo e pensar que alguma coisa está errada.
Muito errada.
Porque Min-jae não deveria estar morto. E eu ainda não sabia que aquela não seria apenas a noite em que perderia meu melhor amigo.
Seria a noite em que perderia minha carreira. Meu nome, minha liberdade. E talvez... A última parte de mim que ainda sabia quem eu era. Eu ainda não fazia ideia de que, naquela mesma noite, alguém garantiria que o mundo inteiro acreditasse que fui eu quem o matou.
🥊
*Cutman: Profissional responsável por vistoriar o lutador e aplicar vaselina em pontos estratégicos do rosto
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A Obsessão do Lutador
FanfictionJeon Jungkook perdeu tudo na noite em que seu melhor amigo morreu. A carreira no UFC, o futuro e o próprio nome. Acusado de provocar a morte de Min-jae, ele foi expulso do esporte e desapareceu das grandes arenas. Três anos depois, tornou-se o camp...
