Nataly
Acordei sem saber onde estava. Olhei para o lado e vi Diego sentado numa poltrona com as mãos no rosto e uma enfermeira medindo minha pressão.
— O que aconteceu? — Perguntei meio perdida.
— Nataly? — Digo levantou as mãos do rosto surpreso — Está se sentindo bem? Meu Deus, você me deu um baita susto.
— O que aconteceu? — Repeti a pergunta tentando me localizar — Onde eu estou?
— Você desmaiou e não queria acordar de forma alguma, então entrei em desespero e te trouxe para a ala hospitalar. — Ele me olhou no fundo dos olhos — Achei que pudesse ter algo errado com o bebê.
Bebê?
Um turbilhão de coisas invadiu a minha mente, e entre elas estava o motivo pelo qual eu havia desmaiado. Eu estava gravida. Gravida de um filho de Alex no meio de uma guerra, onde eu era o robô sem sentimentos.
Como eu deixei isso acontecer?
Sempre fui tão focada e calculista, há seis meses eu era apenas a agente Nataly Walter, o prodígio do protocolo TEFA e uma das melhores agentes que essa organização já vira. E agora eu era apenas uma garota confusa, apaixonada e grávida.
— Meu deus! — Disse vendo a ficha cair junto com um mar de lágrimas — Eu estou grávida.
— Naty, se acalma! — Diego disse pegando na minha mão e sentando ao meu lado na cama.
— Não faz bem para o seu bebê e nem para você esse estresse todo. — A enfermeira, que eu já havia esquecido que estava aqui, diz — Tenta se acalmar, pelo menos até o resultado dos seus exames estarem prontos e temos certeza de que está tudo bem com você e o bebê. — Sorriu.
— O que ela está fazendo aqui? — Me exaltei.
— Calma Nataly! — Diego disse me fazendo deitar na cama novamente — Eu precisava que você que fosse examinada por um médico de verdade, eu sou apenas um cientista. Não entendo muita coisa de bebes humanos — Ele se levantou — E ela era a única aqui que sabia da gravidez, então não achei que haveria problemas se eu pedisse a ajuda dela.
— Primeira coisa, — Me sentei na cama — Não fale sobre isso em voz alta. Não quero que alguém escute e tire suas conclusões e espalhe por aí. Segunda coisa, — Olhei para a enfermeira — é claro que tem problemas alguém além de você ou eu saber sobre isso. Anthony não pode nem sonhar com uma coisa dessas, senão eu vou ser suspensa e retirada da missão. Então vou deixar bem claro para vocês dois — Me levantei com um pouco de dificuldade — ninguém deve saber sobre essa gravidez, sob nenhuma circunstância. — Olhei para os dois com os olhos marejados — Até porque ela nem devia existir para começo.
— Naty? — Diego disse entrando no meu quarto atrás de mim. — Não pode fugir assim. Não se trata mais só de você e da sua dor estupida. Tem uma criança em jogo. É uma vida Nataly — Ele estava irritado comigo desde que havíamos saído da ala hospitalar.
Eu estava assustada com tudo que havia acontecido e não queria realmente que isso estivesse acontecendo comigo. E quando citei ao acaso aborto na conversa, Diego surtou. Ele veio com todo um papo de moral e não parava de falar desde então.
— Eu sei que é uma vida. Eu realmente tô pensando nela.
— Está pensando nela?! — Ele disse abismado — Você quer matá-la. Acha que isso é algo que se faz quando está se pensando em uma criança?
— Eu não quero que ela venha ao mundo para morrer! — Gritei com o choro engasgado. Malditos hormônios — Estamos no meio de uma guerra. E estamos perdendo. Não quero que essa criança sofra ou pior, — Me sentei tentando acalmar minha voz tremula — se torne uma pessoa como eu. — Diminui meu tom para quase um sussurro, me entregando de vez ao choro.
— Naty? — Vejo uma lágrima escorrer pelo rosto de Diego enquanto ele caminha até mim. — Você é incrível, não fale como se você fosse um monstro.
— Eu mato pessoas. — Olhei para ele — Não quero que ela tenha o mesmo futuro que o meu. Ela merece ter coisas melhores. — Me levantei — Eu vi como é do outro lado. Eu quero que ela sinta isso. Eu quero que essa criança tenha o direito de ir a faculdade e trabalhar para comprar o próprio carro. Quero que ela seja normal.
— E ela pode. — Diego sorriu confiante.
— Se ela ficar aqui, nunca terá essa opção. E se ela não ficar aqui Mauricio vai encontrá-la e matá-la. Isso não é vida. — disse me jogando no chão.
— Por isso vamos encontrar esse desgraçado e matá-lo e logo depois você vai simplesmente ir embora e viver a sua vida.
— Está falando que eu devia me aposentar? — Olhei estranho para ele.
— Exato! — Ele sorriu — Você viu como é do outro lado e gostou. Você tem a chance de viver como uma pessoa normal e ter uma família.
— Acha que isso aqui é como brincar de casinha? — Ele estava louco.
— Não! — Me olhou — Isso é bem melhor do que brincar de casinha. Vai ser difícil, mas nunca vi você conquistar nada que fosse fácil.
— Isso é uma idealização impossível.
— Se você estiver sozinha, talvez. — Sorriu sugestivo.
— O que você quer dizer com isso?
— Para você conseguir tudo isso, primeiro tem que contar a verdade para Alex. — Respirou fundo — Tem que dizer a ele que está grávida.
Alex
Acordei no dia seguinte meio confuso e demorei alguns segundos para associar tudo que estava acontecendo e onde eu estava agora. Toda dor que eu senti até pegar no sono na noite anterior veio à tona e eu me senti totalmente desolado.
Olho ao redor procurando algo para que eu me distraísse. O quarto não tinha nada de interessante, era tão apagado como todas as salas de interrogatório deste lugar. Me levantei indo até o banheiro para tomar um banho. Por incrível que pareça tinha uma mala de roupas e objetos pessoais meus próxima a um guarda-roupa. Assim que terminei de me arrumar ouço um batida na porta, e esperando que fosse minha mãe eu abro sem nem ao menos perguntar quem é.
— Bom dia! — Vejo ela sorrir.
— Oi Elisabeth! — Sorriu de volta. Os olhos dela eram lindos e o sorriso incrível, mas não tinham a mesma magia e inocência do sorriso de Nataly.
— Bom, eu vim te chamar para tomar café comigo, já que a nossa cantina costuma ser um pouco assustadora com tantos agentes querendo saber quem você é.
— Eu não sei. — Mordi o lábio meio indeciso — Eu devia ficar aqui até a minha mãe voltar, então...
— Mas sua mãe saiu para resolver algumas coisas, então eu pensei que você não quisesse morrer de fome aqui, sozinho... — Ela parecia ser uma boa pessoa e era tão prestativa que eu acabei aceitando.
Elizabeth era uma pessoa muito gentil. Ela me contou coisas sobre a agência e não parecia mentir em momento algum, além de me mostrar o que realmente Nataly era. Tinha pena dela por ter que trabalhar para uma pessoa tão abusiva como Nataly. Ainda doía saber quem realmente era a garota por quem me apaixonei, mas era bom começar a me desiludir logo, pois assim que saísse daqui e meu pai fosse pego tudo iria voltar ao normal. Nataly não existirá mais na minha vida e eu voltarei a ser o garoto recluso, tímido e com problemas normais.
— Está tudo bem Alex? — Elisabeth perguntou-me. Parando de comer — Está tão distante. — Sorriu.
— Desculpa! — Pedi — Eu só estava pensando. — Sorri colocando mais uma torrada na boca para não ter que falar mais.
— Eu sei que é muito difícil para você toda essa história, mas não precisa guardar tudo para você, às vezes, é bom descarregar a dor em alguma coisa.
— Sabe, — Respirei fundo — às vezes acho que vou explodir a qualquer momento, com qualquer pessoa.
— Eu conheço um lugar ótimo para extravasar. — Ela disse animada — E ele está vazio depois do almoço. — Sorriu. Ela adorava sorrir.
— Bom, não me parece uma má ideia. — Dei meu primeiro sorriso verdadeiro do dia. — E eu posso saber que lugar é esse?
— Não! — Ela disse se levantando — Vai ter que esperar para descobrir, mas eu peço que use uma roupa confortável e um tênis.
— Beleza! — Sorri seguindo-a para fora da cantina.
— Sabe o que podemos fazer agora? — Ela disse muito empolgada.
— Não! — Ri de seus saltos.
— Sala de jogos.
— Vocês têm uma sala de jogos aqui?
— Acha que passamos nosso tempo livre como?
— Não sei, achei que vocês ... — Fui interrompido por um esbarrão — Desculpa! — Levantei o olhar para ver em quem eu tinha esbarrado. Ela estava de óculos escuro, uniforme e uma arma na cintura, mas parecia muito frágil por detrás de toda aquela amardura.
— Alex? — Nataly sussurrou.
— O que você quer? — Disse grosso vendo Elisabeth recuar.
— Posso falar com você? — Olhou para Elisabeth confusa — A sós.
— Não! — Por mais que meu coração dissesse sim, eu não podia deixar ele me controlar. Ela era uma pessoa ruim, em todos os sentidos.
— Alex eu não estou brincando. — Ela tirou os óculos escuros mostrando o desespero no olhar — Eu realmente preciso de falar uma coisa.
— Eu não estou nem aí Nataly. Ou seja lá qual for teu nome. — Eu disse alto suficiente para que todos no corredor parassem o que estava fazendo e observassem-nos — O que você tem para dizer, guarde para você mesma. Eu nunca mais quero ouvir sua voz de novo. Eu tenho nojo de você, você é um monstro sem coração. O que você fez e o que você faz é inadmissível. Não chega mais perto de mim. — Explodi vendo uma multidão parada nos encarando.
— Alex... — Ela disse e pude ver seus olhos marejados — Não fala isso. Eu preciso te dizer que...
— Me dizer o que? — Gritei — Mais mentiras? Porque essa é a única coisa que você sabe dizer. Você foi treinada para isso, não foi? — Sorri sarcasticamente diminuindo o volume — Eu cansei de te ouvir, eu cansei de acreditar em você e, principalmente, eu cansei de te amar. Pra mim já deu. — Disse puxando Elisabeth corredor a dentro sem olhar para trás.
A minha vontade era de parar e chorar, mas eu sabia que se eu fizesse isso eu iria voltar e juntar os cacos de Nataly que deixei espalhado pelo corredor.
Nataly
Assisti o ir embora de mãos dadas com a minha secretária. Eu queria chorar, eu queria gritar e, principalmente, eu queria bater em cada um que agora me encarava sem entender nada. Eu era uma Agente respeitada, mas no momento eu havia sido humilhada por um civil comum, e não havia feito nada. Eu não tinha forças para fazer nada. Estava totalmente acabada. Havia chorado a noite inteira e agora estava totalmente em pedaços. Eu só queria que ele me ouvisse.
Ouvir tudo aquilo de Alex me destruiu por completo. Eu estava grávida e o pai da criança agora me odiava. Eu me sentia desnorteada naquele corredor. Até um cheiro de comida invadir o lugar e me deixar muito enjoada.
— A senhora está bem? — Ouço alguém falar enquanto se aproxima devagar.
— Sim! — Disse e sai correndo para o banheiro mais próximo.
— Nataly? — Diego invadiu minha sala desesperado.
— O que? — Levantei minha cabeça mostrando um rosto totalmente inchado e totalmente molhado pelas minhas lágrimas.
— Eu soube. — Ele se aproximou — Eu sinto muito! — Sussurrou — Eu não sabia que Alex era capaz de uma coisa dessas.
— Muito menos eu. — Chorei.
— Vem cá! — Ele disse me levantando e me abraçando. — O que você vai fazer pequena?
— Eu não sei. — Me desvencilhei de seu abraço indo em direção ao sofá.
— Você tem que contar para ele — Disse me seguindo — Mesmo depois de tudo isso, ele ainda tem o direito de saber o que está acontecendo.
— Não! — Gritei — Ele não vai saber. — Dizer isso em voz alta doía mais do que eu poderia imaginar — Ele não quer me ver nem pintada de ouro, e eu vou respeitar isso.
— E o que pretende fazer? — Ele estava preocupado.
— Seguir seu conselho. — Tentei acalmar minha voz — Assim que encontrarmos Mauricio e prendermos ele, eu vou pedir demissão e vou embora... — Respirei segurando o choro que estava entalado na minha garganta — para sempre. Vou seguir minha vida com essa criança e sem o Alex. — Não aguentei e comecei a chorar novamente deitada em seu colo.