Tempo de Narcisos

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in time of daffodils (who know

the goal of living is to grow)

forgetting why, remember how

e.e. cummings

Lumiar é uma daquelas cidades de verde, paz e cachoeiras, cheias no verão, frequentadas nos finais de semana e quase desertas em dias úteis. Quem mora lá mesmo, todos os dias, ou mora porque nasceu lá ou porque decidiu romper com uma existência anterior. Devido a um desgosto com a correria, para fugir de alguma dor ou, em grande parte dos casos, um tanto dos dois. Embora sua gente seja muito aberta (daquele gênero que, quando vizinho de assento numa viagem de ônibus, você descobre seus dramas, os de cada um dos seus três filhos, do enteado, do cachorro, do tio e dos cunhados), as dores passadas mesmo, ou seja, aquelas que impulsionaram os novos migrantes até ali, dessas não se fala.

Vide o exemplo do Scania, que abriu a pousada Refúgio do Céu. Um caso extremo: não perguntam sequer o nome verdadeiro dele. Uma vez o Miranda, advogado e corretor, contou pro pessoal num churrasco que havia ajudado com os papéis da pousada e que o nome dele era João Miguel. Pouco importava. A informação só favoreceu o desinteresse em perguntar mais. Para Lumiar, a Lumiar que sobra quando todo mundo vai embora, ele era só o Scania.

***

Quando a jornalista se mudou para a casa bem na frente da Refúgio do Céu, um pouco mais abaixo, na ladeira que vinha desde a rua da ponte, é que o Isaías se atreveu a perguntar um pouco mais as intimidades do Scania.

— Essa aí termina um casamento, hein.

— Tá com o Jair e o pessoal dele fazendo obra lá. Pararam as minhas. Mas eu deixei.

— Você já foi casado?

— Não.

— E não pensa?

— Para que? Arrumar problema a essa altura da minha vida, já com um monte de cabelo branco e barrigão de chope? Deixa para os garotos.

— Para não ficar sozinho, entediado. — Isaías ria igual desenho animado. — Até brigar ajuda para ter alguma coisa para fazer quando chega em casa, sabia?

— Olha só para ela. — Desde a pousada, de cima, viam a jornalista de fones de ouvido, teclando nervosamente num laptop. Sentava-se numa cadeira de plástico, com uma long neck ao lado, no gramado, enquanto a obra acontecia na casa pelo lado de dentro. — O homem que casar com uma dessas vai é se sentir mais sozinho.

— O nome dela é Carolina.

— Tanto faz o nome dela — disse o Scania. E entrou na pousada para responder e-mails.

***

Algumas noites depois, Carolina bateu na porta da pousada.

— Boa noite. Será que você me venderia alguma comida aqui, mesmo não sendo hóspede? Eu comecei a procurar lá em baixo, mas...

— A essa hora não ia achar nada aberto, nem na praça.

Fez com que ela se sentasse numa das poucas mesas do comedor, apenas uma das lâmpadas ligadas e o vento frio da serra se esgueirando pela fresta da porta. Seu cabelo era curto, mas, como estava semicoberta por um xale, Scania não chegou a confirmar se a tatuagem no ombro dela era de fada, anjo ou borboleta. Preparou ele mesmo uma truta com nozes e arroz.

— Quanto lhe devo?

— Não se preocupe.

— Ao menos o vinho!

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