Féri Têial

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Charnecando por entre não tão verdes ramos de algum lugar impertinente do pantanal mato-grossense, um cão fedido deslocava seus sentidos para um mais saboroso fedor, encarnado na bosta de um cavalo, idealizado como gosta, por mesclá-lo a um delicioso antigo bolor. Corria de tal forma desajeitado que um biólogo mais atrapalhado, bêbado ou apaixonado, a trabalho de nova corrente, lhe atribuiria uma única fileira de patas, não correlatas, mas independentes. Era desraçado o animal, de porte anormal, daqueles que por mais que boa vontade tenham e que venham a tentar, não se consegue de verdade humanizar com aquele antropomorfismo tão natural do cismo amoral que têm as senhoras sem amantes por seus mudos poodles saltitantes.

Não menos truculento, o seguia um tipo corpulento, de roupas a quaisquer narizes encardidas, amarrotadas, cheio de cicatrizes e feridas infeccionadas, que agarrava-se a uma espingarda de caça, em guarda para caçar pássaro mais graúdo ou menos sortudo que vagando sob o cálido sol deixasse seu sábado menos só. Bicou o cachorro com sua bacteriosa bota, dando-lhe aquele esporro para que abandonasse a maciota, esbaforido, pois naquele mangue sangue avícola já se havia escorrido.

Tão logo o bicho parou ao primeiro penado cadáver, disparou a arma sem pestanejar ao ver outra notável criatura velejar a considerável altura. Era um pássaro esquisito, de longas asas turvas como o mar infinito, ondas do ocaso perdidas, ruflando em curvas no celeste azul claro do dia. Desceu tão leve às matas mais adiante que parecia balonete não flamejante de uma dessas festas juninas de agosto, suave queda bailarina de um agonizar que dava gosto.

Abandonou seu cão naquele já obsoleto chão, ignorando sua primeira vítima com a típica expectativa íntima de que a entidade posterior preencheria todo o vazio de seu brio sem calor. Qual não foi sua surpresa ao ver que sua presa era uma delicada loira num anil vestido, que só uma tresloucada Moira senil poderia ter tecido. Aparentava juventude invejável, corpo esculpido de saúde, tão amável seu rosto que de cupido não precisava para inflamar a alma de quem com ela se deparava. Ensejo ao desejo o azulíssimo cetim que aleava de suas costelas e mantinha cobertos os mistérios da donzela.

Era uma fada em azul, ou uma Deusa do sul, não importava: na cabeça depravada do caçador só vagavam sentimentos semelhantes ao amor. Tal oportunidade era o máximo que teria em toda sua vida – tomou a beldade no braço e seguiu para casa a toda a brida.

 Tal oportunidade era o máximo que teria em toda sua vida – tomou a beldade no braço e seguiu para casa a toda a brida

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Não cansou de admirar seu achado enquanto lhe curava os machucados e o canino bradava irado de anseio lá fora, em vigia a seu dono, que acariciava fascinado os seios da esguia senhora em sono. Quando suspendeu as pálpebras a moça, a ela deu as sobras do almoço. Seu olhar ainda mais ciano era aconchegante como pano elegante no inverno e seu sorriso celestial, tão natural e terno, retribuía em carinho cada gesto manifesto em seu caminho.

Não sabia o que era afeto, mas levou-se pelo instinto e beijou-a, sempre quieto, suave, mas faminto. Quão contentes contornos! Tez de pura mocidade, comovente sabor nos seus lábios - já era vez de algum Deus sábio oferecer estipêndio generoso, num incêndio de gozo, para tanta grossura e fealdade!

Liquefeito por secreções odorosas seu leito de sessões amorosas, teve que ir ao mercado, pois o alimento à mesa já lhe era acabado, e caminhar pela cidade com o orgulho da beleza que possuía em casa lhe entulharia da mais louvada e rasa felicidade.

Mas que malfadado destino, um diabo de primo veio a surgir diante de tão promitente porvir para dividir aguardente e o jantar invadir! Veio meio desgosto meio gosto, como a bebida mal bebida – não queria que ele gostasse, mas queria que invejasse. E como falava o infeliz, como toda gente insuportável de fato, tão diferente da reles perdiz que se cala agradável sem peles num prato.

Enquanto entravam em seu lar uma surpresa à parede estupefazia: podia aquela princesa não falar, mas tanto pintava, e com maestria! Sabe-se lá de que violados penugentos desentranhou os penachos pincéis ou em que tachos cozinhou os intrincados unguentos de matizes fiéis. Estendiam-se adornos inteiros para os quais Dali tiraria o chapéu, e sabia que os retornos financeiros dali equivaleriam aos de um bordel.

Mas o conviva, embasbacado, ficou altivo e também empacado, ora rente a laranjas floridas do painel, ora frente àquela anja preferida do papai do céu, que em cumprimento lhe sorriu com atenção, sorvendo com graça a gentil aprovação. Desembestou-se, ferrenho, em ladainhas açucaradas, elogiou o desenho, as linhas, e até as partes intocadas. Com palavras a fada não respondia, mas tremulava as asas, e sorria.

"Rameira ingrata!" - em silêncio decretou o néscio quem lhe atirou primeiro, na mata. Assim como um cume, numa tarde, cegou Moisés, o ciúme forçou-o uma verdade, não dez. Absorto, elaborou conciso: a um morto há choro, nunca riso.

À noite na rua para trazer agrados e mimos para sua nova admirada, um açoite na nuca indicou ao indesejado primo uma sova em emboscada. Desorientado, soltou um estragante cruzado de direita para o lado direito, mas no quadrante errado. O assassino o espancou na cabeça, capricho que abranda a gritalhada que enjoa, como na sua rotina, com destreza, a bicho que anda, que nada ou que voa. Seu cão correu de ponto a outro, bradando atacado, feliz, pois no chão morreu de pronto uma outra grande deformada perdiz.

Atirou a um valão a carcaça, o pau e a camisa quente e suja. Voltou então para casa com total precisa certeza que a lindeza era só, finalmente, sua.

Já em seu forte de sarrafos, tomou-se de silente desespero e aflição, suou de quizila e de ira - má era sua sorte sempre na empáfia - revirou tudo à frente mais o que tinha de cozinha, de banheiro e de colchão: sua pupila sumira. Afora atroou insano a porta da sala de seu recanto para agora, conjeturou, se não morta, caçá-la noutro canto.

A retina incinerada em brasa pela animosidade posta à imagem da fujona, bufando, com espanto, avistou-a sabe onde? Cretina! Em cima da casa, levitada de costas sobre a laje, bufona, cantando, enquanto pousou um sabiá em sua fronte.

Com brados roucos trouxe-a abaixo e pelos braços, mouco a seus rogos, sossegou-lhe o facho. A alada senhorita não entendia porque era levada a grita, e se carpia. Seguiu à cama, não lhe permitiu mais um piu sequer; despiu a dama, que não consentiu como mulher, e a invadiu. À menina tudo doía; agitava as asas, em agonia. A seu enticante feitor era claro, tanto como de dia: sua amante cantora lhe era cara, porquanto lhe pertencia. Para que nunca mais fugisse e também nunca mais se cobrisse, decidiu com simplicidade exemplar destituir-lhe a capacidade azular. Com as nuas mãos arrancou o par imaginal de asas constrito em riste a suas costelas e em todas as luas em vão se escutou um mar abismal de desgraças através dos gritos da triste donzela.

O vermelho cobriu os cenhos, os desenhos, o espelho, o anil.

Restou um casebre manchado de sangue, um cachorro excitado e com fome, uma moça assustada e insone e um vitorioso calado homem.

Pode até desacreditar o tanto erudito leitor que nossa história repleta de inglória terminará como um conto bonito de amor. Mas por mais deprimentes que sejam estas últimas toscas notas distantes do aludido assunto, o fato é que se amaram loucamente algumas moscas em volta daquele já esquecido defunto, que viveram felizes e pervertidas até o fim de suas curtas e miseráveis vidas.

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