Heráclito e o Direito Penal

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 Zygmunt entrou no restaurante com o firme propósito de resgatar a sensação de um sabor de sua infância: filé de frango à parmegiana, arroz e batatas fritas. O garçom que tomou seu pedido não pareceu surpreso, e indagou apenas se ele beberia alguma coisa. Zygmunt, após enorme pausa, durante a qual fixou o olhar num canto que lhe desfavorecia o raciocínio, respondeu apenas "uma coca".

Pedir um filé de frango à parmegiana com fritas e arroz para o almoço, acompanhado de uma coca cola, não seria mesmo de se estranhar para a maioria das pessoas. Mas Zygmunt estava indócil. Durante 25 anos ele foi o principal pensador de um movimento que buscou estabelecer um meio termo racional entre a exploração animal irrestrita e o veganismo, através da mensuração científica do grau de dor sofrida por cada animal de acordo com o que este proveria de alimento. O movimento concluíra que tanto a carne quanto qualquer alimento ou produto derivado de mamíferos gerava dor proibitiva ao consumo, excetuando-se somente pequenas quantidades de leite em criações familiares, ou lã, quando possibilitada a reposição. Com relação às aves, concluíram pela restrição apenas de sua carne, sendo tolerável a exploração dos ovos, embasados num complicado estudo sobre o reduzido sofrimento percebido pelas aves domésticas em razão de seu confinamento. Peixes e demais animais com menor cérebro podiam ser tanto consumidos quanto explorados, pois seu grau de dor seria inexpressivo.

A coca cola chegou cedo demais, e a comida, nada. Zygmunt batucou os dedos sobre a mesa. A acidez do refrigerante lhe secava a garganta e em nada contribuía contra sua fome. Ou sua apreensão. Duas moças conversavam sem parar numa mesa a seu lado e ele se lembrou de uma cena do filme Waking Life. Na cena, uma mulher falava a sua amiga sobre como precisamos construir uma história para nos conectar a uma foto estática de nosso passado e nos identificar com ela: "esse sou eu, é que agora tenho mais rugas, menos cabelo e dei uma engordada". Sem o suporte da literatura cotidiana, dessa ficção demasiado realista, não poderíamos dizer, de fato, que somos mesmo aquela pessoa da foto.

Seu olhar distraiu-se das duas moças e apenas então notou que, mais à frente, um homem soturno e carrancudo o encarava continuamente. Tinha à frente um copo de chope pela metade, que aparentava estar há tempos intocado. Zygmunt olhou na direção da cozinha, tanto para investigar se seu prato já estava a caminho quanto para ocupar seu tempo no lugar de retribuir o olhar ao desconhecido desafeto.

Nada. O garçom que lhe atendia estava a vários metros, assistindo despreocupado à desagradável televisão, este aparelho que infesta os restaurantes tradicionais do Rio de Janeiro, por ainda não terem percebido que o que já foi um atrativo de vanguarda é hoje, na era da internet, um transmissor anacrônico e repulsivo de mau entretenimento. Voltou o olhar ao homem, que, para sua surpresa, o continuava encarando.

Não precisou demorar muito em elucubrações sobre quem seria e que mal lhe teria cometido. O homem se levantou, caminhou decidida e calmamente até a mesa em que Zygmunt, até então, aguardava apenas o frango, puxou uma cadeira e se sentou.

– Faz tempo que eu queria encontrar você. Você tem muita coragem de voltar para cá.

– Desculpe, eu não me lembro de você. Eu nasci aqui, mas faz tempo que - -

– Eu sei. Você expôs a fazenda do meu pai para todos os jornais. Nós tivemos que fechar tudo. Nossa fazenda era igual a qualquer outra, mas você fez parecer que nós éramos uns monstros. Meu pai não teve ânimo para fazer mais nada. Morreu um ano depois. Minha mãe teve que cuidar de nós todos sozinha.

Zygmunt ficou pálido. Sob a pressão de uma ameaça provável, agitou o mais rápido que pôde lembranças distantes de sua terra natal, ponderações sobre sua juventude e trajetória como pensador. Militâncias estudantis, ações revolucionárias. Estava apaixonado. Queria ter tido a chance de beijá-la... Tinha raiva de seus pais. Queria mudar o mundo. Fazê-lo melhor – e ser reconhecido por isso. Direcionou àquela fazenda toda sua frustração sobre a imobilidade das tradições sociais. Havia pedido uma reconsideração com relação ao abatedouro da fazenda, que lhe foi negada. Achava que podia mudar o mundo, mas foi humilhado. Paixão egoísta, desejo altruísta, bondade e maldade foram misturados em sua investigação e ataque jornalístico à fazenda.

Mas antes que pudesse conectar todos os pontos e concluir o raciocínio que lhe permitisse uma réplica, chegou o filé de frango à parmegiana, com arroz e fritas. O cheiro o despertou, e sua defesa se tornou bem mais simples:

– Não fui eu.

O homem abanou a cabeça e apertou os olhos pela metade, com ares de decepção e incredulidade. Seu tom de voz aumentou.

– Essa é a sua resposta? Não vai ter nem ao menos a hombridade de reconhecer a sacanagem que você fez?

– Não fui eu – retrucou Zygmunt, confiante.

O homem se levantou. Olhou-o fixamente ainda por alguns segundos, como se lhe concedesse mais uma chance de alterar seu destino. Dada a inércia de seu desafeto, cerrou o punho da mão direita com força e desferiu-lhe um soco ágil, preciso e potente, na altura do nariz, e que chegou a derrubá-lo da cadeira.

Gritos se ouviram por toda a parte. Os fregueses mais próximos levantaram de suas mesas, afastando-se, e um garçom e um segurança seguiram até o local. O homem caminhou furioso para fora do restaurante.

Ao ouvir "a gente vai pegar ele", Zygmunt se levantou de sobressalto, apoiando-se na cadeira, uma das mãos no nariz para estancar o sangue, e pediu para que o deixassem em paz, que era coisa entre eles. A confusão se desfez rapidamente, sob olhares repreensivos da equipe do restaurante, e ele logo recebeu gelo para auxiliar a recuperação.

Não desistiu da comida. Comeu devagar.

Prato pela metade, tirou uma foto com o celular e publicou em seu facebook: "sabor da minha infância". Quanto custariam protetores de nariz e de dentes, desses que se usam em lutas? Aquele dia ainda teria que comprar papel higiênico e garrafas de água, que já estavam acabando, além de enviar um e-mail rejeitando gentilmente o convite para o congresso do ano que vem.  

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