Hotel X, 3:15 a.m
Tranquei meus olhos pela vigésima vez aquela noite. Meu dormitório tinham ótimos lençóis, mas do mesmo jeito me sentia desconfortável.
"Essa será a última vez que ele vai encostar em você."
"Não bata nele deste modo, Robert, você vai o matar!"
Meus gritos de socorro ecoando por minha cabeça me despertaram.
Eu não conseguia dormir por diversos motivos, e um deles eram pelas lesões que meu pai deixara marcadas em minha pele.
Levantei, de modo que não ficasse tão tonta pelo impulso. Andei até as cômodas, procurando qualquer analgésico que me fizesse relaxar. Olhei em volta do quarto que estava hospedada em um hotel e tive vontade de chorar.
A minha vida tá muito longe de ser uma droga, ela é, literalmente, fodida.
Enquanto soluçava e chorava incansavelmente, peguei três comprimidos da caixa, tomando-os com as mãos trêmulas. E depois de alguns minutos, não vi mais nada que não fosse um breu.
"Shell... Shell, querida, acorde."
Abri meus olhos vagarosamente, tentando desvencilhar os raios solares que adentravam as janelas, colocando as palmas de minhas mãos na frente.
Robert estava de pé, e suas malas estavam prontas. As minhas também.
Olhei para o lado oposto ao dele, respirando fundo. Eu teria que deixar meu pai mais uma vez.
O que mais me dói é que eu deveria estar feliz com isso, não o contrário. Ele me agride desde a morte de minha mãe, a cinco anos atras.
Algumas cicatrizes já contavam uma história e eu deveria me anestesiar dele indo para longe, mas tudo o que conseguia era um coração apertado de uma filha que apesar de todos os pesares, ainda se importava.
-O que houve com você? O chão não me parece uma boa cama.-Robert riu pelo nariz, me arrancando um grunhido assim que tentei me levantar.
-Estou muito atrasada?-Mudei o assunto, fazendo uma careta enquanto era despertada pelos riscos de luz natural que saiam pela janela.
-Se não demorar a se arrumar não vai ficar.-Ele sorriu, enquanto acenava para uma moça com roupas brancas e sorriso da mesma cor. Franzi as sobrancelhas.-Temos um jatinho particular nos esperando em meia hora, querida. Não se atrase.-Ele deu uma piscadela, saindo de meu campo de visão.
Bufei tão alto que achei que ele iria voltar para saber o que estava acontecendo. Estava com um certo receio de ter que voltar para minha cidade natal, porque costumei a deixar todas as coisas para trás assim que saí de lá e vim para Washington. Atlanta não me parece uma casa de boas vindas, que me receberia de braços abertos novamente.
[...]
Emanei o aroma assim que senti o vento gelado atingir minha pele branca, fazendo meus fios do braço arrepiarem. Olhei em volta da vizinhança, as coisas pareciam ter mudado na mesma frequência de que eu me lembro que era exatamente assim quando deixei esse lugar; crianças animadas correndo por todo gramado, luzes fortes que ofuscavam o céu, grandes mansões localizada na parte central de Atlanta. Casas bem mobiliadas, carros de luxo e grandes comércios pela frente.
-Sua tia mal pode esperar para te ver.-Robert saiu do automóvel, ajudando os seguranças a retirarem as malas do porta-malas do carro preto, blindado.
Espera. Seguranças?
Minha garganta estava coçando para perguntar o que os grandes armários humanos faziam por volta do carro, espalhados pelo jardim como se aquela fosse a Casa Branca, mas engoli toda minha curiosidade.
Não precisei estar muito perto para escutar as vozes altas se manifestarem, uma barulheira familiar e que por muito tempo não presenciava. A casa estava cheia, notei assim que pisei no carpete do hall de entrada.
-Shelby!-Pattie solta um fino grito agudo, que me dá uma leve pontada em minha cabeça.-Estávamos esperando a convidada especial, pela demora achei que nos deixaria na mão!-Ela distribui beijos frenéticos por toda área de meu rosto, tirando o espaço suficiente para que eu respire. Solto um riso alto, e percebo que todos os olhares daquela mesa estão voltados para nós. Meu rosto parece queimar de imediato, e não consigo esconder o nervosismo assim que vejo Brandon encostado na coluna que dá direto para a cozinha, esbanjando sua fileira de dentes brancos perfeitos. Seu corte de cabelo está mudado, seu corpo agora possui mais massa muscular, e ele não tem mais 16 anos, como da última vez o vi. Aceno com a cabeça, e ele retribui com um sorriso de lado. Não demoro para notar Sol encostada na beirada da grande mesa da sala onde estamos, desengonçada como sempre, com suas mãos pequenas e marcas de rugas marcadas pela idade. Meu sorriso desloca pela linha da boca até a orelha. Vou cumprimenta-lá com toda minha alegria, sentindo-me finalmente em casa depois de encontrar tantos sorrisos que não sabia que tinha sentido falta.
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Angels of money
RomanceNinguém escolhe se apaixonar. Acontece. Pode ser quando você menos espera, quando você não está preparado ou simplesmente no melhor momento da sua vida. E de uma coisa todo mundo sabe, ninguém ama sozinho. Te esperar e me envolver foi um erro, mas...
