Capítulo único

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Berenice observava o rosto adormecido, os movimentos de subida e descida do peito e ouvia o leve ressonar de um sono pesado. Seus dedos a centímetros de tocar os cabelos negros levemente cacheados. Sentada sobre as pernas em frente ao sofá de couro, um xale de lã sobre os ombros e os olhos atentos a cada detalhe. Ela tinha perdido a noção do tempo e também das razões que a levaram até ali.

Sua rotina era sempre a mesma. Deitada de costas em sua cama, ela observava o caminho que a luz fraca fazia no teto a cada vez que um carro passava fazendo um barulho surdo no asfalto. Berenice se acostumara com a escuridão. Os dedos entrelaçados repousavam sobre sua barriga lisa e sua respiração era lenta e suave. Era assim que Berenice passava suas noites.

Ouviu o som de chaves na porta da entrada que chamou sua atenção, virou o rosto para o rádio relógio estrategicamente colocado sobre seu criado mudo e os números em vermelho gritaram em seus olhos. Era tarde. Tarde demais.

Passos, movimento, o apito do micro-ondas, o som de talheres batendo contra o prato de vidro. Ela ouvia tudo isso e podia enumerar exatamente onde ele estava, o que e como executava cada tarefa sem precisar ver. O modo como ele cortava os legumes, o contorcionismo que ele fazia para abrir a torneira com a mão esquerda e a mania de ficar apoiado sobre um só pé. Os anos a tornaram uma expert nesse assunto. O do ouvir.

Mais alguns minutos e os sons diminuíram até que ela voltou a ouvir apenas os poucos carros que circulavam pela rua residencial e sem sono ela levantou. Descalça foi até a sala que estava na penumbra e lamentou.

Quando foi que se tornaram estranhos?

Ela sabia, a resposta estava diante de seus olhos, envolta em uma moldura de madeira a poucos centímetros do rosto adormecido.

Observou os olhos e o sorriso generoso impressos na fotografia e suspirou. Antes mesmo de ver aquele sorriso nos lábios do pequeno menino, viu no homem a quem entregara seu coração e agora era privada de ambos. Como sempre fazia, pegou o porta retratos, passou as pontas dos dedos sobre a face em um carinho que nunca mais poderia fazer e esperou, mas as lágrimas não mais lhe faziam companhia.

Movida por algo que não soube nomear, devolveu o porta-retratos do menino que observara sua ruína e autocomiseração e voltou a olhar o homem que adormecera de forma incomoda. Ele não mais se importava, a cada noite a porta estava trancada e Berenice do outro lado não produzia um som sequer. Sua vida se tornara um eterno silêncio.

A noite estava fria, ela sentia isso em sua pele e seus pelos em riste eram a confirmação do inverno que estava prestes a chegar. Lentamente caminhou até o quarto procurando fazer o mínimo de barulho, abriu o guarda-roupas e retirou uma manta reprimindo as lembranças que a atingiam como um raio. Ali dentro tudo o que existia era convertido em lembranças.

E cobriu o corpo grande demais para o local que o abrigava. Cada um se protegeu da única forma que conhecia, ela com o silêncio, ele com o trabalho e com o tempo, os risos, as conversas, as noites de amor, o tempo gasto um com o outro perdeu seu valor. Convencendo-se que precisava ajeitar a manta que em várias noites também aquecera um corpo pequeno com cheiro de plenitude, Berenice ajoelhou-se de frente a ele e depois de tanto tempo sentiu-se embevecida com a imagem.

O rosto agora mais maduro, alguns fios prateados que começavam a despontar aqui e ali, as linhas de expressão dos sorrisos compartilhados, dos momentos de alegria e também de apreensão e medo - Sim, ele sentira muito medo. Do futuro, da incerteza e da dor. – ainda a fazia perder o fôlego.

Então porque sua porta estava sempre trancada?

Cedera lugar para a solidão por tempo demais. Com uma mão protetora ela puxou a manta até cobrir os ombros que tanto a acolheram. Sentia falta daquele lugar em que ela se sentia rainha, protegida e amada.

Então porque caminhavam em direções opostas?

Seus pés eram guiados pela dor e pela ausência.

Na penumbra ela viu todos os movimentos, os murmúrios – sim, ele falava em seu sono e por um instante se viu transportada a outra realidade quando ouviu um simples nome em meio aos resmungos. O seu nome. E Deus... ela levou a mão ao peito em um gesto involuntário e se escondeu ainda mais na escuridão da noite silenciosa. Passar horas insone era tão natural quanto respirar.

Com as pernas formigando pela permanência, ela se levantou fazendo uma careta. Pela primeira vez em meses, ela abriu a janela e se permitiu observar a aurora. Nem mesmo toda a dor do mundo, toda a tristeza ou mesmo todo o sofrimento impedia o sol de raiar e pintar o céu com uma nova chance. Sentiu a brisa da manhã a abraçar, ouviu o canto dos pássaros e tomou uma decisão.

Preparou seu café da manhã, mas desta vez retirou duas xícaras do armário, torrou seu pão integral, mas desta vez foram quatro fatias, arrumou a mesa, dessa vez para duas pessoas e antes mesmo que ele retornasse do mundo dos sonhos ela saiu. Sempre fora assim, seus alunos a esperavam para mais um dia. Cada rostinho alegre, cada sorriso ingênuo e risada cativante eram como facas afiadas alojando-se em seu peito. Com um suspiro resignado ela vestiu a armadura invisível antes de fechar a porta.

Já no fim da tarde, quando retornou ao seu apartamento, Berenice ouviu uma canção tocar em algum canto que não soube identificar e parou. Deixou que as notas e acordes de um violão a envolvessem em um abraço íntimo e cálido, fechou os olhos e levantou o rosto na direção dos raios de sol e se permitiu sentir a cadência e o ritmo na voz do homem que cantava para o amor. Um amor perdido.

Em seu apartamento viu as cortinas abertas, a manta dobrada sobre o sofá e o principal, um copo de vidro estrategicamente colocado sobre a mesa de centro e dentro dela uma flor. Única, amarela e vibrante.

Correu para o quarto a fim de se esconder, afinal o que tinha acontecido? Precisava do silêncio, da falta de luz, da falta de vontade de viver, mas ao chegar ao seu refúgio o sol resplandecia sobre sua cama iluminando a colcha de crochet. Sua respiração rareou, seu peito rugiu e seus olhos pinicaram. Não tinha para onde fugir e porque fugiria?

Olhou mais uma vez a pequena flor na sala com a mão já na maçaneta da porta e sem forças congelou no lugar. O ar entrava rápido demais em suas narinas, as mãos formigavam e seus pés não a obedeciam. Empurrou a porta centímetro a centímetro, cada espaço percorrido era como uma amarra sendo afrouxada e quando ela finalmente se aproximara do batente, Berenice parou.

Os músculos doíam, o peito arfava e ela sentia como se sua pele estivesse sendo retirada aos poucos, escorrendo e se acumulando sobre seus pés. Os ossos mais pareciam estarem sendo arrancados, um a um e pela primeira vez depois de muito tempo uma lágrima escorreu por sua bochecha. Abriu a boca para emitir um grito sem som preparada para se curvar sobre seu próprio corpo, mas não. Seus lábios se repuxaram levemente nos cantos e...

Berenice voltou a sorrir.

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