Parte 1 - Com o coração, sei lá

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- Eu não sei nem como te agradecer, Lídia.

- Me agradece se der certo no final, a gente nem começou. Sempre há o risco de desandar.

- Sempre há... o risco de... desandar - Pablo anotou num caderninho o que Lídia havia dito. Essa devia ser tipo a regra de ouro do Fazer Arroz Branco. Ele já se sentia impregnado pelo espírito da cozinha.

- Não acredito que você anotou isso. Quer dizer, eu não acredito que você vai anotar como se faz arroz.

- Pra não esquecer, ué.

- Pablo, pelo amor de Deus, não é difícil.

- Você acabou de dizer que pode desandar.

- E a gente come mesmo assim.

Lídia pegou uma vasilha no armário de cima, escolheu uma panela sem pensar muito e pegou o arroz no armário de baixo, onde havia guardado as últimas compras no supermercado. Ela e Pablo tinham que se espremer naquela cozinha, e Lídia já estava ficando um pouco incomodada com a presença de outra pessoa ali, que sempre fora um dos seus lugares favoritos para refletir sobre a vida. Uma terceira pessoa naquela cozinha já ia complicar demais. Passou pelo amigo novamente, seus corpos se esbarrando um pouco, fazendo Lídia repensar se tinha sido uma boa ter se oferecido para ensinar o marmanjo a fazer seu próprio arroz. Acontece que ele precisava mesmo saber. Primeiro que ele tinha conhecido uma moça no voluntariado - porque Pablo era desse tipo que se voluntariava para as coisas - e sacado de cara que ela adorava cozinhar. Acabou puxando assunto dizendo que também gostava, o que era uma mentira descarada, mas que tinha colado. Estavam saindo há alguns dias, mas, segundo Pablo, o momento de cozinharem juntos havia chegado. E segundo que, gente, uma pessoa que mora sozinha precisa saber o básico para sobreviver! Lídia nunca ia entender como criaram um adulto tão disfuncional.

Pablo queria aprender de verdade, pelo menos. Talvez com um pouco de afinco demais. Lídia não conseguia deixar de achar o caderninho engraçado. No fim de tudo, ela olharia as anotações dele e riria de coisas como "Demora MUITO, 45 min" e "Você tem que simplesmente saber as medidas. Com o coração, sei lá".

Ela deixou ele lavando o arroz e pegou o celular para checar notificações no Facebook. Deixaria qualquer um besta a animação dele para fazer uma coisa que Lídia fazia todos os dias. Talvez, por isso, gostava tanto de ajudá-lo. Ele não parava de agradecer, dizer como ela era a melhor pessoa e blábláblá, jurando que Lídia estava fazendo um grande favor a ele. Não era mesmo à toa que ele precisava anotar as coisas, porque, meu Deus, que memória péssima Pablo tinha. Onde ele estava nos últimos dois anos? Tinha feito um trilhão de favores a ela, alguns até de forma inconsciente. Foi o único que se ofereceu a explicar em detalhes como as coisas na loja funcionavam quando ela foi contratada, sendo que ele nem tinha essa obrigação. A pessoa que tinha cagou e andou para uma Lídia atrapalhada e perdida no estoque de sapatos. No início, ela ficou toda Quer me comer, mas os dias foram passando e ela não recebeu nenhuma insinuação da parte dele. Achou confuso, mas, em pouco tempo, ela notou que Pablo era muito bom naquilo. Ele a salvava quando ela ficava enrolada com os clientes. Ele a cobria quando ela precisava. Ele trazia um sanduíche quando sabia que ela tinha ficado tão focada no trabalho que esquecera de comer. Lídia lembrava de que tinha apenas comentado sobre seu computador que não estava mais se comportando como deveria e Pablo apareceu no dia seguinte para exorcizá-lo de todos os vírus. Lídia devia horrores. E Pablo nunca cobrava. Nunca. Aquilo a deixava louca e agradecida ao mesmo tempo, porque ela podia retribuir da mesma forma. Ela era feliz de ter um Pablo em sua vida e, agora, estava ali pronta para deixá-lo feliz por ter uma Lídia na vida dele.

- Já lavou? Ok. Existem várias formas de fazer o arroz dar certo. Eu vou te ensinar do meu jeito. Com o tempo, você vai acabar fazendo modificações, assim como eu fiz com o jeito que aprendi.

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