Parte 3 - Ela era muito boa em não se meter

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Não conseguia desligar o cérebro de jeito nenhum. Tentou ser a famigerada Pessoa Normal ao invés de uma ridícula infantil, mas não teve sucesso algum. Estava morrendo de vergonha só de imaginar Júlio, lindo daquele jeito, vendo suas fotos e falando coisas como "É, depois de muita bebida, eu até pegaria" e Barbie traduzindo como elogios ao pandeiro da amiga. Convenhamos, era até meio grosseiro. Estaria o romantismo morto? Viu? Já estava Lídia pensando em romantismo sobre uma relação entre pessoas adultas se reencontrando pelo celular de uma outra pessoa adulta que aparentemente não tinha muito o que fazer da vida. Era uma ridícula mesmo. Ia começar a pensar em toda uma história dando certo entre ela e Júlio, mas só chegou até a página 2, que era quando ele a visse pessoalmente e sua cara mostrasse o desalento na alma do cidadão. Meio quando ela viu Marta.

Ai, meu Deus, Marta. Lídia estava deixando ser envolvida por essa historinha besta de reencontrar o irmão da amiga apenas para fugir do verdadeiro terror da noite: Pessoas desconhecidas lendo Gênios. Cada palavra que ela digitou naquele arquivo. Cada frase cafona. Cada parágrafo mal arrumado, os erros de ortografia, os diálogos rasos e sem sentido. Lídia enxergava tudo claramente. Ela de fato lembrou de uma cena em que a menina liga a TV de manhã, assiste um filme, decide ir na rua e, gente, acontece uma descrição de como a lua está bonita e, a noite, fria. Uma transição péssima. Tinha tanta coisa que ela poderia melhorar! Ela até poderia mudar o final, principalmente o final.

Aparentemente, não iria pegar no sono nunca. Fechar os olhos e dormir era a última coisa que queria, na verdade. Marta não tinha o menor direito de pegar uma coisa tão pessoal assim, de uma pessoa que ela nem conhecia, e mostrar para um monte de gente. Lídia sabia que aquela mulher não prestava para Barbie. Estava estampado naquele cabelo mal cuidado, no nariz fino demais e na voz estrangulada meio enjoada. Assim que o sol raiasse, Lídia iria levantar daquela cama, marchar até a casa da amiga (que, droga, nem sabia onde era) e exigir que Marta desse o jeito dela para trazer Gênios de volta ao anonimato. Que ideia errada inscrever Lídia num concurso! Ainda mais com aquele conto claramente inacabado. Barbie havia dito que Marta era muito incentivadora, e óbvio que aquilo tinha funcionado quando a habilidade em questão era a de Barbie, mas agora Lídia via que Marta era apenas uma impulsiva desgovernada. Ela simplesmente empurrava as pessoas do precipício e esperava para ver de qual grupo elas eram. E só existiam dois grupos: Aqueles que sabiam voar lindamente pelo céu do sucesso e Lídia, provavelmente já estabacada no meio das pedras, sem nenhuma condição de levantar.

Ela sempre soube, desde criança, que talento existia. Ela nunca teve nada contra talento. Muito pelo contrário, Lídia amava pessoas talentosas, adorava estar entre elas, conversar com elas, ser amiga delas. Só não tinha ilusão de ser uma delas. Porque, gente, ela era apenas ela. Ok, conseguia escrever algumas coisas legais, tinha paixão pela língua portuguesa e tal, mas alguém já tinha passado uma tarde lendo Clarice Lispector? Ou então vendo sua alma todinha num livro da Sylvia Plath? Ou, ainda, dando risadas, chorando e ficando fascinada com a genialidade com a qual JK Rowling conduziu Harry Potter por sete livros? Lídia amava palavras, e a palavra era mesmo aquela: genialidade. Ela podia ser boa, mas aquelas mulheres eram gênias. Barbie, nos desenhos, também era. Essa era a questão. Certeza que no concurso ia ter outra dessas pessoas abençoadas, e Gênios seria apenas jogado para escanteio. Talvez alguém da banca lesse uns trechos em voz alta para descontrair do trabalho, "Olha o que essa garota escreveu?", e todos os presentes gargalhariam com as palavras idiotas.

E nem tinha problema, sabe. Quer dizer, eles provavelmente estavam certos. O 1º lugar tinha mesmo que ir para o gênio, o resto era apenas o resto. Se, em comparação, o trabalho dela era ruim, tinha mais era que ser descartado mesmo. Era justo. Doía lá no fundo da alma, mas era justo. Tudo fazia parte de um mercado, afinal. O único jeito de evitar a dor era não disputando espaço com ninguém. Ninguém pode te rejeitar se você não está se candidatando a nada. Era só um hobby, uma forma de se distrair e, quem sabe, entreter um ou dois amigos. As histórias realmente boas eram escritas pelos gênios, e eles mereciam tudo de bom que vinha disso. Lídia não precisava nem se meter, e ela era muito boa não se metendo mesmo, mas, aparentemente, Marta não tinha se tocado disso. Lídia ainda teria que aguentar todo mundo com pena dela depois que não desse em nada.

Viu que nem com um milagre de Santa Edviges ia conseguir dormir naquela noite sem soltar os cachorros em Marta, então resolveu fazer exatamente isso, sem se importar que eram - Que horas eram? - gente, três da manhã. Lídia tateou a cama em busca do celular, ligou a internet e já ia mandar uma mensagem para Marta quando recebeu as mensagens de Pablo. Era um áudio. Ai, Pablo, pelo amor de Deus. Mas ela decidiu ouvir só porque era dele.

Lídia, eu preciso que você me ouça. Gênios, Lídia! Caramba, Lídia! Lídia... Tipo, caramba. Porra, Lídia!

Eita.

O mundo precisa ler isso. Vamos jogar na internet. Não sei, a gente imprime e distribui na rua. Eu posso fazer isso pra você. Sério. Não estou brincando. Não é surto, Lídia. Eu estou chorando, Lídia! Lágrimas! Lágrimas reais! Essa história é incrível.

> Pablo, você é uma graça :)

Respondeu o áudio dramático do amigo só com isso mesmo. Nem lembrava mais do que a levara até ali, porque, além de desconcertante, a mensagem de Pablo fora apaziguadora. Sentiu que conseguiria dormir agora.

> Acordada a essa hora?

Ele perguntou, e Lídia nem tinha notado que ele estava online.

> Sou uma mocinha rebelde, não respeito mais o toque de recolher. Adorei seu áudio.

> Eu teria apagado se desse, paguei maior micão. Gênios me possuiu.

> Hahahahah

> Mas, Lídia, sério, você precisa mostrar para outras pessoas.

> Antes de ouvir sua mensagem, eu estava justamente indo xingar uma pessoa que me forçou a isso

> Como foi isso?

> Me inscreveram num concurso! Eu estou morta por dentro

> NÃO SE ATREVA A TIRAR ESSA CHANCE DE GÊNIOS

> Tô morrendo de medo, sério

> VC VAI GANHAR

> Vc não tem como saber disso

> Eles são uns idiotas se não derem o prêmio pra vc

> Vc nem sabe quem são eles

> Cala essa boca e me deixa te motivar

> Grosso

Ele mandou um emoji dando língua pra ela, e Lídia retribuiu com outros emojis aleatórios.

Ok, não ia discutir com Pablo nem com Marta nem com ninguém de madrugada. Ia deixar rolar só dessa vez, ainda que tudo fosse rolar por cima dela. Mas só dessa vez! Até porque, honestamente, não havia nada que ela pudesse fazer. Xingar Marta não ia adiantar nada, aquela era uma mulher muito determinada e Lídia era uma patife no mesmo quesito. Não tinha como vencer.

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