(Magdalena Bolea de Aragão - Ano 840 - Era Heian, Japão)
O mar era brando, quando comparado à tempestade corrosiva que me assolava o ventre e o coração.
Era um nervosismo tão grave que o vento não fazia mossa, mesmo quando me despenteava e esvoaçavam os trajes de "imitação japonesa", tão mesquinhos que só os aragoneses é que podiam ter sido responsáveis por tal!
Ou talvez o ódio que me queima por dentro, por ter sido vendida como mercadoria, me tenha feito olhar para o meu reino de forma diferente.
Quem sabe?
A nau desembarcou na região de Kyūshū, apenas mais uma etapa nesta viagem. Restam mais 2 meses até ao palácio do Imperador, uma longa viagem até à capital, Heian-kyō!
Nunca fui sonhadora, uma mulher de baixa nobreza do Reino de Aragão, apenas atrás de uma vida normal, para o estatuto ao qual pertencia!
Definitivamente não esperava que o rei me nomeasse como moeda de troca e paz, para o Japão.
Uma concubina para um imperador qualquer, que já tinha mulheres demais nas suas mãos! Um homem que tem tudo e desdenha do poder.
Mas este é o meu destino.
Com apenas treze anos de idade comecei a aprender japonês e costumes básicos, agora, com dezoito anos, estou aqui para cumprir o fado ao qual nasci!
Uma amante do imperador mais cruel que a Ásia já viu.
Ao descer da nau, já senti os olhares diferentes, alguns hostis, outros curiosos! Não é normal uma mulher estrangeira branca por aqui. Principalmente uma cheia de contraste e formas que ocupavam mais espaço do que uma mulher de peso normal.
Os meus pés caminhavam sem pensar até Dazaifu, o centro diplomático que recebe estrangeiros.
Eu seguia atrás do homem que me trouxe na nau até aqui. Ele não falava muito, e eu agradecia por isso, afinal tenho que me habituar a ser invisível daqui para a frente.
Ou pelo menos educada e calada.
Os próximos dois meses de viagem a cavalo até à capital vão ser longos, e os meus últimos momentos de liberdade.
Ou pelo menos uma espécie de liberdade fictícia, algo que apenas uma prisioneira que já deu tudo de si, sem nem ter chegado ao local de tortura, pode sentir.
Pelo menos espero que a comida seja boa.
Coisas banais, vestígios de normalidade, que ainda me assombravam a mente, sem saber que as mãos do meu imperador seriam mais cruéis do que a fome.
"Ela chegou." - Disse o homem que me acompanhava.
A frase que virava a chave do meu destino.
De mulher nobre Europeia, para propriedade de um homem implacável.
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A Última Concubina
RomanceUma estrangeira de outro mar, enviada como presente a um um imperador cruel. Ele possuía tudo. E ainda assim, nunca amou nada.
