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  O calor da Geórgia era uma entidade viva, uma massa úmida que pesava sobre os ombros de Daryl Dixon enquanto ele se movia entre os pinheiros altos. O silêncio da floresta ao redor da pedreira de Atlanta era enganoso; não era a paz da natureza, mas o vácuo deixado por um mundo que parou de respirar. Para Daryl, no entanto, o silêncio era uma ferramenta. Ele era o rastreador, o homem que lia o que o chão tinha a dizer quando as pessoas calavam a boca.

  Ele estava caçando há horas. O grupo no acampamento estava faminto, e a pressão de ser o provedor de carne era a única coisa que o mantinha conectado àquelas pessoas. Ele encontrou um rastro de sangue fresco, mas não era de um cervo. Era um rastro pesado, misturado com o odor pútrido de carne morta e algo mais... algo metálico e quente.

  Daryl ajustou a coronha da besta no ombro, os dedos calejados acariciando o gatilho. Ele seguiu o som. Não eram os passos arrastados e sem ritmo dos "errantes". Eram rosnados profundos, vibrações que pareciam fazer as agulhas de pinheiro no chão tremerem.
Ao dobrar uma encosta rochosa que dava para uma clareira isolada perto da pedreira, ele parou. O corpo instintivamente se abaixou, fundindo-se às sombras das árvores.

  No centro da clareira, uma fera negra, um lobo de proporções que Daryl nunca vira em toda a sua vida de caçador, estava cercada. Eram três deles. Três cadáveres ambulantes, com a pele pendurada em tiras cinzentas, movendo-se com a fome cega que definia aquela nova era. O lobo não recuava. Seus pelos estavam eriçados, e o rosnado que saía de sua garganta era um trovão contido.
Daryl observou, hipnotizado. O lobo saltou.
Não foi um ataque animal comum. Foi uma execução. A fera atingiu o primeiro errante no pescoço, a força do impacto arrancando a cabeça apodrecida do tronco com uma facilidade assustadora. Antes que o corpo caísse, o lobo já girava, as garras rasgando o peito do segundo monstro, expondo costelas negras. O terceiro errante tentou agarrar o dorso da criatura, cravando as unhas imundas na pelagem escura. O lobo soltou um ganido agudo, uma nota de dor puramente orgânica, antes de se virar e esmagar o crânio do morto com uma mordida única e definitiva.

  O silêncio voltou a reinar, mas era um silêncio quebrado pelo arquejo pesado do animal. O lobo cambaleou. Daryl notou agora: havia um corte profundo no flanco da fera, e o sangue que manchava o chão era de um vermelho vivo, humano demais para ser confortável. O animal tentou dar um passo, mas suas patas fraquejaram. Ele desabou de lado, a respiração falhando em espasmos.

  Daryl saiu da sombra. Ele manteve a besta apontada, mas havia algo de errado. O instinto de caçador lhe dizia para finalizar o sofrimento do animal, para não deixar uma criatura tão majestosa apodrecer viva ou virar comida para os mortos que certamente seriam atraídos pelo barulho.
  — Que coisa você é... — ele sussurrou para si mesmo, a voz rouca pelo desuso.
Ele se aproximou lentamente. Um passo. Dois. Quando estava a menos de três metros, a transformação começou.
Daryl travou. Seus olhos azuis se arregalaram, e pela primeira vez em muito tempo, o medo — o medo do desconhecido, não da morte — gelou seu sangue.

  O som era o pior. O estalar de ossos se quebrando e se reposicionando, como galhos secos sendo partidos sob uma bota pesada. A pelagem negra parecia retrair, mergulhando para dentro de uma pele que empalidecia rapidamente. O focinho alongado recuou, remodelando-se em traços finos. Em questão de segundos, a fera que despedaçara monstros desapareceu.
No lugar do lobo, deitada sobre as agulhas de pinheiro e o sangue dos mortos, estava uma mulher.

  Ela estava nua, ou quase isso, coberta apenas por restos de tecido e pelo próprio sangue. Seus cabelos eram de um vermelho escuro, ondulados e sujos de terra. Daryl baixou a besta, a mão tremendo levemente. Ele olhou ao redor, esperando que aquilo fosse uma alucinação causada pelo calor ou pela fome, mas o cheiro de ozônio e sangue era real demais.
Ele deu um passo à frente, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado.
  — Ei... — ele chamou, a voz falhando.
Nesse momento, ela se moveu. Um espasmo percorreu o corpo dela.     Ela abriu os olhos.
Eram olhos de um âmbar intenso, brilhando com uma lucidez selvagem que parecia queimar a alma de Daryl. Por um segundo infinito, o tempo parou na pedreira. Ela olhou diretamente para ele. Não havia medo naqueles olhos, apenas uma exaustão profunda e um reconhecimento instintivo. Era o olhar de alguém que via o mundo de forma diferente, que sentia cada vibração do ar, cada batida do coração do homem à sua frente.
Ela tentou formular algo, um som, talvez um pedido, mas os lábios apenas tremeram antes de se selarem novamente. A luz nos olhos âmbar vacilou e, com um último suspiro trêmulo, ela apagou por completo.

Instinto Selvagem- Daryl DixonStories to obsess over. Discover now