Capítulo 1 - Sentimentos estranhos

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Nathan não sabia ao certo por que aquela lembrança o afetava tanto, mas recordava a primeira vez que viu aquele garoto como se tivesse acontecido ontem. Não era surpreendente que ainda guardasse essa memória — ele a conservara mesmo após inúmeras tentativas de apagá-la.

Foi em um dia comum. Alguns amigos insistiram para que ele fosse assistir a uma partida, embora esportes jamais tivessem despertado seu interesse. E então, quase sem perceber, lá estava ele, hipnotizado por um completo desconhecido jogando beisebol como se sua vida dependesse daquilo. Nathan nunca entendeu muito bem as regras, mas, aos seus olhos, ele parecia incrível.

Usava a camisa de número 11, parte de um uniforme branco e azul. O boné escondia o cabelo enquanto ele segurava o taco e acertava a bola com um golpe forte. Largou o taco e saiu correndo logo em seguida. Algumas pessoas na arquibancada reagiram com entusiasmo, mesmo que não houvesse muita gente assistindo. Mas nada disso importava: para Nathan, o que realmente importava era o quanto ele parecia lindo. Ele parecia livre — e Nathan desejava aquilo também.

No fim do jogo, Nathan já não conseguia se concentrar em mais nada. O garoto se tornara um ponto vermelho brilhante que ele sentia que precisava alcançar. Largou os amigos e foi até a porta dos fundos do estádio da faculdade na esperança de encontrá-lo, embora não soubesse exatamente para quê.

A noite chegou antes que ele percebesse. Relutante, acabou indo embora. Entrou em seu carro vermelho, e a estrada, antes deserta, começou a se povoar de faróis distantes, luzes que iam e vinham. Era estranho dirigir sem rumo, movido por uma urgência sem sentido. A escuridão não o assustava; era familiar. Mas ali, no asfalto aberto, parecia menos opressiva, como se tivesse perdido parte da força que sempre exercera sobre ele.

Parou no primeiro posto que encontrou. O lugar cheirava a gasolina e café requentado. Uma moça atrás do balcão lia algo com a testa franzida. Quando levantou os olhos não perguntou nada, apenas o encarou em um silêncio acolhedor.

Ele comprou uma garrafa de água e um sanduíche bem embalado, e sentiu o mundo ficar um pouco mais leve enquanto caminhava de volta ao carro.

Enquanto comia, encostado no capô, percebeu algo que não tinha notado antes: o céu estava limpo. Limpo de uma maneira que não via há muito tempo, era brilhante. Ele permaneceu ali por longos minutos, respirando pesadamente. De alguma forma, tudo ao seu redor parecia diferente.

Quando voltou para casa, tentou convencer-se de que tudo aquilo era apenas cansaço, que as sensações em seu peito eram apenas lapsos momentos causados por seu esgotamento emocional. Mas, ao deitar, percebeu que a imagem do garoto correndo pelo campo insistia em permanecer. Era estranho como alguém desconhecido podia ocupar tanto espaço em sua mente. Ele nem se lembrava do nome dele.

Nos dias seguintes, tentou manter o ritmo habitual: acordar cedo, ir às aulas, passar o resto do dia na biblioteca para evitar falar com qualquer pessoa. Ainda assim, havia um sentimento estranho, um pequeno desalinhamento, quase imperceptível, mas suficiente para deixar seu mundo fora de foco. Nathan não se impressionava com facilidade; aprendera cedo a não criar expectativas, a não se envolver com ninguém.

Aos doze anos, já convivia em paz com o silêncio gélido de sua casa. Sabia que não deveria fazer barulho e estava conformado com isso. Cresceu sozinho, cuidando de si mesmo, e passou toda sua vida triste demais para se importar com qualquer pessoa que tentasse chamar sua atenção. Ficar sozinho era seguro; quando estava sozinho, ninguém podia machucá-lo. Então por que invejava tanto um garoto idiota de quem não sabia nada além do fato de que praticava esportes?

Não foi exatamente coincidência encontrá-lo, embora parecesse obra sádica do destino. Nathan estava na biblioteca, tentando terminar um trabalho atrasado há dias, quando ouviu risadas. Levantou a cabeça quase por reflexo e viu o maldito garoto entrando pela porta principal, com a mochila aberta e papéis quase caindo. Ele parecia o caos em pessoa. O ar parecia pesado ao redor dele.

Pediu ajuda ao bibliotecário, mas o homem estava ocupado. Então seus olhos encontraram os de Nathan — e ele o olhou como se o conhecesse, como se esperasse vê-lo ali, como se falar com ele estivesse em seus planos desde o princípio. O que seria estranho ele provavelmente já teria ouvido os rumores que circulavam em seu nome.

— Desculpa — disse ele, aproximando-se sem um pingo de culpa por invadir o espaço alheio. — Sabe onde fica a sala de estudo em grupo? Tô meio perdido.

Nathan sabia. Estudava ali com sua amiga às vezes, quando era obrigado. Poderia ter apontado o caminho de imediato ou até se oferecido para acompanhá-lo, mas a voz demorou a sair. Era como se a presença dele tivesse interrompido todas as linhas de seu raciocínio.

— Fica no final do corredor — respondeu, enfim, tentando soar indiferente. — Segunda porta à direita.

— Valeu — ele sorriu. De perto, o sorriso parecia ainda mais luminoso. Era repugnante.

Ele começou a se afastar, mas, num gesto rápido, voltou-se mais uma vez.

— Ah... você não tava no jogo de sábado?

Nathan não imaginava que ele pudesse tê-lo visto entre tantas pessoas. Não queria que ele soubesse quem era.

— Tava — admitiu. — Meus amigos insistiram.

— Espero que não tenha sido traumático — ele brincou. — Se quiser, posso te explicar as regras um dia. Prometo que tudo fica menos confuso.

Nathan pensou em responder, em dizer algo que o mantivesse ali por mais alguns segundos, mas, quando abriu a boca, o garoto já seguia pelo corredor, desaparecendo na porta indicada.

Ficou parado, sentindo o coração bater num ritmo que não lhe era familiar. Algo havia mudado. Não muito, mas o suficiente para deslocar seu centro de gravidade, puxando-o para longe. Era um sentimento estranho. Era um sentimento assustador.

O desejo é perigoso, e Nathan não estava acostumado a senti-lo. Desejar traz apego, expectativa, o risco de perder algo que nunca se teve. Desejar o condenaria da mesma forma que condenou seus pais. Ele lutava contra o desejo diariamente; não se permitia querer nada além do necessário. Definitivamente não queria nada em relação àquele garoto.

Ainda assim, naquela manhã, sentiu uma pequena brecha. Um espaço mínimo onde talvez coubesse coragem — ou algo parecido com ela. Talvez valesse a pena descobrir quem ele era, apenas por curiosidade. Fora daquela lembrança luminosa de sábado, fora das idealizações que construíra sem perceber.

Mais tarde, quando o garoto voltou à biblioteca aparentemente apenas para falar com ele, seu peito não aguentou a conversa — e Nathan fugiu. Ao sair da biblioteca, soube que estava ferrado. Nunca se sentira assim, mas aquele sentimento silencioso, inevitável, que ele ainda não sabia nomear, o assustou profundamente. Ele não seria dominado por aquelas emoções imundas. Não, de jeito nenhum.

O Primeiro GolpeStories to obsess over. Discover now