A fumaça ainda se entrelaçava no ar denso enquanto Jisung se enfiava cautelosamente pelos escombros de uma farmácia saqueada. O cheiro de sangue velho, misturado ao odor nauseante de carne podre, invadia suas narinas e lhe queimava a garganta, um odor que ele já aprendera a suportar. Sobreviver naquele mundo devastado significava fechar os olhos para o nojo, enterrar o medo, ignorar a fome e até mesmo fingir que o próprio cheiro não lhe fazia mal.
Os supressores que mantinham seu corpo sob controle estavam quase acabando; ele ainda tinha alguns dias, talvez uma semana, antes que precisasse se preocupar novamente com os sintomas. Era um alívio temporário, mas que pesava na mente a cada passo.
Jisung movia-se devagar, com cuidado extremo, desviando de prateleiras tombadas, vidros quebrados espalhados pelo chão, caixas estraçalhadas e cadáveres podres. Seus olhos se ajustavam à penumbra do ambiente, vasculhando cada sombra, cada canto escuro. O silêncio angustiante era interrompido apenas pelo rangido das estruturas abaladas.
O sol já havia deixado o céu, dando lugar à lua, ainda tímida, escondida atrás de nuvens pesadas. E mesmo com sua meia-luz prateada, tudo ao redor parecia assustador demais. Jisung aprendera a tirar vantagem de sua audição aguçada, sempre atento aos sons mais sutis, aqueles que uma pessoa comum jamais perceberia. Sua visão, no entanto, já não era a mesma. Desde que perdera os óculos, e quase a visão de um olho, durante um confronto brutal com um zumbi, ele nunca mais fora o mesmo. Carregava as consequências no corpo e na alma. Cada sombra era um alerta, cada passo no escuro, um risco calculado.
Como ômega, seu cheiro adocicado atraía zumbis com facilidade. Supressores de odor, nesse novo mundo, eram tão essenciais quanto haviam sido no antigo. Viver um cio em meio ao caos era uma experiência que Jisung definitivamente não desejava ter. Ainda assim, às vezes ele se pegava pensando que lidar com zumbis era mais fácil do que lidar com certos alfas babacas.
E por isso, pelo menos duas vezes por semana, Jisung se arriscava nas noites vazias, vasculhando farmácias e mercados em busca dos supressores que mantinham seus instintos sob controle.
Ele procurava em silêncio pelas caixas que, mais uma vez, poderiam salvá-lo. A mão ágil percorria a prateleira, tateando tudo o que estivesse ao alcance. Pegava uma embalagem após a outra, trazendo-as para perto dos olhos, na esperança de encontrar o que realmente precisava.
De repente, um som chamou sua atenção. Passos firmes, decididos, diferente dos passos lentos e irregulares de um zumbi. Aqueles passos eram humanos. Armados. Cada estalo no chão ecoava como uma sentença. Jisung congelou, os músculos tensos como cordas esticadas, e o coração disparou. Ele sabia que, naquele momento, cada decisão podia ser a última.
Ele se escondeu atrás de um balcão quebrado, segurando a faca com as mãos trêmulas. Mas preparado para se defender, se necessário. E então, a voz.
— Não quero te machucar. Só estou procurando suprimentos também — A voz era grave e baixa, rouca, mas não trazia ameaça. Ao contrário, havia algo contido nela, uma cautela cuidadosa, como quem fala com um animal arisco.
Jisung permaneceu imóvel, a respiração controlada. O cabo da faca em sua mão suava, escorregadio sob seus dedos, mas ele não afrouxou a pegada. Forçava os olhos, tentando reconhecer a silhueta que surgia entre as prateleiras caídas, parcialmente encoberta pela penumbra da farmácia. A luz da lua que entrava pela vitrine estilhaçada era fraca, mas suficiente para delinear a forma masculina. Sua visão ruim impedia-o de enxergar o rosto do estranho com clareza.
— Vi você entrando aqui — continuou o homem, mantendo-se a uma distância segura. — E vi que está sozinho.
O estômago de Jisung deu um leve espasmo. Não gostava de ser observado, muito menos de ser seguido. Os batimentos cardíacos estavam mais rápidos agora, mas ele mantinha o rosto impassível, treinado demais para deixar o medo dominar.
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Reminder: under instincts • chansung
Science FictionNum mundo em ruínas, tomado por zumbis e governado pelo instinto, um alfa e um ômega cruzam caminhos por acaso. Entre feromônios, segredos e a luta diária por sobrevivência, nasce algo que nenhum dos dois esperava.
