Two Souls

By helianthux

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Dono de um sorriso torto que deixa qualquer uma de pernas bambas, um físico de tirar o fôlego e olhos penetra... More

| informações |
| epígrafe |
| prólogo |
01 | t r a g é d i a
02 | p a r c e i r o s
03 | m i r a g e m
04 | f l e r t a n d o
05 | s h a k e s p e a r e
06 | d e s e j o s a
07 | c l o c k
08 | c a c t o s
09 | s o r t e
10 | t o q u e s
11 | d i s t r a ç õ e s
12 | i n c e r t e z a s
13 | c o n f u s o
14 | p e ç a
15 | p e s a d e l o s
16 | a g o r a
17 | m a c i e i r a
18 | t a t u a g e n s
19 | f u g i n d o ?
20 | c o n e x ã o
21 | e u - n u n c a
22 | s o l t o
23 | d e s c o n f i a n ç a s
24 | f i n g i m e n t o
25 | e s p e l h o
27 | t i q u e - t a q u e
28 | l i m ã o
29 | b u m
30 | a f u n d a n d o
31 | c o r a g e m
32 | e - m a i l' s
33 | s u p e r f í c i e
| considerações finais |
SPIN-OFF

26 | d o r

9.9K 1.2K 261
By helianthux

"Segure, segure, me agarre
Porque eu sou um pouco instável
Um pouco instável"
— Unsteady, X Ambassadors.

se Deus quiser, a gente finaliza essa história de uma vez hahaha.

boa leitura :)

A dor é inevitável.

Ela é angustiante, sufocadora. E, por menos desejada que seja, a dor é inevitável.

Um dia, ela irá bater em sua porta, mansa e lasciva. Você não a convidará para entrar, tampouco a convidou para estar ali naquele momento, mas ela o fará assim mesmo. A dor te invade, cruel, e ri às suas custas.

E então, ela precisa ser sentida.

Como um recém nascido que chora ao sair da barriga, expulsando todo o líquido dos pulmões para poder respirar. Para não se afogar. Para viver.

A dor é, também, essencial.

O pensamento me conforta, ainda que o embrulho em meu estômago pareça piorar a cada passo que dou. Meus dedos continuam entrelaçados ao de Caleb enquanto cruzamos o jardim, parando rente a porta de entrada.

Levo mais alguns segundos para criar coragem e, finalmente, tocar a campainha.

Mais alguns instantes se passam até que a porta seja escancarada, revelando Phoebe em toda sua plenitude; os cabelos negros presos em um coque, os olhos cor de chocolate enormes e brilhantes e o sorriso tão amplo quanto o do Gato de Cheshire.

Uma gata, penso. Se Phoebe tivesse um espírito animal, com certeza seria uma gata. Felina, elegante. Mas perigosa, também. Proteje aqueles que ama com unhas e dentes, se for preciso.

Ainda estou parada na varanda feito uma estátua quando Phoebe, minha mãe, me envolve em seus braços, puxando-me para si com uma ternura acolhedora tão familiar. Noto quando a mão de Caleb escorrega para longe da minha, e ele se afasta para dar-nos a privacidade de que precisamos.

E é quando eu sinto.

Saudade, culpa.

Arrependimento.

Dor.

Envolta no calor reconfortante que só uma mãe pode oferecer, choro silenciosamente. Deixo que a dor se esvaia do meu corpo em forma de lágrimas, levando consigo o aperto angustiante que carreguei no peito todos os dias desde que deixei Santa Mônica. E no fim, é como se eu pudesse respirar sem dificuldades outra vez.

Como expulsar todo o líquido dos pulmões.

Quando nos afastamos, o suficiente para podermos nos olhar nos olhos mas não o bastante para nos separarmos, rastros molhados banham as bochechas de Phoebe e, em suas íris escuras, as gotículas do choro contido brilham como estrelas solitárias no céu.

Ela chora pelos mesmos motivos que eu, percebo. E por algo que apenas nós duas podemos compreender.

— Sinto muito — é o que ela sussurra para mim, e nada mais.

Ela sabe que eu sei.

— Não é culpa sua, mãe — murmuro de volta, esticando a mão para limpar uma gota salgada que ela deixa escapar.

Phoebe sorri, concordando silenciosamente. Então, ela afagar meu rosto, quase como se temesse que eu fosse sumir, como uma alucinação que evapora no ar. Depois de se certificar que isso não irá acontecer, ela dá uma passo largo para trás e respira fundo, recompondo-se.

E é só aí que ela se dá conta de que temos companhia. Seus glóbulos curiosos voam em direção ao moreno, parado a alguns metros de nós. Ela estuda Caleb minuciosamente, deslizando suas orbes analíticas por toda a extensão do garoto, antes de voltar-se para mim com as sobrancelhas erguidas apenas para estacionar os olhos no moreno novamente.

Solto uma gargalhada frouxa.

— Mãe — arranho a garganta —, esse é Caleb, um amigo.

Suas sobrancelhas batem no teto.

— Amigo?

Caleb aproveita a deixa para se aproximar e esticar a mão em cumprimento. 

— É um prazer conhecê-la, Sra... — o moreno deixa a dúvida no ar, esperando por uma resposta.

Phoebe está prestes a responder um lindo e redondo – porém extremamente revelador – Morgan quando eu a interrompo, agitada:

Phoebe!

Os dois pares de olhos se voltam para mim quase que instantaneamente, interrogativos e confusos. Principalmente os de Phoebe, que reluzem com um quê de divertimento. Minha mãe me encara por alguns momentos e, à medida que se dirige ao moreno outra vez, um sorrisinho desponta em seus lábios rosados. Caleb ainda está com o braço estendido, esperando um aperto amistoso de mão, quando a matriarca o puxa para um abraço caloroso, exatamente como fizera comigo minutos atrás. O outro fica sem reação a principio, esbugalhando os olhos em perturbação, mas logo se rende a demonstração de afeto, retribuindo o abraço com o mesmo carinho.

— Nada de Sra. Isso, e Sra. Aquilo — ela fala, afagando suas costas. — Me chame apenas de Phoebe, querido.

— Como quiser, Sra. — Caleb se detém, soltando uma risada nasalada antes de se corrigir: — Phoebe.

— Bom, vamos entrar de uma vez? — Minha mãe questiona, o sorriso preenchendo metade do seu rosto.

O clima em Santa Mônica é, em geral, ameno e fresco nessa época do ano, e, mesmo durante a noite, a temperatura mínima beira aos 10 °C, o que pode ser considerado quente em relação a outros estados. Ainda sim, o aquecedor da casa está ligado, assim como a lareira da sala de estar.

Estou na cozinha ajudando Phoebe com o jantar enquanto Caleb se acomoda, no andar de cima. O cômodo, com o calor acumulado do fogão e do forno, se torna uma sauna, e eu já começo a transpirar sob o moletom, deixando de cortar as cebolas vez ou outra para passar o dorso da mão na testa, ainda que esta esteja seca.

Não sou uma pessoa que sente frio com facilidade, e Phoebe, friorenta que só, costuma dizer que é porque tenho o sangue quente demais. Em todos os aspectos.

— Não, eu não vou desligar o aquecedor — ela diz, quase como se lesse minha mente.

— Eu não ia pedir para você fazer isso — minto, e ela sabe disso.

Nós duas rimos. Volto a cortar as cebolas.

— Ele não irá voltar, sabe disso, não é? — A voz de Phoebe é baixa e receosa dessa vez.

O ar fica repentinamente pesado, como se uma nuvem espessa se alojasse sobre nossas cabeças, ameaçando desabar. Quase consigo escutar os trovões, como se eles rugissem dentro de mim.

— Não temos certeza disso.

Ela balança a cabeça negativamente.

— Bruce é um canalha, para dizer no mínimo, mas não é burro. Se ele se aproximar de você, estará desrespeitando a ordem de restrição decretada pelo juiz, e ele não quer voltar para a cadeia.

— Essa ordem não o impede de chegar perto de outras garotas, Phoebe — digo, ainda fatiando as cebolas. — E é isso que me preocupa.

Morgs...

Minha mãe se cala assim que a porta da frente se abre, ao mesmo tempo que passos ecoam pela escada. Paro o que estou fazendo na mesma hora, largando a faca sobre a bancada e girando o pescoço para direcionar um olhar arregalado para Phoebe.

Nos entreolhamos, sabendo exatamente o que meu pai irá fazer. Juntas, corremos em disparada até o hall de entrada.

Não somos rápidas o bastante, entretanto.

Caleb e John se esbarram, como duas rochas entrando em colisão.

O moreno se mantém sereno, as mãos enfiadas no bolso de forma casual, ao passo que meu pai trava, parando de desatar o nó da gravata pela metade. Ele olha para Caleb, depois para mim, e então, para Caleb outra vez.

Oras, o que temos aqui — depois de vários segundos de silêncio, o mais velho resolve se pronunciar.

John dá um passo à frente, inflando as narinas e erguendo o queixo pontiagudo. Ele se abre como um pavão, mostrando, em vez das penas coloridas, sua pose intimidadora.

E lá vamos nós.

A face neutra de Caleb, enfim, parece vacilar.

— É um prazer, Sr. — ele estende a mão, a coluna mais ereta que o usual. — Eu sou Caleb, um amigo da sua filha.

Meu pai observa o braço esticado do mais novo com certo desdém, intercalando sua atenção entre o membro de Caleb e seu rosto. Em seguida, dá mais um passo à frente.

O moreno recolhe a mão no mesmo instante.

— Quais são as suas intenções com a minha filha, Caleb? — O nome do outro deixa a boca de John com um escárnio recheado de dúvida.

Caleb engole em seco, procurando meus olhos em um pedido por socorro silencioso. Quando recebe apenas um dar de ombros meu, ele volta a encarar meu pai, que se mantém irrefutável.

Inabalável, como uma rocha.

— Bom, eu... — o moreno abre e fecha a boca várias vezes, incapaz de encontrar as palavras certas.

— Já chega, John — Phoebe resolve interromper, soltando uma risada que faz meu pai murchar. — Você já assustou o garoto o suficiente, não?

E, em um piscar de olhos, John já está sorrindo junto com a esposa, um ar leve e amigável tomando conta do ambiente. Caleb volta a procurar meus olhos, confuso como nunca, mas meu pai é mais rápido do que eu ao calar todas as perguntas do moreno, puxando-o para um abraço. Mais uma vez, Caleb fica sem reação.

Quando John se afasta, o homem assustador de antes já não existe mais.

— Estou brincando — ele aperta o ombro direito do mais novo, ainda com um sorriso preso nos lábios. — É bom recebê-lo, filho.

Caleb pisca uma, duas, até três vezes, antes de sorrir também.

— É bom estar aqui.

Pelo resto da noite, o grande casarão, que eu costumava achar solitário quando mais nova, é preenchido por conversas e risadas.

Nós jantamos, todos junto na mesa, e, depois, os homens são postos para lavar a louça, visto que eu e Phoebe já havíamos feito a comida. Mais tarde, nos sentamos na sala e, enquanto eu e papai botávamos o assunto em dia, Caleb e Phoebe discutiam sobre filosofia – a área de formação dos dois.

Quando a noite tardou, meus pais se retiraram para descansar e, no fim, restaram apenas Caleb e eu.

Bom, eu, Caleb e uma ideia.

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