Prólogo

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"Mamãe, você precisa mesmo ir com o papai? Ele disse que você podia ficar cuidando de mim..." - reclamo, segurando a barra da camisa dela.

Ela sorri, daquele jeito doce que sempre me acalmava, e passa a mão pelos meus cabelos.

"Preciso ir, Al. Mas vai ser só por algumas horas. Você fica com a Aki e Amanda, certo?" - Faço biquinho.

"Eu não gosto de Akira... e ele não gosta de mim" -Mamãe ri e me puxa para um abraço apertado.

"Mesmo assim, seja educada. Você sempre foi uma mocinha muito gentil."

Na época, eu só tinha cinco anos e estava mais preocupada com a Barbie que o filho da Helena tinha decapitado do que com qualquer outra coisa. Eu achava Akira Sir Clair o menino mais insuportável do planeta - e tinha certeza de que nunca ia perdoar o crime contra minha boneca favorita.

Mas naquela noite tudo mudou.

Meus pais sofreram um acidente durante a viagem. Do nada, eu me vi órfã, assustada e colocada num orfanato pequeno, escuro e apertado. Helena Sir Clair fez tudo para me tirar de lá o mais rápido possível, e sou grata por isso até hoje. Mas ela nunca me adotou. Ela fez o que podia: Me deu um quarto no subsolo, comida quente, roupa limpa e trabalho. Igual minha mãe e minha avó fizeram a vida inteira.

Aos cinco anos eu já vivia na mansão, e aos dezesseis eu continuava aqui - agora como funcionária, não como visita. Trabalhava no andar de cima, dividia tarefas com Amanda, e conhecia cada móvel daquela casa melhor do que minha própria mão.

Helena dizia que eu era "como uma sobrinha", mas eu sabia que não era Sir Clair. Eu era alguém entre funcionária, filha emprestada e legado da minha mãe. E tudo bem.

O problema mesmo era o filho dela.

Akira.

O menino que cortou a Barbie. O que me irritava desde sempre. O que nunca perdia a chance de me provocar. E agora... o dono da escola onde eu teria que estudar.

Fancy. A escola mais difícil e mais cheia de gente metida de Toronto.
A escola dele.

Ele não deixou que eu fosse com ele no carro, então caminhei até o ponto da rua de trás. Estava distraída até ouvir alguém me chamar:

"Alice?" - Viro na hora.

"Ben?"

Benjamin Rowan. O primeiro garoto que eu beijei na vida. Continuava igual: alto (mais alto ainda), loiro, delicado, com aqueles óculos redondos que o deixavam ainda mais bonito.

"Eu achei que nunca mais ia te ver."

"E você... vai pra Fancy?" - diz analisando meu uniforme, que era igual o dele. Assinto, envergonhada.

"Posso ser seu guia. Já sobrevivi ao primeiro ano. Agora posso te ajudar a sobreviver também."

Sorrio. Ben sempre foi assim - calmo, gentil, cuidadoso. E por algum motivo, ele sempre me olhava como se eu fosse algo precioso.

No ônibus, sento ao lado dele. Alguns garotos me encaram como se eu fosse algo estranho, e eu me encolho, abraçando meus livros. Ben toca minha perna de leve, avisando que está tudo bem.

Quando chegamos, encaro a escola enorme e respiro fundo. Antes que eu dê meu primeiro passo no pátio, vejo ele.

Akira.

Escorado em um carro, duas meninas grudadas nele, rindo como se ele fosse algum tipo de príncipe. Ele, claro, amava aquilo. Era o rei do lugar e fazia questão de mostrar.

"Você parece popular aqui" - digo ao Ben quando muitas pessoas o cumprimentam.

"Eu ajudo todo mundo nas provas. Acho que eles só fingem simpatia" - Ele ajeita os óculos e eu rio.

"Eu gosto desse você" - Ben fica vermelho. Eu também.

Akira passa por mim e esbarra no meu ombro propositalmente, como sempre. Respiro fundo e ignoro. Ele nem olha pra mim - ou finge não olhar.

Ben passa o primeiro recreio inteiro comigo, mostrando armário, biblioteca, quadras, clubes, refeitório... tudo diferente, organizado, bonito. Fancy era um mundo novo e assustador, mas ter Ben ali tornava tudo menos sufocante.

No fim do dia, espero por ele na saída. O sol estava forte quando os amigos do Akira passam por mim. Um deles, Key, me olha como se pudesse ver através da minha roupa. Sinto um arrepio horrível e puxo a mochila mais perto do corpo.

"Para com isso, Key. Essa daí é de baixo escalão" - Akira surge atrás dele.

Eu solto o ar, aliviada. Ele me olha irritado por eu ter ficado grata.

"E aqui não é nossa casa, x9. Faz o favor de não me dedurar" - Cruzo os braços.

"Você quer um contrato comigo?" - Ele até ri.

"O que você quer em troca?" - Penso por um segundo. Podia pedir qualquer coisa. Mas só digo:

"Sempre que eu precisar de você na escola, você tem que vir onde eu estiver" - Ele me encara, confuso.

"Você não vai abusar?"

"Nunquinha. Só se eu estiver em perigo."

Ele estende a mão. Pela primeira vez, toco a dele. Quente, grande, firme. Ele aperta forte demais, claro.

"Temos um acordo"

Ben chega logo depois, gentil como sempre, e combinamos de nos ver mais tarde. Ele sabia da minha história. Era o mais perto que eu tive de um namorado.

***

Mais tarde, no quarto do Akira, ele mal levanta os olhos do celular.

"Minha mãe quer que eu separe roupas pra doação"

"Mas nem é novembro..." - silêncio ou melhor, sou ignorada.

Quando terminamos, descemos com as sacolas pro subsolo.

"Faz tempo que não venho aqui" - ele comenta - "Quando eu era criança, achava esse canto o mais legal da casa"

Ele caminha de costas enquanto fala.

"Akira, não anda assim. Tem madeira solta, você vai aca—"

Ele cai.
Eu começo a rir. Muito.

"Carregue tudo sozinha!" — ele resmunga, levantando todo empoeirado.

Eu rio mais ainda.
E percebo uma coisa:

Talvez Fancy não fosse meu maior problema.
Talvez o problema tivesse nome, sobrenome...
e olhos verdes que eu nunca conseguia decifrar.

As marcas que não se vêemCerita yang bikin terobses. Temukan sekarang