Capítulo 1

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" Boa sorte, querida" Anne disse antes de me dar um abraço apertado e com os olhos marejados, sorrir para mim.

" Obrigada, Anne." eu respondi com a voz embriagada de emoção.

" Uma pena você ter sido o bode expiratório, Cá" Ethan disse tocando meu ombro e se virando para encarar Claire, que limpava sua mesa com um sorriso no rosto. Eu suspirei.

" Fazer o que, não sou a sobrinha do dono." Resmunguei e lhe dei um abraço. "Obrigada por tudo, vocês dois. Acho que eu não teria sobrevivido à Claire sem vocês."

" Não sei como nós vamos sobreviver sem você. Ela é insuportável! Não duvido que daqui um tempo um de nós acabe na rua também por conta das merdas que ela faz." Ethan bufou.

" Bom, boa sorte com isso." Eu disse, sentindo um nó se formar em minha garganta. 

Faziam dois anos que eu trabalhava naquela empresa, e definitivamente era difícil estar sendo demitida por conta de um erro que nem foi meu, mesmo que eu não pudesse provar. Suspirei e me forcei a sorrir. Peguei a caixa de papelão que descansava em cima de minha mesa e lutando contras as lágrimas eu caminhei para fora da empresa.

Quando cheguei no carro, abri o porta malas e joguei a caixa lá dentro. Com força, sentei no banco do motorista e descansei minha cabeça no encosto. Algumas lágrimas escorreram, umas por tristeza de sair da empresa que eu tanto gostava, outras por não saber o que fazer.

Eu morava na Austrália há apenas 2 anos e meio, e dividia apartamento com minha melhor amiga, Helena. Ambas havíamos nos mudado juntas do Brasil, tentando seguir nossos sonhos de adolescência. Eu era formada no técnico de Administração e em Publicidade e Propaganda, e Helena estava terminando a residência de medicina no Hospital Central de Sydney. Mas o que me preocupava mesmo era que o dinheiro que Helena ganhava só dava pra pagar o aluguel e metade das despesas do carro. De onde iríamos tirar para comer era a questão que mais me preocupava. Helena era mais velha que eu, ela tinha 27 e eu 24, mas nós éramos amigas desde que eu nasci. Minha mãe vive dizendo que Helena me tratava como sua própria boneca desde o primeiro dia. Ela era filha da melhor amiga de minha mãe, então nós passamos boa parte de nossa vida juntas, e éramos a única família que tínhamos nesse país enorme e diferente.

O problema de Helena era que quando ela não estava no Hospital, ela saia seus amigos esquisitos que ela conheceu num grupo do Facebook. Eu digo esquisitos pois eram muito distantes de nossa realidade, eram cantores de  bar, produtores e diretores de pequenos teatros da cidade. Não me entenda mal, eu não tenho nada contra eles, eles até nos conseguiam uns ingressos de eventos e shows, de vez em quando. Mas o que uma médica tem a ver com essa galera, nunca fez sentido na minha cabeça. Talvez seja pelo fato de Helena ser amante das artes, ter uma voz linda e ter um fraco por músicos. Nos últimos 2 anos, não houve um cara sequer de que Helena tenha se relacionado e não tivesse algo relacionado com música.

Bufei, frustrada e perdida entre meus pensamentos, girei a chave na ignição e pisei na embreagem, rezando para meu velho carrinho pegar e eu poder ir embora dali o quanto antes. Ouvindo minhas preces, o carro arrancou, e eu tentei focar em chegar em casa.

Assim que cheguei, percebi que Helena estava em casa. O som alto da sua música já a delatava antes mesmo de eu abrir a porta do apartamento. Entrei e fechei a porta, parando na cozinha para tomar um copo de água. De repente, a música parou e Helena abriu a porta de seu quarto com força, e aos gritos.

" VAZA DAQUI!" ela berrou, e antes que eu pudesse raciocinar, John passou correndo pelo corredor, ele estava só de cueca e se assustou ao me encontrar no caminho.

" O que caralhos está acontecendo?!" Eu perguntei, assustada.

" Sua amiga é louca, Camila. Isso que tá acontecendo!" Ele disse parando na sala e vestindo as calças.

" Bate a porta quando sair, vou tentar conter o monstro." Eu disse a ele, me lançando no corredor e correndo para o quarto de Helena.

" Que porra é essa, Lena?" Eu disse ao enxergar minha amiga de calcinha e sutiã arrancando as coisas do armário e procurando seu roupão.

" Aquele babaca!!!!" Ela grunhiu " Machista do caralho!" Ela bufou, raivosa. " Não suporto esse tipo!"

"Calma amiga!" Eu disse entendendo, e começando a rir.

" Do que você está rindo?" Ela me lançou um olhar enfezado.

" Você é ridícula, sabia?" Eu disse gargalhando, e ela perdeu um pouco a pose e deixou um pequeno sorriso escapar.

" Você pare, Camila." Ela tentou dizer com seriedade, mas sua voz se desafinou numa risada.

" Você tinha que ver a cara de medo de John!" Eu respondi, rindo ainda mais e me jogando em sua cama. Ela fez o mesmo e ficamos como duas idiotas, rindo uma para a outra por alguns minutos.

" Te amo!" Eu disse abraçando minha melhor amiga. " Você acabou de fazer um dia de merda um pouco divertido!"

"Ugh! Você é muito melosa, Cá!" Ela disse fugindo do meu abraço. " Mas eu também" ela parou e gesticulou com as mãos como de desenhasse uma linha invisível no ar. " - a palavra proibida- você. Agora sai do meu quarto e vai ficar miserável sozinha no seu, vai! Eu quero aproveitar minha raiva e depressão pós coito." Ela disse me puxando de sua cama e me empurrando até a porta, antes de fecha-la nas minhas costas. Eu dei risada sozinha, fui até meu quarto e arranquei minhas roupas, pronta para um bom banho quente. Olhei no relógio, ele marcava 16:39.

***

Por volta das 19:30, Helena abriu a porta do meu quarto e se sentou na minha poltrona velha como se fosse dona do lugar.

" Tô com fome." Ela anunciou, como se eu devesse resolver o problema.

" Acho que ainda tem pão no armário…." Eu disse enquanto fitava o teto bolorado e continuava pensando em como as coisas não podiam piorar.

Eu estava tão fodida. Só tinha dinheiro para comprar comida e pagar o aluguel do mês seguinte, não tinha um emprego, não tinha como voltar pra casa no Brasil e definitivamente não tinha mais ninguém além de Helena, que parava em casa 3 vezes a cada 7 dias. O que caralhos eu ia fazer?

" Vamos sair" ela disse, como uma juíza dando a sentença.

" Se você não se lembra, eu fui demitida, com que dinheiro você quer sair, Helena?" Eu a adverti, mas ela deu de ombros.

" Erik quem convidou, ele paga." Ela disse abrindo minha gaveta e pegando meu delineador, antes de se olhar no espelho e começar a se maquiar. Erik era um amigo dela do grupo dos esquisitos, eu gostava muito dele, mas me sentia mal saindo as custas de outra pessoa.

" Aí, Lena, eu me sinto meio mal. Acho melhor não."

" Qual é Camila, ele quem convidou. Parece que um amigo dele produtor o convidou para ir num daqueles barzinhos de gente rica que tem no centro, e ele queria companhia da dupla infernal!" Ela se explicou. " Você sabe que ele é rico, uma saída não faz nem cócegas no bolso dele. Vamos, por favorrrrrr!" Ela implorou daquele jeito único que ela sabia que eu não conseguiria dizer não.

" Tá bom. O que eu visto?" Perguntei, olhando para meu corpo coberto pelo meu roupão de coração e minha calça do pijama.

"Algo sexy." Eu assenti e abri a porta do meu guarda roupa. "Camila." Ela chamou, me olhando com um sorrindo sarcástico.

" Você sabe que não tem nada sexy no seu guarda roupa, né?" Eu bufei 

" Cale a boca." Revirei meus olhos " As vezes me pergunto o porquê de ser sua amiga." Eu disse puxando uma saia lápis de de couro do cabide, antes de ir para o quarto dela escolher um top.

" Pegue o de renda, sua careta!" Ela gritou para mim, eu revirei os olhos e peguei o cropped de renda. Voltei para o quarto, me despi e me enfiei na roupa, com Helena me fitando.

" Gostosa!" Ela disse ao me ver terminando de vestir-me. " Você engordou, seus peitos estão maiores. Gostei. Vamos pedir mais hambúrgueres!" Ela disse, animada. Eu ignorei minha vontade de dizer a ela que não haveria dinheiro para pedirmos hambúrguer, e me sentei ao seu lado, nós espremendo na poltrona, e comecei a me maquiar.

Se eu soubesse para onde essa noite me levaria, eu teria ficado em casa.

Illicit Affairs | Ashton Irwin |Where stories live. Discover now