O gorjear das aves mortas

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Embora o homem não tenha a mínima ciência do que poderia acontecer após a morte, ela nunca foi um problema ou preocupação para pessoas de espírito nobre. Pelo menos é assim que deveria ser. O fato é que mesmo depois de tantos milênios convencendo-se de que a vida após a morte seria boa para aqueles de bom coração, a grande maioria ainda têm um medo muito grande de morrer. Talvez por falta de fé nas escrituras ou, muito mais provavelmente, por falta de fé em si mesmos.

Entretanto, a coisa era diferente quando tratava-se da "quase-morte". Não havia escritos muito conhecidos que dissessem ao certo para que dimensão absurda de prazer ou desespero iriam as almas que repousavam no sono de um profundo coma. Ninguém era capaz de dizer ao certo se estavam sob a tutela quaisquer entidades, como anjos, demônios, ou a quem quer que seja que os mortos sejam entregues. No fundo, mesmo que relutantes, sabemos que nada disso teria o mínimo sentido se não fosse o maior e mais aterrorizante medo da humanidade: o ponto final.

Somos todos especialistas em vírgulas. Viciados, eu diria. Elas são confortáveis e nos dão a ideia de que somos eternos. Por causa delas, confiamos e damos poder a estranhos. Deixamos que eles digam o que devemos fazer e ser e, em troca, eles nos prometem vírgulas. Somos ingênuos? Talvez o mundo seja, de fato, injusto.

A esperança das pessoas na existência de um paraíso é a fonte de poder daqueles que comandam o próprio inferno.

É fato que a complexidade da mente humana é algo imensurável e talvez nunca tenhamos a sensação de experimentar tudo o que o nosso cérebro é capaz de fazer. Na maioria das vezes o belo e intrigante surge de mentes inconstantes. E foi da inconstância que surgiu o meu mundo, seja lá o que "mundo" signifique.

— Quantas noites você acha que seriam necessárias se eu quisesse contar todas essas estrelas?— Ângelo me perguntou, olhando para o céu, quando estávamos deitados e levemente bêbados no telhado da minha casa. Era noite conversávamos depois de termos comemorado o meu aniversário de dezoito bebendo um dos vinhos caros do meu pai.

— Talvez milhares... ou talvez uma só.— eu ri. O álcool costumava despertar o meu lado filosófico.

— Uma só?— indagou confuso.

— Bom, uma vez eu vi na internet que a Via Láctea deve ter 400 bilhões de estrelas...一 rolei meu corpo de modo que eu ficasse deitado de lado.一 mas você acha que alguém realmente contou? Estatísticas são uma grande farsa, mas não podemos contestar nada porque quem as disse tem uma gaveta cheia de diplomas. — acendi um cigarro com um isqueiro velho, fazendo uma barreira com a mão para evitar que o vento apagasse a chama.

— Isso não faz o menor sentido. — ele riu.

— É claro que faz! Diga um número alto o bastante para que ninguém verifique e tenha um diploma de astrofísica ou sei lá o quê. É assim que se conta as estrelas em uma noite. 一 eu não fazia ideia do que estava falando, eu provavelmente tava chapado.

Ângelo, que estava deitado, sentou-se com as pernas cruzadas, inclinou-se para frente a fim de alcançar o maço de cigarros, apanhou um e acendeu. Ele nunca havia fumado antes, mas eu estava tão distraído com a forma como o seu cabelo balançava o deixando ainda mais lindo, que não percebi nada de estranho na sua ação. Se ele fosse um assassino em série, aquele seria o momento ideal pra me matar.

— Como você gosta disso?— ele tosse fazendo uma careta após ter fumado pela primeira vez.

— Sei lá, eu não fico sexy com um cigarro na boca? — respondi ironicamente.

— Então é isso, Jason? Você deixa essa coisa te matar porque você se sente sexy? — ele pergunta com desdém.

— Vai se fuder, eu tô chapado. Não é pra ter sentido, se eu visse sentido nas coisas, eu não estaria fumando. — respondi, provavelmente com a voz grave e fechando os olhos que pesavam de sono.

Cidade do pecadoHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora