A Vila dos Pescadores

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Sinto saudades daquela água limpa e cristalina banhando meus pés em uma tarde ensolarada assim como lembro de meu primeiro beijo com Amara, a mulher de minha vida.

"Nem a morte nos irá separar." Ela havia dito.

"Jamais." Respondi.

Nos beijamos em seguida.

Independente do que acontecera, ainda tenho essa vila como parte de mim.

Chama-se Zagulu. A palavra tem um significado antigo em uma língua morta: Renascimento. Somos conhecidos como 'Pescadores'. O que dá o nome é a grande lagoa ao centro. Os antigos dizem que há algo de especial com ela.

Yog'fhta é como meu falecido avô nomeou a criatura que ele acreditava que lá vivia. Meu pai discordava da hipótese. A verdade é que ninguém pode afirmar com certeza o que se encontra submerso lá.

Talvez o maior encanto da vila sejam os gentis aldeões, pessoas extraordinárias morando em suas humildes cabanas de madeira, saindo delas todas as manhãs para pescar o que a lagoa lhes proporciona e retirar da terra os apetitosos frutos que a colheita oferece.

Frutos esses que minha mulher era a responsável. Ela havia feito uma torta de maçãs quando me contou que estava grávida. Foi a melhor torta que já comi em toda a minha vida.

O lindo bebê chamou-se Sheeva. Ela me deu uma felicidade que não me recordo de ter sentido em nenhum outro momento de minha vida. A criança cresceu recebendo todo tipo de amor e atenção até completar meia década.

"Surpresas transbordam em uma vida comum, e nem todas são boas" como diria meu falecido avô. Quem diria que o motivo de minhas mais estrepitosas gargalhadas seria o motivo de minhas mais ardentes lágrimas.

Posicionei minha peixeira em uma cadeira de baixo alcance, e Sheeva foi brincar com ela longe da minha vista ou da de minha mulher.

Ele correu com a faca, e só vi aquilo nas suas mãos quando era tarde demais. Ela tropeçou em meu sapato e caiu. A peixeira ficou cravada em sua testa. O erro foi meu.

Zagulu sentiu a perda.

Amara tentava me consolar sempre que via-me chorando pelas longas madrugadas em que desenvolvi insônia.

"Foi um acidente." Dizia ela repetidas vezes "Não foi culpa sua." Nunca adiantou. Eu percebia por seu olhar que no fundo minha esposa me culpava de alguma maneira.

Em meu coração havia um vazio enorme, cujo nenhuma palavra era capaz de preencher.

Enterramos Sheeva após cobrir seu corpo sem vida em um cobertor branco. Eu mesmo cavei o buraco com meu pai.

Sim, meu pai. Um grande homem e um exemplo de racionalidade.

Semanas depois, lembro-me quando o velho saiu de sua casa dizendo que ia pescar pela noite.

Não era um horário recomendado pela senhora Baba, a mais antiga moradora da aldeia.

"De noite Yog'fhta guarda a lagoa."

Meu pai ignorou, e foi a última vez que alguém o viu. Seu barco ressurgiu na margem meses depois completamente despedaçado. Nem o mais forte homem da vila teve coragem o suficiente para procurar por seu corpo naquelas águas.

Amara sonhou certa noite que ele entrou em nossa cabana e posicionou sobre a mesa um revólver carregado e um amuleto de bronze.

Choquei-me pela manhã. Os objetos estavam lá.

A velha Baba afirmou que o amuleto era um sinal místico de que bons tempos estavam por vir.

Ela não estava errada.

Delírios de um Poeta LoucoHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora