Polônia, 1943. Em um bunker, um soldado sobrevivente da "Operação Barbarossa" relata a oficiais de alta patente do 3º Reich um estranho acontecimento que pode ser a verdadeira causa da maior derrota da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, mas...
A medalha da Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro estava perfeitamente alinhada à farda.
Theodor Köhler já esperava há alguns minutos, sentado em um banco, no corredor de um bunker que sequer ouvira qualquer boato enquanto servia ao Reich. O silêncio do longo corredor era vez ou outra, cortado por conversas entre soldados que ecoavam pelo bunker, mas não podia discerni-las.
Sentia frio. Um frio que poderia ser facilmente entendido como vindo daquela construção de puro concreto que nunca mantinha o calor humano ali dentro, mas sabia que o frio que sentia não era consequência da temperatura do bunker.
Não, esse frio não é desse lugar. Esse frio veio comigo. O forte e constante som do salto batendo com o caminhar do soldado tirou Theodor de suas nebulosas lembranças. Ajeitou-se. Sabia que seria atendido, enfim, e sabia que teria a honra de conhecer o Generalfeldmarschall, Fedor von Bock, que liderou sua divisão até o território russo através da Bielorrússia, trazendo consecutivas vitórias ao Führer e a Alemanha. Sentiu novamente um desconforto e rigidez por toda extensão de seu braço esquerdo enfaixado ao se levantar para prestar continência ao Oberst que veio pelo corredor.
- Heil Hitler! - saudou, com a voz firme, logo que o coronel se pôs junto a ele.
- Heil Hitler - o coronel repetiu a saudação - Theodor Köhler, o general Bock está pronto para atendê-lo pessoalmente. Ele está cético quanto aos primeiros relatórios que recebeu. Por favor, acompanhe-me.
Acompanhou as passadas largas do coronel enquanto ouvia atentamente.
- Desta vez seu depoimento sobre o incidente será gravado. Peço que seja claro e conciso quanto às perguntas e ordens do general - continuou o coronel.
- Sim, Senhor.
Quando chegaram à porta, parou e esperou. O coronel entrou, conversou brevemente algo que o soldado não pôde entender e voltou.
- Por favor, Soldado - disse o coronel, acenando na direção da porta, para que Theodor entrasse.
Quando passou pelo espesso e reforçado batente da porta, notou o lugar reconfortante que era a sala: poltronas, carpetes, armários adornados, mesa de centro e, no canto, a mesa e atrás dela e das muitas pastas, tinteiro e caneta estava o general Fedor Von Bock, guardando uma garrafa que acabara de se servir.
O jovem soldado então parou e se pôs o mais firme que conseguiu e fez a saudação com mais veemência do que havia feito ao coronel. Atrás dele, o coronel fechou a porta e se colocou próximo à mesa a mexer no equipamento de gravação. Theodor estremeceu e sentiu mais uma vez seu braço dormente. O incômodo dividia espaço com a admiração em estar na presença do general.
- Muito bem, soldado Köhler - começou o general. - Estou aqui para ouvir seu relato pessoalmente, para que ele tenha minha assinatura e autenticação. Seu depoimento será gravado pelo coronel Kepler e depois enviaremos para registros e estudos, sob guarda do Terceiro Reich. Por favor, sente-se.
- Sim, senhor. - Theodor puxou a cadeira e sentou-se.
- Por favor, antes peço para que jure, pelo Führer, seu sigilo quanto ao ocorrido e seu depoimento. - o general então puxou um tecido, vermelho, de uma das gavetas. Era a bandeira do partido nazista. Estendeu-o parcialmente sobre a mesa, pegou o copo com a bebida que havia se servido e em seguida acenou para que o coronel desse início a gravação.
Theodor Köhler pousou a mão sobre a bandeira, ouviu o click e os rolos de áudio começaram a girar.
- Eu, Theodor Köhler, por Deus, em sagrado juramento, sob incondicional obediência a Adolf Hitler, líder do Reich Alemão, supremo comandante das Forças Armadas, que como um bravo soldado, e pronto a dar minha vida por esse juramento, aqui juro guardar e permanecer em silêncio quanto a meu relato prestado. - Theodor memorizara o juramento, que não era diferente do juramento que havia feito quando entrara para a Hitlerjugend, a juventude hitlerista.
Fedor Von Bock se recostou na poltrona, a analisar Theodor. O jovem soldado apresentava uma palidez notável, naquela sala pouco iluminada por luzes de espectro quente.
- Meu nome é Theodor Köhler. Vinte anos. Schütze da Wehrmacht, do 4º Batalhão do Grupo de Exércitos Centro. Nasci e cresci em Munique...
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