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Capítulo Único

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A garoa fina caía sobre Seul de forma tímida e mansa. Jimin olhava pela janela de forma concentrada, vendo as gotas escorrerem devagar pelo vidro frio. Aquele amanhecer cinzento estava muito parecido com a confusão de sentimentos que sufocava seu peito. Baixou o olhar, sentindo um nó doloroso apertar sua garganta a ponto de tornar difícil até mesmo respirar. Pegou suas muletas com as mãos trêmulas e se encaminhou para a pequena sala de prática, deixando o olhar pesar sobre o notebook fechado em cima da mesa. 

O anúncio oficial sobre a sua lesão sairia em poucas horas e ele simplesmente não sabia o que escrever para os fãs.

Em meio a tantos compromissos e expectativas, parecia que ele nem sequer tinha o direito de se machucar. Ele se culpava por ter sido imprevisível, incauto. Como olharia para os fãs agora? Como encararia os outros membros? Eles teriam que trabalhar em dobro, refazendo todas as posições de dança e adaptando os palcos, enquanto ele não poderia fazer nada. Absolutamente nada. 

A raiva de si mesmo o consumia como fogo brando, misturada a uma decepção profunda. Estava tão exausto e fragilizado que não conseguiu deixar ninguém se aproximar; havia afastado os amigos  apenas para poder chorar sozinho. Mas nem as lágrimas vinham. Tudo permanecia preso, deixando o peito pesado como chumbo.

Ao entrar na sala de prática, deixou as muletas de lado e sentou-se de forma desajeitada em frente ao grande espelho de parede. Ficou perdido na própria mente por minutos que pareceram horas, até sentir um calor suave e familiar espalhar-se por suas costas.

Pelo espelho, viu Jungkook. O mais novo tinha os cabelos levemente desalinhados e o rosto sonolento, mas seus olhos transmitiam uma preocupação tão genuína que fez Jimin se encolher um pouco, instintivamente querendo se esconder.

— O que faz aqui, meu bem? — Jungkook perguntou com a voz rouca de sono, aproximando-se sem pressa até se ajoelhar ao lado dele. A mão do mais novo subiu lentamente até a nuca de Jimin, os dedos deslizando com calma entre os fios macios para trazê-lo para perto.

— Eu... eu sou tão errado, Kook — Jimin murmurou, a voz falhando enquanto sentia a garganta rasgar de dor.

A primeira lágrima finalmente transbordou quando Jungkook o envolveu em um abraço forte e protetor, puxando o corpo de Jimin contra o seu. Foi o suficiente para o dique ruir. Jimin escondeu o rosto no peito do mais novo e deixou toda a dor sair, agarrando-se à camiseta dele como se dependesse daquilo para não afundar. O choro veio pesado, acompanhado de soluços baixos que faziam seu corpo tremer. Jungkook não disse nada de imediato; apenas o segurou com firmeza, balançando os dois devagar de um lado para o outro enquanto cantarolava baixinho uma melodia suave, roçando os lábios no topo da cabeça dele.

Ficaram assim até que os soluços de Jimin diminuíssem e a respiração dele voltasse a se acalmar. Com extrema delicadeza, Jungkook usou os polegares para enxugar as moscas de lágrimas que ainda insistiam em descer pelas bochechas quentes de Jimin. Ele segurou o rosto do mais velho entre as mãos, acolhendo-o, e começou a deixar beijos calmos por toda a sua extensão: um na testa, um em cada pálpebra fechada, um na ponta do nariz e vários na curva da bochecha, demorando-se em cada toque para transmitir segurança.

— Sabe, meu bem... eu fico com o coração na mão vendo você se culpar tanto — Jungkook sussurrou, a boca a milímetros da pele dele, mantendo o olhar fixo nos olhos pequenos e marejados do hyung. — Nós somos humanos, Jimin. Somos falhos, erramos, nos machucamos. Isso não apaga tudo o que você constrói todos os dias. Se você acha que é um fardo ou que não é suficiente, você está completamente enganado.

Jimin continuou em silêncio, sentindo o carinho ritmado dos dedos de Jungkook em sua bochecha.

— Nós somos uma família, e antes de qualquer idol, nós nos preocupamos com o Park Jimin. Com a sua saúde, com o seu sorriso. O resto é só consequência da sua dedicação. Eu só quero ver você bem, querido. Nós te amamos tanto... eu te amo tanto que chega a doer ver você assim.

Um pequeno e sincero esboço de sorriso surgiu nos lábios de Jimin. Sem dizer uma palavra, ele se acomodou melhor, subindo devagar no colo de Jungkook e abraçando o pescoço dele com força. Enfiou o rosto na curva do pescoço do mais novo, respirando fundo para absorver aquele aroma doce e levemente cítrico que sempre o acalmava. Jungkook imediatamente rodeou a cintura de Jimin, trazendo-o ainda mais para junto do próprio corpo, apoiando o queixo no ombro dele e fazendo carinho em suas costas por baixo do casaco macio.

Jungkook era seu abrigo há mais de um ano. Mesmo nos dias em que o estresse e a insegurança pareciam sufocar tudo ao redor, o mais novo mantinha aquela paciência infinita, sabendo exatamente quando falar e quando apenas oferecer o silêncio e o colo.

— Me promete uma coisa? — Jungkook murmurou bem perto do ouvido dele, os lábios roçando a pele macia antes de se afastar um pouco para encarar Jimin nos olhos.

— O que, Kook? — Jimin perguntou baixinho, subindo uma das mãos para acariciar a linha do maxilar do mais novo com a ponta dos dedos.

— Me promete que nunca vai deixar de ser a sua própria luz? Que não vai se abandonar quando as coisas ficarem difíceis assim?

— Por que está me pedindo isso agora?

— Porque dói demais te ver se destruindo por dentro — Jungkook confessou, os olhos brilhando com uma camada fina de água que ele tentava conter. Ele segurou a mão de Jimin que estava em seu rosto e pressionou um beijo demorado na palma dela. — Você é a luz de tanta gente, Jimin. É a minha luz. Um sorriso seu muda completamente o meu dia, me dá forças quando estou cansado. Eu preciso que você cuide dessa luz com o mesmo carinho que cuida de todos nós. Promete que vai tentar sorrir e que não vai desistir de si mesmo? Por mim... por nós?

Jimin sentiu o peito transbordar. Vendo o carinho imenso e a vulnerabilidade nos olhos de Jungkook, não conseguiu formular palavras. Em vez disso, segurou a nuca do mais novo e puxou seu rosto para perto, selando seus lábios nos dele.

O beijo começou devagar, profundo e carregado de um sentimento calmo. Não havia pressa. Jungkook correspondeu imediatamente, envolvendo a cintura de Jimin com mais firmeza para mantê-lo colado a si enquanto pedia passagem com a língua de forma manhosa. A troca era lenta, ritmada, repleta de saudades e de um afeto que dispensava qualquer explicação. Jimin suspirou contra a boca do outro, sentindo as mãos quentes de Jungkook subirem por suas costas até seus ombros, trazendo arrepios por todo o seu corpo.

Entre o roçar de lábios e pequenas pausas para buscarem ar, Jungkook deixava selinhos carinhosos no canto da boca de Jimin, voltando a aprofundar o beijo logo em seguida. As mãos de Jimin se entrançavam nos fios macios da nuca do mais novo, puxando-o com carinho e arrancando um suspiro baixo que fez o peito de ambos vibrar juntos.

Quando finalmente se afastaram por falta de ar, permaneceram com as testas coladas, os olhos fechados e as respirações entrecortadas se misturando no espaço pequeno entre eles. Jimin deu mais um pequeno selinho nos lábios levemente inchados de Jungkook, mordiscando a carne do lábio inferior dele com um carinho tímido antes de sussurrar:

— Eu prometo, meu amor. Eu prometo.

Jungkook abriu um sorriso radiante, aquele sorriso acolhedor que sempre fazia os olhos de Jimin brilharem. Puxou o mais velho para mais um abraço apertado, escondendo o rosto em seu pescoço enquanto espalhava selinhos pelo local. Naquele momento, ouvindo a chuva lá fora e sentindo o calor do corpo de Jungkook, Jimin soube que ficaria tudo bem. Ele tinha o seu porto seguro.

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