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A Floresta

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                    A fachada da noite era calma até demais, como todas as outras naquela floresta escura. Parecia um ambiente totalmente sem vida, não se ouvia sons de animais em canto algum, as próprias folhas das árvores não aparentavam dar importância alguma para a brisa que passeava pelos céus. Permaneciam ali, paralisadas como estátuas, nem mesmo as plantas queriam se mover. Passavam a impressão de que tentavam passar incógnitos, como se caso qualquer som fosse detectado, se o menor movimento fosse feito, estariam condenados.

                    Mas havia algo ali que não se encaixava. Uma coisa passando quase despercebida entre as folhas secas que a cobriam, como se tentassem camuflar, ocultar, pois devia se misturar ao jogo de "esconde-esconde" que a própria natureza brincava.

                    Um movimento mínimo se fez de repente, o frio noturno despertando o corpo pálido que, ao que tudo indicava, simplesmente adormecera em meio àquele matagal. As pontas dos dedos por um instante se viam a tremer, como se estivesse saindo de um coma e o primeiro instinto fosse o de tentar agarrar alguma coisa em vão. Os olhos foram os seguintes, abrindo-se de forma preguiçosa e mostrando ao mato quieto o enevoado no mar escuro que eram as cores de suas orbes, demorando a se acostumar com o completo breu. Confuso, o rapaz em vestes brancas e sujas, completamente inapropriadas para o tempo frio, sentava-se lentamente sobre o chão, ouvindo as folhas secas se quebrando abaixo de si e as poucas que cobriam seu peito deslizarem ao colo.

                    Tudo o que via à sua frente eram poucas luzes que piscavam e logo tornavam a apagar-se, eram minúsculas,claramente se tratavam de vagalumes que voavam por perto. Pareciam ser a única coisa viva naquele local, os insetos e ele próprio; Quando tentou se levantar o moreno percebeu como estava dolorido, olhando ao seu redor e percebendo que estava na beirada de uma longa descida... Talvez tivesse caído de lá? Isso explicaria não só a dor, mas o estado em que estavam suas vestes.    

                    Algo de repente chamou sua atenção, a mudez completa de tudo ao seu redor era tanta que quase fazia seus ouvidos zumbir, tudo tão quieto que qualquer som não seria difícil de ser percebido. E foi justamente isto que tomava o foco do garoto esguio, sons de passos vindos de algum lugar entre as árvores, e não eram poucos, talvez três ou quatro pares de pés percorrendo o ambiente aparentemente perigoso. A adrenalina em seu peito apenas repetia que deveria correr, não poderia ser pego, mas pego por quem? Por que devia fugir? Não teve tempo nem mesmo de questionar aos próprios instintos, eles estavam perto, talvez o suficiente para ouvir a respiração pesada que exalava dos pulmões e corria os lábios rachados pelo frio. Corra, corra, simplesmente corra! Não há tempo para questionar-se agora.

                    E fugir por entre os troncos grossos que bloqueavam seu caminho era um desafio ainda maior, os galhos de folhagens densas não permitiam exatamente que a iluminação da noite entrasse e guiasse para que pudesse notar por onde corria, para onde estava indo, apenas sabia que estava desesperado por sua vida, ao menos era esta a sensação que tinha no peito. Aquilo era o equivalente a correr por meio de um labirinto de olhos vendados, por mais que tentasse arregalar os olhos castanho-escuros era difícil de identificar o que havia diante de si, então era obrigado a manter as mãos estendidas diante do corpo. As machucava sempre que ia de encontro a um obstáculo, sentindo a ardência mesmo que ainda estivesse com o corpo quase entorpecido, dormente pelo frio que o congelou até os ossos.

                    E não tinha sucesso, afinal, aqueles passos apenas ficavam mais claros conforme seguia, talvez o fato de estar correndo tão afoito entregasse exatamente a sua localização, fazendo sons muito mais altos à medida que buscava escapar. Estava cavando a sua própria cova.

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