I musn't cry

807 68 87
                                        

Elas continuavam a me empurrar contra os azulejos frios daquele banheiro escolar sujo. Os socos foram parando aos poucos, todas as três já deviam ter se divertido o bastante hoje. Depois de uma delas falar um xingamento qualquer, saíram.

E assim me deixaram: no chão do banheiro, com hematomas fracos e um psicológico ferido. Eu não chorava, as "lágrimas" ficavam presas à beira de minhas pálpebras. O esforço que eu fazia para não chorar era indescritível.

"Eu não posso chorar... Eu não posso chorar, não posso... não posso chorar..." Repetia aquilo como se pudesse convencer-me de que iria funcionar. "Respira... respira..." Inspirava e expirava atendendo os meus comandos. Com o tempo a vontade foi diminuindo.

A porta do banheiro se abriu, indicando que alguém entrou. Hora de sair. Esbarrei na pessoa sem querer e murmurei um "desculpa". Ela não respondeu, porém senti um par de olhos queimarem minha nuca, não me importei, eu devia estar com uma cara horrível.

Todo o caminho para casa eu só pensava em uma coisa: me trancar no quarto para finalmente chorar em paz, longe de todos.

Entrei correndo no meu lar, uma saudação vinda do meu pai na sala foi o que eu ouvi. Apenas fingi não escutar e subi as escadas correndo, trancando-me em meu quarto. O espelho de corpo inteiro em frente a porta tinha um único propósito: lembrar-me do meu estado desprezível toda vez eu voltava da escola, provocando assim, o meu choro.

Me arrastei contra a porta até alcançar o chão, botei minha cabeça entre as pernas, abraçando meus joelhos. Então chorei, deixando as lágrimas correrem pela minha pele. Não. Lágrimas não. Não foram lágrimas que saíram.

~~•~~

Havia livros sendo abraçados contra meu peito. Estava me encaminhando para a terceira aula do dia. Um garoto esbarrou em mim propositalmente, fazendo os cadernos e livros irem ao chão. Ele empurrou-me para a parede rudemente e eu infelizmente ouvi o início do que o idiota disse.

"Latina suja...e-"

Abaixei a cabeça apagando o que ele falava da minha mente, o garoto parou de me insultar e saiu de perto, comecei a me abaixar para pegar minhas coisas.

Mas eu fui devagar demais, uma menina de olhos verdes que parecia ter a minha idade os alcançou antes, os entregando-me.

"Não devia deixar ele fazerem isso." Disse e eu ignorei, continuando meu caminho para sala. Se ela falou aquilo quer dizer que ela viu, e se ela realmente se importasse, teria o impedido.

Na aula a garota veio falar comigo.

"Posso me sentar com você?"

Murmurei algo em afirmação é ela o fez.

"Por que você deixa eles fazem bullying com você? Por que não reclama ou fala com o diretor?"

"Uma hora para." Respondi desinteressada, copiando a matéria do quadro.

A garota falava algo, eu nem a encarava, deixava ela falar sozinha.

~~•~~

As garotas já tinham saído, eu estava lá de novo, me controlando para não chorar.

A mesma menina de olhos verdes de antes— que eu descobrira pela aula que chamava-se Lauren— entrou e se sentou na minha frente no chão. Eu continuava a repetir a mantra: "Eu não posso chorar."

"Por que?" Me perguntou como se tivesse em seu direito entrar na minha vida.

"Não..." respirei fundo, controlando a vontade de libertar meu choro. "...te interessa."

I mustn't cry - Camren One-ShotStories to obsess over. Discover now